Sunday, June 29, 2008

Henry Kissinger: "Soares pertence à facção extremista?"

Tiago Moreira de Sá é historiador e ex-jornalista. Tem um livro “Os Americanos na Revolução Portuguesa” e está a preparar outro, igualmente sobre os Estados Unidos e Portugal durante o período revolucionário de 1974-75.
Na revista Atlântico de Maio publicou o texto “Os EUA e a ‘Revolução Spínolista’”, de que se publicam dois excertos retirado do blogue. Uma das melhores frases é mesmo a de Kissinger quando pergunta se Mário Soares é um extremista.

“A 25 de Abril de 1974, Henry Kissinger reúne com o staff do Departamento de Estado que dirigia. Um dos temas em cima da mesa é o golpe de Estado em Portugal, a chamada revolução dos cravos. Vale a pena transcrever parte do que foi dito sobre o nosso país, num diálogo inédito entre o todo-poderoso secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, e o responsável máximo do Departamento de Estado para os Assuntos Europeus, Arthur Hartman.

Arthur Hartman: «Espero que não me negue a oportunidade de falar sobre um golpe de Estado na Europa. Não é todos os dias que tenho essa hipótese (risos). As últimas notícias são que [Marcello] Caetano foi preso – não há nenhuma palavra sobre o que aconteceu com [Américo] Tomás. Existe um relato de um funcionário da embaixada dizendo que Spínola estava a ir para o quartel-general nacional no meio da aclamação popular. De qualquer modo, ainda nada é absolutamente definitivo sobre que grupo tomou conta do poder e quais as suas políticas. Tanto quanto sei, não há relatos a partir das colónias sobre as actividades lá.»
Henry Kissinger: «Então, se se trata de Spínola a política nas colónias será mais liberal.»
AH: «Mais liberal. Existem algumas evidências de que têm existido grupos económicos a apoiar a posição [de Spínola].»
HK: «Mas eles têm que estar loucos para pensarem que podem aguentar as colónias através de meios mais liberais. Assim que entrarem por esse caminho vão perder as colónias.» (1)
(…)
“O mais condecorado herói de guerra”

O diálogo entre Henry Kissinger e Arthur Hartman constitui um resumo elucidativo da reacção inicial dos Estados Unidos ao 25 de Abril. Nele se percebe a surpresa com que o derrube do Estado Novo é recebido em Washington, assim como o quase total desconhecimento acerca do Movimento das Forças Armadas (MFA) – e, finalmente, a atribuição do golpe de Estado militar a António de Spínola.
Estas percepções são confirmadas pelos demais registos existentes nos arquivos norte-americanos, desde logo pela correspondência trocada entre a Embaixada em Lisboa e o Departamento de Estado.
No dia seguinte, ocorre mais uma reunião de Henry Kissinger com o seu staff do Departamento de Estado onde, entre outros assuntos, são analisadas as consequências da “crise Palma Carlos”:

Arthur Hartman: «A situação portuguesa está também a tornar-se mais confusa. Alguns ministros demitiram-se, incluindo o primeiro-ministro. Parece que as coisas estão a transformar-se numa luta entre o próprio Spínola, que quer ter mais poder e dar mais poder aos ministros civis e “centristas”, e os militares [do MFA] que o têm apoiado.»
Henry Kissinger: «A minha previsão tem sido sempre que só há dois desenvolvimentos possíveis. Ou os militares tomam conta do poder ou a esquerda fá-lo-á.»
AH: «Há uma complicação adicional pois existem alguns elementos de esquerda no grupo militar.»
HK: «Nós estamos fora disso?»
AH: «Tanto quanto sei.»
HK: «Bem, diz-lhes para ficarem fora disso. Sabemos o suficiente para ter uma perspectiva?»
AH: «Penso que não sabemos.»
HK: «Bem, desde que estejamos fora disso. Pessoalmente, prefiro que um grupo centrista domine a situação. Mas não vejo que tipo de apoio poderá ter.»
AH: «Claramente, terá que ter o apoio dos militares.»
HK: «Aparentemente, Soares continua no Governo.»
AH: «Sim.»
HK: «Ele pertence à facção extremista?»
AH: «Não. Mas está aparentemente à espera do seu momento, pois penso que esta é mais uma luta entre os dois ministros comunistas, um dos quais é o ministro do Trabalho, e os centristas.» (2)

(1) The Secretary´s Principals and Regionals Staff Meeting, Department of State, April 26, 1974, National Archives.
(2) The Secretary´s Principal´s and Regional´s Staff Meeting, July 10, 1974

Saturday, June 28, 2008

François Mitterrand, porta-voz das "dúvidas" soviéticas sobre Cunhal?


François Mitterrand era líder do PCF e da oposição em França quando foi a Moscovo, de 23 a 28 de Abril de 1975. No regresso, a embaixada norte-americana em Paris recolheu as opiniões de Mitterrand sobre a visita e o que pensava que os soviéticos pensavam da revolução portuguesa e dos seus "planos" para a Península Ibérica.
No telegrama enviado para o Departamento de Estado, em Washington, a embaixada emite também uma opinião ou “impressão” de Mitterrand sobre Álvaro Cunhal, secretário-geral do PCP e fiel aliado desde há décadas do partido irmão soviético, do “centro”. Seria mesmo? A avaliar pelos contactos na capital soviética, não. Melhor dizendo: a liderança soviética – o Kremlin ou o Partido Comunista da União Soviética (PCUS)? - tinha dúvidas ou fazia passar a ideia de que tinham dúvidas.
O telegrama tem como fontes “os mais directos colaboradores” daquele que viria a ser presidente de França e aliado de peso de Mário Soares nesses meses agitados. Mitterrand, segundo os seus colaboradores, “regressou de Moscovo convencido de que os soviéticos não têm uma estima muito grande pelo líder do Partido Comunista Português Cunhal, cuja inexperiência política e intransigência pessoal olham como uma força desestabilizadora na Europa”.
“Na ausência de melhor alternativa, Mitterrand espera que o PCUS continue a apoiar Cunhal, apesar de considerar altamente exageradas as notícias da imprensa sobre os fortes apoios financeiros dos soviéticos [ao PCP]. Na sua opinião, os soviéticos estão claramente mais interessados na estabilidade política da Europa Ocidental do que em ganhos nacionais”, pode ler-se no telegrama. Em Portugal, no caso.
Surpreendente ou talvez não. Esta visão, porém, não era consensual. Giscard d'Estaing, por exemplo, não tinha esta opinião tão "simpática" das intenções soviéticas. Bem pelo contrário.







Extracto do telegrama dos National Archives, que pode ser consultado aqui.






CONFIDENTIAL
PAGE 01



PARIS 11844 01 OF 02 092110Z
63
ACTION EUR-12
INFO OCT-01 ARA-06 IO-10 ISO-00 CIAE-00 DODE-00 PM-03 H-02
INR-07 L-02 NSAE-00 NSC-05 PA-01 PRS-01 SP-02 SS-15
USIA-06 OMB-01 SAJ-01 SAM-01 /076 W
--------------------- 083548
R 092057Z MAY 75
FM AMEMBASSY PARIS
TO SECSTATE WASHDC 9260
INFO AMEMBASSY BELGRADE
AMEMBASSY BERLIN
USMISSION USBERLIN
AMEMBASSY BONN
AMEMBASSY BUCHAREST
AMEMBASSY BUDAPEST
AMEMBASSY LISBON
AMEMBASSY LONDON
AMEMBASSY MOSCOW
AMEMBASSY PRAGUE
AMEMBASSY ROME
AMEMBASSY SOFIA
AMEMBASSY WARSAW
USMISSION GENEVA
USMISSION NATO
AMCONSUL BORDEAUX
AMCONSUL LYON
AMCONSUL MARSEILLE
AMCONSUL MARTINIQUE
AMCONSUL NICE
AMCONSUL STRASBOURG
C O N F I D E N T I A L SECTION 01 OF 02 PARIS 11844
GENEVA FOR USDEL CSCE
E.O. 11652: GDS
TAGS: PINT, FR, PFOR, UR

SUBJECT: PS/PCF RELATIONS AFTER MITTERRAND'S MOSCOW TRIP

SUMMARY AND CONCLUSIONS. IN THE AFTERMATH OF SOCIALIST
PARTY FIRST SECRETARY FRANCOIS MITTERRAND'S MOSCOW TRIP,
FRENCH SOCIALIST/COMMUNIST (PS/PCF) RELATIONS ARE
ENTERING A NEW PHASE. AFTER SOME SEVEN MONTHS OF PUBLIC
SQUABBLING, THE PS AND PCF HAVE COOLED THEIR POLEMIC
AND ARE MAKING SOME MOVES TOWARD GREATER DIALOGUE.
FOLLOWING HIS MOSCOW TRIP, MITTERRAND INVITED HIS PCF
PARTNERS IN THE UNITED LEFT TO A SUMMIT MEETING; ALTHOUGH
THE PCF HAS NOT OFFICIALLY AGREED, THE PARTY'S
CENTRAL COMMITTEE HAS INDICATED THAT IN PRINCIPLE IT IS
NOT OPPOSED.
WITH MITTERRAND RIDING HIGH ON WHAT THE PS PERCEIVES AS
THE INTERNATIONAL RECOGNITION BESTOWED ON IT BY THE
MOSCOW TRIP, WITH THE PS IN A STRONGER POSITION TO
ASSERT ITSELF WITHIN THE UNITED LEFT -- AS POLLS CONFIRM
THAT THE PCF HAS SLIPPED BADLY WHILE THE PS HAS MADE
MAJOR GAINS, THE PCF SEEMS TO HAVE OPTED AGAINST A
CONTINUATION OFITS PUBLICQUARREL WITH THE PS. THE
UNION OF THE LEFT'S DOMESTIC POLICY MAY TAKE A SLIGHT
TURN TO THE LEFT -- AS THE PRICE WHICH THE PS WILL HAVE
TO PAY IN ANY SUMMIT NEGOTIATION. HOWEVER, FOREIGN
POLICY DIFFERENCES BETWEEN THE PS AND PCF WILL REMAIN
AND COULD EVEN BECOME MORE PRONOUNCED OVER SUCH ISSUES
AS FRANCE'S NATO MEMBERSHIP, THE EC AND SALT/MBFR.
OVER THE NEAR TERM THIS UNEASY ALLIANCE WILL TAKE ON A
MORE CORDIAL TONE, BUT THE SUBSTANCE OF PS/PCF DIFFERENCES
REMAINS UNCHANGED.
WE DISCUSS BELOW ASPECTS OF MITTERRAND'S MOSCOW TRIP,
THE PS CONVENTION ON PS/PCF RELATIONS, AND RELATED
INTERNAL DEVELOPMENTS AFFECTING THE UNION OF THE LEFT.
END SUMMARY AND CONCLUSIONS.

1. MITTERRAND'S MOSCOW TRIP (APRIL 23-28): PORTUGAL.
MITTERRAND'S CLOSEST ASSOCIATES HAVE TOLD US THAT HE
RETURNED FROM MOSCOW CONVINCED THAT THE SOVIETS ARE
NOT STRONGLY ATTACHED TO PORTUGUESE COMMUNIST PARTY
LEADER CUNHAL, WHOSE LACK OF POLITICAL EXPERTISE AND
PERSONAL INTRANSIGENCE THEY VIEW AS A POLITICALLY
DESTABILIZING FORCE IN EUROPE. IN THE ABSENCE OF A
BETTER ALTERNATIVE, MITTERRAND EXPECTS THE CPSU TO
CONTINUE TO SUPPORT CUNHAL ALTHOUGH HE DISMISSES PRESS
REPORTS OF HEAVY SOVIET FINANCIAL SUPPORT FOR THE PCP
AS WILDLY EXAGGERATED. IN HIS VIEW, THE SOVIETS ARE
CLEARLY MORE INTERESTED IN WESTERN EUROPEAN POLITICAL
STABILITY THAN IN NATIONAL COMMUNIST GAINS.
(...)

Friday, June 27, 2008

Gierek e os avisos aos revolucionários portugueses


Edward Gierek (1913-2001) era primeiro secretário do partido comunista da Polónia e esteve em Portugal durante a revolução, no primeiro mês de 1975.
Em Lisboa, Gierek encontrou-se sucessivamente com Álvaro Cunhal, líder histórico do PCP, o primeiro-ministro, general Vasco Gonçalves, e outro general, Otelo Saraiva de Carvalho, comandante do COPCON.
Tad Szulk, num artigo publicado em 1976 (Tad Szulc, “Lisbon and Washington: Behind the Portuguese Revolution”, Foreign Policy 21 (Winter 1975-1976) descreve que o Edward Gierek aconselhou os portugueses a “avançarem mais devagar com a revolução”, advertindo para os riscos de tensão entre os Estados Unidos e a União Soviética poderia “causar danos à détente”.
Analistas da CIA também tinham essa tese - de que os soviéticos não estariam dispostos a trocar uma “aventura” vermelha em Lisboa pelo “status quo” com os norte-americanos.
A mesma análise era feita pelos social-democratas suecos de Olof Palme, em Junho de 1976. O embaixador norte-americano em Estocolmo aproveita um encontro com Palme para lhe pedir uma avaliação da situação portuguesa, dado que um colaborador do líder sueco, Pierre Schori, tinha regressado essa semana de Lisboa. Além disso, Palme tinha conversado com Gierek, o que o tinha “descansado” sobre a revolução portuguesa.
O líder comunista polaco garantira-lhe que nem os soviéticos nem outros dirigentes da Europa de Leste “não desejam, repito, não desejam ‘precipitar os acontecimentos’ em Portugal”. Segundo Gierek, Portugal estará “pronto para uma revolução burguesa, mas não ainda para [uma revolução] proletária”.
E faz uma apreciação do líder polaco sobre Cunhal, considerando-o “razoável”. Os dirigentes à volta de Cunhal “estiveram muito tempo presos” o que, segundo Gierek, os tornou “demasiado ‘linha dura’”.


Extracto do telegrama original, que pode ser consultado em nara.gov.


CONFIDENTIAL
PAGE 01 STOCKH 02982 191211Z 46
ACTION EUR-12
INFO OCT-01 ISO-00 SAM-01 SAJ-01 IO-10 CIAE-00 DODE-00
PM-03 H-02 INR-07 L-03 NSAE-00 NSC-05 PA-01 PRS-01
SP-02 SS-15 USIA-06 ACDA-05 EB-07 OMB-01 TRSE-00
AID-05 AF-06 NEA-10 /104 W
---------------------
097663
R 191100Z JUN 75
FM AMEMBASSY STOCKHOLM
TO SECSTATE WASHDC 4948
INFO AMEMBASSY COPENHAGEN
AMEMBASSY HELSINKI
AMEMBASSY LISBON
AMEMBASSY OSLO
AMEMBASSY REYKJAVIK
USMISSION USNATO
C O N F I D E N T I A L STOCKHOLM 2982
E.O. 11652: GDS
TAGS: PFOR, PO, SW

SUBJECT: SWEDISH PRIME MINISTER DISCUSSES PORTUGUESE SITUATION
1. WHILE CALLING ON PRIME MINISTER OLOF PALME PRIOR
TO HIS DEPARTURE JUNE 19 FOR OFFICIAL VISITS TO
MEXICO, VENEZUELA AND CUBA (SEPTEL), I ASKED HIM FOR
HIS ASSESSMENT OF THE CURRENT PORTUGESE SCENE. I
SAID I UNDERSTOOD THAT ONE OF HIS AIDES, PIERRE
SCHORI, HAD RETURNED ONLY THIS WEEK FROM A VISIT TO
THAT COUNTRY AND MIGHT HAVE SOME NEW INSIGHT INTO
THE SITUATION THERE.
(…)
3. THE PRIME MINISTER SAID THAT HE IS PLEASED WITH
THE POSITION OF THE USG AND THE EC-9 TOWARDS THE
PORTUGUESE GOVERNMENT. OUR ATTITUDE OF "WATCHFUL
WAITING," HE SAID, IS ALSO THE SWEDISH APPROACH.
PALME SAID HE IS WATCHING DEVELOPMENTS CLOSELY IN
PORTUGAL. HOWEVER, HE CONTINUED, HE FELT LESS WORRIED
SINCE HIS TALK WITH THE FIRST SECRETARY OF THE POLISH
COMMUNIST PARTY, EDWARD GIEREK, WHO VISITED SWEDEN
EARLY THIS MONTH (STOCKHOLM 2789). ACCORDING TO PALME,
HE AND GIEREK DISCUSSED PORTUGAL AT CONSIDERABLE
LENGTH. HE SAID GIEREK TOLD HIM THAT THE SOVIETS AND
OTHER EAST EUROPEANS DO NOT RPT NOT WISH TO
"PRECIPITATE EVENTS" IN PORTUGAL, AND THAT WHILE
PORTUGAL IS READY FOR A "BOURGOIS" REVOLUTION, IT IS
NOT READY YET FOR A "PROLETARIAN" ONE. GIEREK
DESCRIBED CUNHAL AS "REASONABLE," BUT ASSERTED THAT
SOME OF THE MEN AROUND HIM "HAD BEEN TOO LONG IN
JAIL," IMPLYING THAT THEIR TIME IN PRISON HAD MAKE
THEM TOO HARD-LINE.


Thursday, June 19, 2008

Alertas no NYT, cartazes nas paredes em Lisboa




A 30 de Setembro de 1974, dois dias depois do 28 de Setembro e da falhada manifestação da "maioria silenciosa", Spínola demite-se no meio de grande confusão e palavras duras e sombrias sobre o futuro do país, em que alertou para novas ditaduras, agora de sinal contrário, de esquerda.

Nos Estados Unidos, a demissão de Spínola é um dos primeiros alertas sobre a revolução dos cravos. O jornal "The New York Times" titula que as forças armadas portuguesas estão em alerta máximo para responder a um eventual golpe... Leia-se a notícia, retirada do Arquivo Pintasilgo, assim descrita:

"UNEASY PORTUGAL ON VIGIL FOR COUP : Armed Forces Alerted as a Precation in Wake of Spinola Resignation"
Autor: Henry Giniger
Âmbito e Conteúdo: Artigo, publicado no jornal «The New York Times», sobre o estado de alerta em que se encontravam as Forças Armadas portuguesas na sequência da resignação de António de Spínola do cargo de presidente da República, destacando a tensão política que se vivia em Portugal.

Data: [Out.1974]

Local: [Nova Iorque]


Enfim, todos tiveram de esperar cinco meses, até ao 11 de Março de 1975...

Post Scriptum: Vale a pena uma visita ao site do Arquivo Lourdes Pintasilgo -

Tuesday, June 17, 2008

Os desabafos de Kissinger na Cimeira de Helsínquia, em 1975


É uma imagem clássica da Cimeira de Helsínquia, em 1975. Uma reunião, no auge do Verão Quente da revolução, em que Portugal está no centro das atenções dos líderes mundiais. Brejnev foi confrontado sobre os apoios da URSS aos comunistas portugueses e disse que, no regresso a Moscovo, ia pensar no assunto.
À margem da cimeira, Gerald Ford e Henry Kissinger tiveram encontros com líderes europeus, entre eles o primeiro-ministro grego. Portugal voltou a ser tema de conversa e Kissinger lá desabafa que os Estados Unidos tinham "perdido um ano" por culpa dos europeus que lhe diziam que “não havia problema”. Caramanlis está céptico e diz que Portugal “não tem solução”.

Extracto do memorando, em inglês.

Memorandum of Conversation1
Helsinki, July 30, 1975, 1 p.m.
PARTICIPANTS
Greece:
Prime Minister Caramanlis
Foreign Minister Bitsios
Chef de Cabinet Molyviatos
U.S.:
The President
The Secretary of State
Mr. Arthur A. Hartman, Assistant Secretary for European Affairs
There was a brief discussion in the garden of the President’s previous
stops and then of his future travel plans including his plans to
meet with the Japanese Prime Minister.
(…)
The President: What do you think of Portugal today?
Caramanlis: I think it is hopeless.
The Secretary: That is my view.
The President: Do you think that they should stay in NATO if they
are Communists?
Caramanlis: There may be a civil war there. It depends on the
conservatives.
Bitsios: It is also bad for Spain.
The President: I noted that the Workers’ Associations in Spain have
voted and they have chosen either liberal or Communist leadership.
The Secretary: Yes.
Caramanlis: The Portuguese situation has a dangerous effect in
Spain and Italy. In my view when situations develop that are bad they
need immediate measures to correct them.
The Secretary: You’re right. We have wasted a year on Portugal
mainly because the West Europeans said there was no problem.
Caramanlis: In the case of Portugal, Cyprus and Arab oil, we
now have a big problem which creates hostility but if these crises
are dealt with quickly they usually can be solved and we can avoid
confrontation.


1 Ford Library, National Security Adviser, Memoranda of Conversations,
Box 14, CSCE, 7/26–8/4/75. Secret; Nodis. Drafted by Hartman. The meeting was held
at the Ambassador’s residence. Ford and Kissinger were in Helsinki for CSCE talks.
In "Foreign Relations of the United States, 1969–1976 - Greece; Cyprus; Turkey,
1973–1976 (Volume XXX)", Ed. Laurie Van Hook

[Foto: Soviet leader Leonid Brezhnev in expressive mood between his U.S. counterpart Gerald Ford (left) and the Soviet Foreign Minister Andrei Gromyko (right). Photo:VESA KLEMETTI]

Tuesday, June 10, 2008

Cunhal e a "táctica mais perigosa" para os Estados Unidos em 74





Era o primeiro congresso do PCP na legalidade após o 25 de Abril, mas só se realizou em Outubro, seis meses passados sobre o golpe dos “capitães”.
Da embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, o congresso é acompanhado com interesse. No telegrama, com a data de 24 de Outubro, o embaixador Stuart Nash Scott conclui que “a táctica” adoptada pelo PCP liderado por Cunhal é aquela que, “quanto aos interesses, a longo prazo, dos EUA”, é “provavelmente a mais perigosa que o PCP poderia seguir” - ou seja, credibilizar-se com um discurso para conseguir "respeitabilidade e legitimidade".
De resto, ao longo das suas seis páginas, o telegrama faz a descrição dos trabalhos do congresso dos comunistas, incluindo a decisão de retirar a expressão “ditadura do proletariado” das suas teses e o programa de emergência que, para o diplomata, mais não era do que “uma versão portuguesa” da “Nova Política Económica”, adoptada por Lenine, em 1921. Neste “post”, é apresentado o “sumário” do telegrama e o último ponto, o décimo, aquele em que Scott faz uma apreciação sobre o congresso.


PAGE 01 LISBON 04611 01 OF 02 241316Z
43
ACTION EUR-12
INFO OCT-01 AF-04 ISO-00 IO-04 CIAE-00 PM-03 H-01 INR-05
L-01 NSAE-00 NSC-05 PA-01 RSC-01 PRS-01 SP-02 SS-15
USIA-06 SAM-01 EB-04 COME-00 TRSE-00 AGR-05 CIEP-01
SIL-01 LAB-01 NIC-01 /076 W
--------------------- 106059
R 241209Z OCT 74
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC 0843
INFO AMEMBASSY BONN
AMEMBASSY PARIS
AMEMBASSY MADRID
AMCONSUL LOURENCO MARQUES
AMCONSUL LUANDA
USMISSION NATO
USCINCEUR
DIA
AMCONSUL OPORTO
AMCONSUL PONTA DELGADA
LIMITED OFFICIAL USE SECTION 1 OF 2 LISBON 4611
E.O. 11652: N/A
TAGS: PINT PO
SUBJ: SPECIAL PCP CONGRESS APPROVES "EMERGENCY PLATFORM"
REF: FBIS LONDON A) 210009Z; B) 210330Z; C) 210402Z
D) 210222Z
SUMMARY: SPECIAL CONGRESS OF PORTUGUESE COMMUNIST PARTY
(PCP) HAS APPROVED "EMERGENCY PROGRAM" ADVOCATING DEFENSE
OF LIBERTIES AND REINFORCEMENT OF PORTUGUESE DEMOCRACY,
CONTINUATION OF DECOLONIZATION AND, IN EFFECT, ADVANCEMENT
OF A PORTUGUESE VERSION OF LENIN'S "NEW ECONOMIC POLICY" OF 1921.
PCP SECRETARY GENERAL CUNHAL SPOKE OF IMPEDIMENT THAT GENERAL
SPINOLA REPRESENTED FOR DEVELOPMENT OF PORTUGUESE DEMOCRACY. CUNHAL
ALSO DWELT AT LENGTH ON PROGRAM'S EXPURGATION OF SLOGAN
"DICTATORSHIP OF THE PROLETARIAT" FROM THE CONVENTIONAL
LITANY, SINCE IT CAN BE TOO EASILY MISCONSTRUED FOLLOWING
YEARS OF DICTATORSHIP FROM A DIFFERENT QUARTER. CUNHAL
WARNED THAT THERE COULD BE NO BARRIERS WITHIN THE PARTY
LEADERSHIP BETWEEN PRE-APRIL 25 (CLANDESTINE) MILITANTS
AND THOSE WHO HAVE EMERGED SINCE. STATISTICS WERE ISSUED
ON COMPOSITION OF CONGRESS DELEGATES AND PARTY MEMBERSHIP, AND
FULL COMPOSITION OF CENTRAL COMMITTEE WAS REVEALED FOR FIRST TIME.
LISBON PRESS ACCOUNTS SUGGEST THAT MANY CONGRESS DELEGATES
WERE UNHAPPY WITH THE BANNING OF SLOGAN ON DICTATORSHIP
OF PROLETARIAT. DOSCINTENT WITHIN RANKS MAY ALSO STEM
FROM EMERGENCY PROGRAM'S EMPHASIS ON STRENGTHENING NATIONAL
ECONOMY AND ACHIEVING SOCIAL AND ECONOMIC REFORM, RATHER
THAN DENUNCIATION OF SOCIAL EVILS AND INEQUALITIES
INHERITED FROM THE DISCRETIED PAST. END SUMMARY.
(…)
10. THE PARTY IS FOLLOWING A CLEVER LINE DESIGNED TO ENSURE ITS
ACHIEVEMENT OF LEGITIMACY AND RESPECTABILITY IN NEW PORTUGAL.
AS FAR AS LONG-RUN US INTERESTS ARE CONCERNED, THIS IS
PROBABLY THE MOST DANGEROUS TACTIC THE PCP COULD UNDERTAKE.
SCOTT


A versão integral do telegrama pode ser lida aqui, retirada dos National Archives.



Da página do PCP na Internet (http://www.pcp.pt/) retirei o resumo sobre o congresso:

A 20 de Outubro de 1974, poucos meses depois do 25 de Abril, reúne-se extraordinariamente o primeiro Congresso do PCP na legalidade, após 48 anos de fascismo. Com milhares de convidados em festa, milhares de delegados representando um Partido em forte crescimento aprovam modificações ao Programa e aos Estatutos, decorrentes da situação de liberdade conquistada. Aprova também, este VII Congresso, uma Plataforma de Emergência contendo medidas fundamentais para a defesa e desenvolvimento da Revolução. O Comité Central, apresentado ao Congresso, era então composto por 23 membros efectivos e 13 suplentes.

Tuesday, May 27, 2008

O esquecimento faz parte da memória



É uma frase estupenda, esta a da historiadora Irene Pimentel, retirada de uma peça do Público: "O esquecimento faz parte do próprio trabalho da memória"

Irene Pimentel dedica Prémio Pessoa aos que lutam pela preservação de lugares de memória

Irene Pimentel, investigadora de História Contemporânea e que ontem recebeu o Prémio Pessoa 2007, entende que existem "nos mais velhos um excesso de memória, visível na obsessão com que alguns temas recalcados tomam uma dimensão considerável" e, "nos mais jovens, uma míngua de memória, inevitável com o surgimento de gerações totalmente estranhas à vivência da ditadura". "No entanto - continuou -, contra a sensação de que a memória desse período não chega aos jovens, tem de se dizer que o esquecimento faz parte do próprio trabalho da memória".
A historiadora referia-se especificamente à memória sobre o período do Estado Novo, um dos temas centrais do seu trabalho e do discurso que proferiu ontem, ao princípio da noite, na cerimónia de entrega do prémio, realizada no Museu Militar, em Lisboa, e presidida pelo Presidente da República.
Autora do primeiro estudo completo sobre a polícia política (História da PIDE, edição da Temas e Debates), Irene Pimentel, de 58 anos, reforçou a ideia de que contra a insuficiência ou o excesso de memória deve "erguer-se o trabalho da História", enquanto conhecimento que permite ao investigador "libertar-se do passado, através de duplo trabalho de recordação e de luto".
(sem "link" - copiado manualmente)

Sunday, May 25, 2008

O jovem Donald Rumsfeld, a história e Portugal



Uma das coisas curiosas para quem "mexe" nos baús da história é encontrar políticos famosos em início de carreira. Mas nem por isso com problemas de "défice" de poder. Que o diga Donald Rumsfeld, ex-secretário da Defesa. Antes de ser "despedido" por Bush Jr., por causa do Iraque, Rumsfeld foi chefe de gabinete de Gerald Ford e depois nomeado para secretário da Defesa. A escolha de Frank Carlucci para embaixador norte-americano em Lisboa terá tido influência activa de Rumsfeld, com quem depois o diplomata mantinha contactos durante os meses quentes que esteve em Portugal. E que terão servido para "influenciar" a administração norte-americana (ou seja Ford) sem passar pelo "pessimista" Henry Kissinger, o todo-poderoso secretário de Estado.
(A1110-28A. President Ford and Chief of Staff Donald Rumsfeld in the Oval Office. September 29, 1974. Ford Library)

Uma foto com história



Encontrei, finalmente, uma imagem de arquivo (foto da AP, disponível na Ford Library, das conversações, em Moscovo, de Ford e Kissinger com Leonid Brejnev, a 21 de Janeiro de 1976. Aquelas em que o líder soviético disse que não conhecia Álvaro Cunhal... E que levou Cunhal a chamar "mentiroso" a Brejnev.

Friday, May 23, 2008

Uma capa, mil palavras


Uma imagem (uma capa da Time) que diz tudo do clima psicológico em torno da revolução dos cravos. Até pela cor.
Apetece escrever: "Say you wanna a Revolution? Starring Otelo, Vasco Gonçalves and Costa Gomes"

E os americanos “vigiam” Cunhal

São dezenas de telegramas: sempre que Cunhal dá uma entrevista, seja em França, Brasil, Checoslováquia, havia uma embaixada ou consulado norte-americano a fazer um telegrama.
Um mês antes do 11 de Março, tentativa “putchista” de Spínola e seus apoiantes, Cunhal alertava para os riscos de golpe num país em que “rumores de golpe” andavam de boca em boca, de manchete em manchete.
Veja-se este telegrama, do embaixador norte-americano em Lisboa Frank Carlucci, sobre uma entrevista do líder comunista à revista brasileiro “Veja”: Cunhal, segundo Carlucci, falava em risco de golpe da direita, e de guerra civil, para tentar “arrefecer” os rumores de que o PCP estaria a preparar a tomada do poder.
(Ler o telegrama na íntegra aqui)

CONFIDENTIAL
PAGE 01 LISBON 00880 141927Z
20
ACTION EUR-12
INFO OCT-01 AF-06 ARA-06 ISO-00 CIAE-00 DODE-00 PM-03 H-01
INR-07 L-02 NSAE-00 NSC-05 PA-01 PRS-01 SP-02 SS-15
USIA-06 ACDA-05 SAJ-01 /074 W
--------------------- 039717
R 141635Z FEB 75
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC 1755
INFO AMEMBASSY BONN
AMEMBASSY BRASILIA
AMEMBASSY LONDON
AMCONSUL LOURENCO MARQUES
AMCONSUL LUANDA
AMEMBASSY MADRID
AMEMBASSY PARIS
AMCONSUL RIO DE JANEIRO
USMISSION NATO
DIA WASHDC
USCINCEUR VAIHINGEN GER
AMCONSUL OPORTO
AMCONSUL PONTA DELGADA
C O N F I D E N T I A L LISBON 880
EO 11652: GDS
TAGS: PINT, PO
SUBJ: ALVARO CUNHAL ON "LOCKED GATE" AND POSSIBILITY OF CIVIL WAR
1. SECRETARY GENERAL OF PORTUGUESE COMMUNIST PARTY (PCP)
ALVARO CUNHAL GRANTED INTERVIEW TO BRAZILIAN MAGAZINE "VEJA"
IN WHICH HE STATED THAT THERE WAS NOTHING EXTRAORDINARY ABOUT
NATO "LOCKED GATE" EXERCISE SINCE PORTUGAL IS MEMBR OF NATO.
CUNHAL WENT ON TO STATE THAT TIMING OF EXERCISE POORLY CHOSEN,
BUT IT NOT NECESSARY TO "DRAMATIZE" THAT FACT.
2. REGARDING POSSIBILITY OF CIVIL WAR IN PORTUGAL, CUNHAL
STATED THAT CIVIL WAR NOT LIKELY, BUT THAT IT COULD ARISE IF
CONFIDENTIAL

CONFIDENTIAL
PAGE 02 LISBON 00880 141927Z
"COUNTE-REVOLUTIONARY FORCES" MADE ARMED COUP ATTEMPT.
3. COMMENT: IT APPARENT THAT CUNHAL IS MAKING ATTEMPT IN
"VEJA" INTERVIEW TO COOL ALARMIST RUMORS CONNECTED WITH RECENT
ISSUES SUCH AS "LOCKED GATE" AND DRAFT LABOR LAW, ESPECIALLY
REGARDING PCP ATTEMPTS TO TAKE OVER GOVT.
STATEMENTS MADE IN "VEJA" SIMILAR TO PREVIOUS STATEMENTS MADE
BY CUNHAL ON THESE TOPICS.
CARLUCCI
CONFIDENTIAL
NNNN

Thursday, May 22, 2008

Cunhal contra "comezainas", pelos "petiscos"


Um “post” algo marginal ao tema central do blogue. Há dias, numa conversa com militantes comunistas, disseram-me que Álvaro Cunhal não tinha muito o hábito de ir almoçar ou jantar “fora”, essa prática tão portuguesa. Mas quando ia um dos locais preferidos era o “Santo António de Alfama”.

Leia-se o que diz Cunhal da comida em “Cinco Conversas com Álvaro Cunhal”, de Catarina Pires, Campo das Letras, 1999, citado por Miguel Carvalho em “Álvaro Cunhal – Íntimo e Pessoal”, Campos das Letras, 2006.

“Às vezes, zás, também gostava de comer uns petiscos em conjunto ou de um piquenique… Comezainas nunca apreciei”.

O livro e os Açores (i)


Gustavo Moura, ex-director do Açoriano Oriental e um dos personagens dos acontecimentos de Junho de 1975 em Ponta Delgada (foto retirada de paralelo37.blogspot.com), escreveu um artigo "Justiça e emoções não fazem bom casamento…" no Correio dos Açores sobre dois livros – Portugal Classificado e “Marechal Costa Gomes – No centro da Tempestade”, de Luís Nuno Rodrigues.

«Nas últimas semanas vieram a público vários livros sobre acontecimentos recentes da nossa vida colectiva, especialmente versando o Movimento de 25 de Abril de 1974 e alguns dos seus protagonistas. Trinta anos depois, muitos arquivos são abertos aos investigadores e documentos na época classificados como secretos ou confidenciais deixam de o ser, ficando ao dispor de historiadores e, em muitos casos, do público em geral. De entre os vários livros recentemente editados sobre estas matérias, dois chamaram a nossa atenção e vou os lendo, com particular interesse e muito cuidado, pois versam uma época e acontecimentos que vivemos intensamente e algum protagonismo. Falamos dos livros “Marechal Costa Gomes – No centro da Tempestade”, de Luís Nuno Rodrigues, e “Portugal Classificado – Documentos Secretos Norte-Americanos 1974-1975”, de Nuno Simas. Os dois trabalhos são amplamente documentados com extensas transcrições de textos oficiais, apontamentos de reuniões ao mais alto nível, telegramas, troca de notas e correspondência diplomática e, também, de observações pessoais de alguns dos intervenientes, retiradas dos seus diários e cartas particulares. Este conjunto de informações permite-nos compreender melhor as circunstâncias que condicionaram os acontecimentos políticos e sociais daquela época, clarificando atitudes que a emotividade da altura e o desconhecimento de todos os dados envolvidos conduziam a pressupostos nem sempre os mais correctos. Mais uma vez se prova que a História necessita de algum distanciamento e de investigação exaustiva das fontes disponíveis e credíveis, para que o juízo sobre acontecimentos e personalidades possa ser o mais justo. (...)


A autonomia é uma conquista política. As conquistas, mesmo as políticas, fazem-se com lutas e a política leva, por vezes, vezes demais, a tortuosos caminhos para atingir o objectivo desejado e nenhum dos seus protagonistas pode reclamar total pureza. E quando é o interesse colectivo que está em causa, as questões pessoais não podem ser determinantes. É sacrifício doloroso, sem dúvida. Mas um interesse superior, por visar o bem comum, assim o exige. »

Nota pessoal: Conheci Gustavo Moura quando era director do Açoriano Oriental e fui em reportagem aos Açores. Recebeu-me no seu gabinete, com algum formalismo, ou não fosse eu, na altura, repórter de um jornal “irmão” – o DN. Gustavo Moura foi um dos personagens dos acontecimentos de Junho de 1975, mas disso não falámos nessa altura, só anos depois quando nos cruzámos num jantar oficial. Sempre meticuloso e rigoroso.

Wednesday, May 21, 2008

Cunhal nos arquivos norte-americanos (i)


Este é um excerto de um telegrama enviado pelo Departamento de Estado (não citado no meu livro) em que o embaixador João Hall Themido, diploma português em Washington que resistiu ao 25 de Abril e ficou em funções, apesar da queda da ditadura. Ele foi uma “peça”, pela continuidade, na tentativa de acalmar o aliado americano face às mudanças de regime em Portugal. A 30 de Maio de 1974, Themido estivera em Lisboa e regressou a Washington com uma mensagem de amizade aos Estados Unidos, nessa altura ainda na fase de “wait and see”, mas já com os olhos postos em Álvaro Cunhal , líder do “único partido organizado”, como não se cansava de dizer Kissinger. Conciliador, João Hall Themido dizer que, até ao momento, fizera declarações muito “responsáveis”. Nos meses, anos seguintes o embaixador teve posições bem mais alarmadas sobre "os comunistas" em Portugal...
(Telegrama retirado dos National Archives)
Ver o telegrama na íntegra aqui


CONFIDENTIAL
PAGE 01 STATE 113385
63
ORIGIN EUR-25
INFO OCT-01 ISO-00 CIAE-00 DODE-00 PM-07 H-03 INR-10 L-03
NSAE-00 NSC-07 PA-04 RSC-01 PRS-01 SP-03 SS-20
USIA-15 IO-14 AF-10 SAM-01 EB-11 /136 R
DRAFTED BY EUR/IB:WPKELLY:MS
APPROVED BY EUR - WELLS STABLER
--------------------- 091061
P 301929Z MAY 74
FM SECSTATE WASHDC
TO AMEMBASSY LISBON PRIORITY
C O N F I D E N T I A L STATE 113385
E.O. 11652: GDS
TAGS: PFOR, PO, U-S.
SUBJECT: CONVERSATION WITH PORTUGUESE AMBASSADOR TO U.S.
1. AMBASSADOR THEMIDO (JUST RETURNED FROM CONSULTATION IN
LISBON) CALLED ON ACTING ASSISTANT SECRETARY STABLER LATE
AFTERNOON MAY 28 TO DELIVER LETTER FROM FOREIGN MINISTER
SOARES TO SECRETARY THANKING HIM FOR HIS MESSAGE AND TO
CONVEY--UNDER INSTRUCTIONS--SOARES' STRONGLY EXPRESSED
DESIRE FOR STRENGTHENED PORTUGUESE RELATIONS WITH U.S.
COPY OF LETTER BEING POUCHED FOR POST INFO. MAJOR
ELEMENTS OF CONVERSATION ARE SUMMARIZED BELOW.
(...)
5. STABLER ASKED HOW THE PROVISIONAL GOVERNMENT OPERATES
VIS-A-VIS THE JUNTA. THEMIDO REPLIED THAT THE PG
IMPLEMENTS THE PROGRAM DEFINED BY THE JUNTA AND THE ARMED
FORCES MOVEMENT BUT THAT THE JUNTA CONCERNS ITSELF
PRINCIPALLY WITH BROAD GUIDELINES FOR SOLVING THE MAJOR
ECONOMIC AND POLITICAL PROBLEMS OF THE COUNTRY, E.G.
LABOR DIFFICULTIES AND THE OVERSEAS TERRITORIES. THEMIDO
EXPLAINED WHY COMMUNISTS ARE INCLUDED IN THE PROVISIONAL
GOVERNMENT, VOLUNTEERED HIS PERSONAL OPINION THAT CUNHAL
HAS BEEN "RESPONSIBLE" THUS FAR IN THE STATEMENTS HE
HAS MADE, AND SAID THAT ELECTIONS WILL CLEARLY SHOW WHERE
PORTUGAL IS GOING POLITICALLY (WHICH THEMIDO SEEMED TO
THINK WAS TOWARD THE CENTER).

Duas semanas antes, a embaixada norte-americana em Lisboa apresentava, em cinco linhas, Cunhal, então nomeado ministro sem pasta no Governo Provisório, como um comunista, “duro” e “disciplinado”, actualmente líder do PCP, e que nos últimos 14 anos viveu em Praga.
Ver o telegrama na íntegra aqui


CONFIDENTIAL
PAGE 01 LISBON 01949 01 OF 02 161602Z
43
ACTION EUR-25
INFO OCT-01 AF-10 ARA-16 NEA-14 ISO-00 EURE-00 SSO-00
NSCE-00 USIE-00 INRE-00 CIAE-00 PM-07 H-03 INR-10
L-03 NSAE-00 NSC-07 PA-04 RSC-01 PRS-01 SP-03 SS-20
SAM-01 OMB-01 NIC-01 SAJ-01 SSC-01 DRC-01 /131 W
--------------------- 044774
O R 161500Z MAY 74
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC IMMEDIATE 9610
INFO Z/AMEMBASSY BRASILIA 152
AMEMBASSY CONAKRY
AMEMBASSY DAKAR
AMCONSUL LOURENCO MARQUES
AMCONSUL LUANDA
AMEMBASSY LUSAKA
AMEMBASSY MADRID
AMCONSUL OPORTO UNN
AMCONSUL PONTA DELGADA UNN
AMEMBASSY RABAT
AMEMBASSY PRETORIA
USCINCEUR
CINCLANT
DIA
COMUSFORAZ
USMISSION NATO
C O N F I D E N T I A L SECTION 1 OF 2 LISBON 1949
E.O. 11652: GDS
TAGS: PINT, PGOV, PO
SUBJ: PROVISIONAL GOVERNMENT NAMED

(…)
3. MINISTER WITHOUT PORTFOLIO ALVARO CUNHAL, 50, IS A TOUGH,
DISCIPLINED LIFE-LONG COMMUNIST PRESENTLY SERVING
AS PCP SECRETARY GENERAL. FOR PAST FOURTEEN YEARS
HE HAS LIVED IN PRAGUE. HE HAS SPENT TWELVE YEARS IN
PORTUGUESE PRISONS.

Sunday, May 18, 2008

O que Kissinger dizia de Portugal em 1975



Esta é a transcrição de uma conversa telefónica entre o secretário de Estado, Henry Kissinger, e o subsecretário de Estado para os Assuntos Europeus, Art Hartman, em 17 de Julho de 1975. Por essa altura, há muito tinha terminado a fase do "wait and see" e do cepticismo do homem forte do Departamento de Estado. Kissinger quer acção e está muito bem informado do que se passava nas ruas e nos corredores do poder. O objectivo de pôr o camarada Vasco na rua é claro e explícito! O texto foi publicado no DN e também está no livro. A fonte deste documento é o FOIA do Departamento de Estado.

Hartman Temos uma reunião do gabinete marcada para as 12:30. Quer reunir antes disso?
Kissinger OK, pode ser às 12:30. Mas, entretanto, podemos enviar uma mensagem a Carlucci [embaixador em Lisboa]: se ele quer trazer de Portugal um prémio de boas maneiras democráticas? E Costa Gomes compreende que se ele tomar a iniciativa nós apoiamos?

H Bom, ah...
K Sim ou não?
H Não sei dizer...
K Estamos a fazer alguma coisa quanto a esta crise ou estamos a pensar...no que fazer.
H Não, estamos a pensar dar o nosso apoio público.
K Mas o que estamos realmente a fazer?
H Não sei o que estamos a fazer. Ele [Carlucci] está a conversar com eles.
K Mas o que está ele a dizer?
H Ele diz que os elementos democráticos deveriam ser apoiados.
K Isso significa o quê?
H Significa apoiar Soares e o PPD, dar o poder aos oficiais moderados [do MFA] e pôr [o primeiro-ministro, Vasco] Gonçalves na rua. Mas ele [Carlucci] está a fazer as coisas calmamente com as pessoas com quem tem falado.
K E com quem tem ele falado?
H Ele teve uma conversa com [Melo] Antunes e com algumas pessoas do seu gabinete e...
K Para mim, Soares e o PPD são uma dor de cabeça. Eu quero que os moderados... vençam. (...)
K Espero que ele [Carlucci] esteja a fazer tudo ao seu alcance para Costa Gomes e [Melo] Antunes entenderem que nós os apoiamos no seu esforço para que ganhe o grupo dos moderados. (...)
H Há um perigo - é se eles devem livrar-se já de Gonçalves. A situação económica é muito má.
K Nós vamos ajudar.
H Sim, mas a situação é muito má e...
K Art... Se nos livrarmos de Gonçalves, eu depois resolvo esse problema.
H OK.
K Isso não me preocupa muito. Se nos livrarmos de Gonçalves e da sua equipa, deixe-me ser eu a preocupar-me com a situação económica. (...)
H Depois haverá cada vez menos ligações com os comunistas.
K É verdade. E se conseguirmos que os comunistas avancem, podemos esmagá-los.
H Bom, eles andam todos nas ruas.
K Quem? Os comunistas?
H Tanto os comunistas como os socialistas. [Otelo Saraiva de] Carvalho distanciou-se agora um pouco de [Vasco] Gonçalves. O que pode acabar por ser uma ajuda para os moderados. Mas eu acho que, a certa altura, ele vai querer poder.

E agora o comunicado conjunto

Este foi o comunicado conjunto publicado depois das conversações em Washington, a que chamo de "missão impossível" para o general Costa Gomes.

Joint Communique Following Discussions With President Francisco da Costa Gomes of Portugal.
October 18th, 1974
AT THE INVITATION of President Ford, His Excellency Francisco da Costa Gomes, President of the Republic of Portugal, visited Washington on October 18. President Costa Gomes, who was accompanied by the Foreign Minister, Dr. Mario Soares, had meetings with President Ford and with Secretary of State Kissinger and was the guest of honor at a luncheon given by Secretary Kissinger.
President Costa Gomes outlined the achievements of the Portuguese Government in light of recent events in restoring civil and political liberties to Portugal and in creating the basis for a return to democracy. He reported on the negotiations which had led to the independence of Guinea-Bissau and explained his government's plans for the granting of self-determination and independence to the remaining overseas territories. He reaffirmed his government's commitment to the North Atlantic Treaty and its desire to develop even closer ties to the United States.
President Ford expressed his admiration for the statesmanship shown by Portuguese leaders in undertaking to restore democracy to Portugal by holding free elections soon and in making possible the enjoyment of the right of self-determination and independence by the peoples of Portugal's overseas territories. He noted with pleasure President Costa Gomes' reaffirmation of Portugal's commitment to NATO and expressed his confidence that ties between the United States and Portugal will become ever closer.
The two Presidents agreed that, as these developments proceed, it would be in our mutual interest to intensify the cooperation between the two countries to embrace new activities in a broad range of areas, such as education, health, energy, agriculture, transportation and communications, among others. They agreed that this expansion of their cooperation could begin with technical talks in the fields of agriculture, public health, education and financial and economic matters, as requested by the Portuguese authorities.
They also agreed that the two countries should continue and intensify negotiations relating to cooperation in the Azores.


John Woolley and Gerhard Peters, The American Presidency Project. Santa Barbara, CA: University of California
The American Presidency Project (americanpresidency.org)

As relações atribuladas de Costa Gomes com os EUA


Um dos capítulos sobre Costa Gomes teve a sua inspiração neste artigo, publicado no DN a 1 de Agosto de 2005, numa série de artigos sobre o "Verão Quente". Esta foi resumidamente a conversa de Costa Gomes com Ford e Kissinger, que no livro surge mais desenvolvida e circinstanciada. No "post" seguinte, publico o cinzento comunicado conjunto emitido depois da reunião...

Costa Gomes quis sossegar os EUA

O general Costa Gomes foi, no Verão Quente de 1975, um aliado tácito dos Estados Unidos, apesar das desconfianças, tanto do embaixador norte-americano em Lisboa Frank Carlucci como do próprio secretário de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, com quem o então Presidente se reuniu a 18 de Outubro de 1974. O memorando dessa conversa, na Sala Oval da Casa Branca, foi desclassificado este ano pela Gerald Ford Library, nos EUA, e revela como o general tentou convencer a administração norte-americana de que haveria poucos riscos da formação de um "governo predominantemente comunista" - tese que manteve durante anos a fio. E começou por apresentar-se como "admirador especial dos Estados Unidos", já que estivera colocado dois anos na base da NATO de Norfolk... Aproveitando para "clarificar" o que se passava então no País, o general explicou ao presidente Gerald Ford e a Henry Kissinger a "profunda e súbita" transformação de Portugal, que deixou de ser uma ditadura para "voltar a conquistar a liberdade". Garantindo o empenhamento "do Governo, das Forças Armadas" no estabelecimento de um regime "democrático, com liberdade para todos", a sua fidelidade aos compromissos internacionais e à NATO. A seguir, falou dos problemas do País. Da descolonização. Da crise económica, "um problema muito sério". "Se não for resolvido, pode levar à vitória da extrema-direita ou da extrema-esquerda", aler- tou Costa Gomes. E é depois que dá explicações sobre a influência dos comunistas em Portugal e no Governo. O encontro de Costa Gomes na Casa Branca, recorde-se, ocorreu depois do 28 de Setembro e da tentativa de "golpe" de Spínola, que renunciou ao cargo de Presidente da República com um discurso pessimista sobre o País. Na Sala Oval, o presidente tentou convencer Ford e Kissinger do "grande sentimento anticomunista dos portugueses". "A maior parte da população vive no Norte, onde a influência dos comunistas é nula", garantiu, descrente de eventuais hegemonias dos comunistas. O mesmo argumento, ironicamente, ouviu-o do líder soviético, Leonid Brejnev, na visita que fez, em 1975, a Moscovo, aconselhando-o a não "mudar de regime"... Gerald Ford interrompe, algumas vezes faz perguntas e diz que, para Washington, é importante que Portugal faça "reformas democráticas", a começar pelas eleições. Resposta do general "É muito importante para nós - um ponto de honra -- que as eleições vão para a frente." Antevendo, desde logo, que "os comunistas, nas urnas, não iriam ter a força que muitos receiam." [Nas eleições para a Constituinte tiveram 12,5% dos votos].A conversa com Gerald Ford estava quase no fim. Seguiu-se o famoso almoço em que Kissinger comparou Mário Soares a Kerensky. O diálogo entre o presidente português e Henry Kissinger foi tenso a propósito do papel dos militares na "revolução" portuguesa, como lembra Costa Gomes no livro "O Último Marechal". Apesar da tensão, os Estados Unidos da América consideravam o presidente um aliado, a quem confiavam, em exclusivo, o tratamento de assuntos sensíveis da NATO. A desconfiança era muita, a ponto de Gerald Ford, numa reunião do governo, a 4 de Junho de 1975, ter dito que os Estados Unidos receavam que Portugal quisesse continuar na Aliança Atlântica para "servir os interesses dos comunistas"...

Saturday, May 17, 2008

E agora no Contraditório, da Antena 1

Um obrigado à Ana Sá Lopes pela referência ao livro no Contraditório de sexta-feira, na Antena 1.


Foi numa sala como esta e com estes personagens à volta da mesa do gabinete de Gerald Ford ou do National Security Council, na Casa Branca, que se discutia a “revolução dos cravos” em Portugal, em 1974 e 1975.

Friday, May 16, 2008

Costa Gomes em Washington, em Outubro de 1974


Outro dos capítulos do livro - Costa Gomes- Missão a Washington de um aliado improvável" - aborda o encontro do general Costa Gomes, Presidente da República, em Outubro de 1974, com o presidente norte-americano, Gerald Ford e o secretário de Estado, Henry Kissinger. Mário Soares, líder do PS e ministro dos Negócios Estrangeiros, também esteve em Washington. Costa Gomes era presidente de um país que tinha como primeiro-ministro outro militar que, durante meses, foi uma verdadeira obsessão para os norte-americanos - o general Vasco Gonçalves. Um adversário que, curiosamente, o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Frank Carlucci, respeitava...