Thursday, August 21, 2008

A propaganda soviética e a revolução portuguesa (iii)


O jornalista e autor de "O «Apollo» parte para águas alheias" Oleg Ignatiev, nascido em 1924 e formado em Relações Internacionais, é apresentado na contracapa como jornalista do Pravda, autor de "mais de 600 artigos sobre Portugal com a assinatura O. Ignatiev". [Sempre achei este tipo de contabilidade uma obsessão muito comunista].
Não discuto a questão das empresas de fachada da CIA nem os seus estratagemas, como seria o caso do iate "Apollo".
Há informações cruzadas e incontroversas no livro que é apresentado como "narração documental completa". O que não apresenta são as fontes utilizadas - a não ser uma ou outra referência ao relatório da Comissão Pike, que analisou o falhanço dos serviços de informação norte-americanos na década de 70...
E os erros são clamorosos. Um dos que salta à vista é logo nas páginas 8 e 9 (ler "post" anterior) em que descreve - com citações e tudo... - a discussão na embaixada norte-americana em Lisboa sobre o 25 de Abril logo na manhã do dia do golpe dos oficiais do MFA. Numa sala estão John Morgan, um "homem da CIA", e o embaixador em Lisboa, Stuart Nash Scott. Escrevi estão a negrito e itálico porque Nash Scott estava nessa manhã nos Açores, na base das Lajes. A dormir!... O embaixador seguiu depois viagem para Nova Iorque e só voltou no final do mês. O próprio Scott o escreveu nas memórias e há registos da sua passagem pelas Lajes.
Mais intrigante é saber como terá Ignatiev obtido as actas de uma reunião do Comité dos 40, liderada por Henry Kissinger, secretário de Estado e conselho nacional de segurança, sobre "operações secretas" da "companhia" em Portugal.
Tanto ou ainda mais intrigante foi o jornalista do "Pravda" ter conseguido o teor - com citações e tudo... - das conversações entre um director da CIA, Vernon Walters, com o sucessor de Scott na embaixada de Lisboa, Frank Carlucci, nos meses da brasa em 1975.
E que dizer de Ignatiev ter posto na mesa das conversações dos presidentes de Portugal, António de Spínola, e dos Estados Unidos, Richard Nixon, num encontro na base das Lajes, em Junho de 1974, o líder do então PPD e ministro sem pasta, Francisco Sá Carneiro, além de outros membros da delegação de Nixon? Ora, a conversa foi a dois, Spínola-Nixon, apenas com a presença de um tradutor...
Enfim, a ser tudo verdade, como é contado, era um bom enredo para um livro de Le Carré. Ou então a KGB era verdadeiramente uma "máquina" mais terrível que o Echelon!

A propaganda soviética e a revolução portuguesa (ii)







A propaganda soviética e a revolução portuguesa (i)




O livro de Oleg Ignatiev, correspondente do Pravda em Lisboa, de 1979 a 1984, é um exemplo - com alguns pormenores desarmantes, da propaganda soviética no tempo da Guerra Fria. No caso, sobre Portugal. É das Edições Progresso, "Impresso na URSS", em 1985.


Era a verdade a que eles tinham direito.

Tuesday, August 19, 2008

Pedradas do MRPP custaram 8 a 10 mil dólares à Mobil em 1973


Em 1973, o PCTP/MRPP já era citado nos telegramas da embaixada norte-americana em Lisboa. O autor do telegrama 04643, de 19 de Dezembro de 1973, é Richard Post, “número dois” da embaixada. Activistas do MRPP atacaram, à pedrada, o principal escritório da empresa Móbil, em Lisboa. “Os danos estimados pela empresa são de oito a 10 mil dólares.” As sedes de outras empresas americanas – Readers Digest e Ford – “também foram apedrejadas, provavelmente pelo mesmo grupo”.
Richard Post apresenta o MRPP como “uma pequena facção maoista de extrema-esquerda que no passado tem distribuído panfletos, mas sem causar danos”.


LIMITED OFFICIAL USE
PAGE 01 LISBON 04643 200711Z
15
ACTION EUR-25
INFO OCT-01 AF-10 ISO-00 NIC-01 SAJ-01 EB-11 COME-00 EA-11
CIAE-00 DODE-00 PM-07 H-03 INR-10 L-03 NSAE-00 NSC-10
PA-04 RSC-01 PRS-01 SPC-03 SS-20 USIA-15 AEC-11 SY-10
OPR-02 IO-14 DRC-01 SSO-00 /175 W
--------------------- 052871
R 191554Z DEC 73
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC 8912
INFO AMCONSUL LOURENCO MARQUES
AMCONSUL LUANDA
AMCONSUL OPORTO
AMCONSUL PONTA DELGADA
USMISSION GENEVA
LIMITED OFFICIAL USE LISBON 4643
GENEVA FOR SECRETARY'S PARTY
EO 11652: N/A
TAGS: PINS, PO
SUBJ: US FIRMS STONED BY COMMUNIST YOUTHS
1. MAIN OFFICE OF MOBIL PORTUGUESA WAS STONED ABOUT
8:00 P.M., DECEMBER 18 BY 15-20 YOUTHS. DAMAGE ESTIMATED
BY COMPANY AT $8-10,000.
2. LEAFLETS AT SCENE IDENTIFIED PERPETRATORS
AS MRPP (RE-ORGANIZED MOVEMENT OF PORTUGUESE PROLETARIAT),
A SMALL MAOIST FAR LEFT FACTION WHICH HAS IN PAST
DISTRIBUTED LEAFLETS BUT NOT CAUSED DAMAGE.
3. ONE LEAFLET, DATED DECEMBER 17, HEADLINED "KISSINGER
OUT OF PORTUGAL." STRIKING AT US AND PORTUGAL ON USUAL
COMMUNIST THEMES, LEAFLET TOOK GOP TO TASK FOR SELLING

PAGE 02 LISBON 04643 200711Z
NATION TO US AND CLAIMED GOP ADVANCED DATE OF
SECRETARY'S VISIT TO PORTUGAL FROM DEC. 20 TO DEC. 17
BECAUSE OF POPULAR OPPOSITION TO VISIT.
4. LEAFLET WENT ON TO DECRYUS DOMINATION OF
PORTUGUESE ECONOMY, US AIR BASES IN PORTUGAL AND AZORES,
ATOMIC BOMBS STORED IN PORTUGAL AND POLARIS
SUBMARINE BASE AT PRAIA. (SMALL PORT ON TERCEIRA ISLAND FOR
LAJES FIELD.)
5. DOWNTOWN OFFICES OF READER'S DIGEST AND FORD WERE
ALSO STONED, PERHAPS BY SAME GROUP.
POST
LIMITED OFFICIAL USE
NNN

(o símbolo e a história do PCTP/MRPP foi retirado do “site” Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra, e o telegrama consultado no “site” dos National Archives)

Monday, August 18, 2008

EUA recusaram apoio a Spínola cinco dias antes do 25 de Abril *


Nuno Simas
Agência Lusa

Os Estados Unidos recusaram apoiar um apelo da Holanda e do ministro português da Educação em 1974, Veiga Simão, para pressionarem Marcelo Caetano a aceitar as teses de Spínola para uma solução política na guerra colonial em África.
"Uma aproximação nesse sentido pelo Governo [norte-americano], de apoio às teses de Spínola não contribuiria para uma política mais flexível de Portugal em África", afirma Henry Kissinger, secretário de Estado norte-americano, num telegrama enviado ao embaixador em Lisboa, Stuart Nash Scott, datado de 20 de Abril de 1974, a cinco dias do golpe que derrubou a ditadura.
Os telegramas trocados entre a representação americana em Lisboa e o Departamento de Estado nos meses de Março e Abril, antes do golpe do 25 de Abril - desclassificados em 2003 e consultáveis na página dos Arquivos Nacionais norte-americanos www.archives.gov - revelam as derradeiras tentativas de influenciar Marcelo Caetano a resolver o problema colonial - a guerra prolongava-se há 14 anos e já fizera milhares de mortos.
E houve várias nesse período em que Portugal assistiu a mais uma tentativa (falhada), a 16 de Março de 1974, para derrubar a ditadura - o golpe das Caldas - e em que o Movimento das Forças Armadas (MFA) conspirava activamente para derrubar o sucessor de Salazar.
Em Fevereiro, fora António de Spínola, antigo comandante militar da Guiné e ex-vice-Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, a dar mais um abalo ao regime com a publicação de "Portugal e o Futuro", o livro que propunha uma saída política para a guerra colonial e uma solução federal para as "colónias".
A 27 de Março, a Holanda apresentou um memorando intitulado "Descolonização dos territórios de Portugal em África", entregue no Departamento de Estado norte-americano e nas chancelarias de outros países europeus, e em que propunha o início de negociações - "enquanto é tempo" - com os movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
Dois dias depois, Henry Kissinger assinou um telegrama em que informa a embaixada em Lisboa, e as restantes representações diplomáticas na Europa e África, do rotundo "não" americano explicado em três pontos.
Primeiro, afirma a "simpatia" dos Estados Unidos pela proposta holandesa, mas lembra os resultados "nada produtivos" dos contactos com Portugal a favor da autodeterminação das "possessões africanas portuguesas".
Em segundo lugar, Washington afirma o seu cepticismo quanto a esta iniciativa, ainda mais tendo em conta "a crise política interna" criada com o livro de Spínola, que poderia ser interpretada pelo Governo português "como uma interferência nos assuntos internos".
Por fim, o Governo norte-americano não podia associar-se a uma iniciativa deste tipo face às "delicadas e difíceis negociações" para renovação da Base das Lajes, nos Açores, que os Estados Unidos utilizavam desde a II Guerra Mundial.
A nível interno, uma das últimas tentativas de ajudar a "abrir" o regime partiu de um ministro da Educação do próprio Marcelo Caetano.
A 2 de Abril de 1974 - a 23 dias do golpe dos capitães -, Veiga Simão tentou convencer o embaixador Stuart Nash Scott a pressionar o presidente do conselho a aderir às teses que Spínola expusera em "Portugal e o Futuro", o livro que pôs Washington de sobreaviso para a crise profunda em que vivia a ditadura, velha de 48 anos.
Veiga Simão foi almoçar com o "número dois" da embaixada para explicar a Richard Post que uma aproximação a Caetano reforçaria as posições do professor de direito, numa altura em que estava a braços com a pressão da ala mais à direita do regime, como o general Kaulza de Arriaga, em aliança com o Presidente Américo Tomás.
"Veiga Simão indicou que algumas coisas levavam o seu tempo e que ele achava que Caetano era favorável a uma maior liberalização e que uma aproximação deste tipo pelos EUA poderia ajudar Caetano a resolver os problemas no seu tempo", conclui Scott num telegrama para o Departamento de Estado.
Após a conversa, o diplomata escreveu que a iniciativa do ministro, no Governo de Marcelo Caetano desde 1970, poder ser interpretada como uma tentativa de "fazer frente" aos "ultras" do regime.
E concluiu que seria "contraproducente" uma iniciativa deste tipo por parte dos Estados Unidos face "à situação política tensa" em Portugal e também face relacionamento distante do diplomata americano, que chegara a Lisboa há pouco meses, tanto com Marcelo Caetano como com Rui Patrício, ministro dos Negócios Estrangeiros.
Enquanto a diplomacia ia falhando e a situação militar no Ultramar se complicava para Portugal, os oficiais do MFA já tinham concluído, por esses dias, os planos do golpe militar para derrubar o regime que já fora de Salazar e era agora de Caetano.
António de Spínola, em quem os Estados Unidos não confiaram para derrubar o regime, foi o general escolhido para receber o poder de Marcelo Caetano, na tarde de 25 de Abril, e tornou-se Presidente da República. Por escassos cinco meses, até 30 de Setembro.

* Uma peça minha de 09 de Serembro de 2006 encontrada "algures" na Internet.

Thursday, August 14, 2008

Maoístas na pátria de Mao


O telegrama de Carlucci, embaixador norte-americano em Lisboa, não é sequer classificado. Foi enviado – "unclassified" - a 11 de Abril de 1975 para o Departamento de Estado. O assunto é desenvolvido em apenas dois parágrafos e explica que dois grupos maoístas rivais tinham enviado delegações à China - uma da Associação de Amizade Portugal-China, apoiada pelo MRPP, e outra da Associação Democrática de Amizade Portugal-China, apoiada pelo PCP-ML e da AOC.
De cada uma, é descrita a delegação de "camaradas" portugueses seguidores de Mao. Do MRPP foi Francisco Baptista e Afonso Albuquerque (na foto) e a segunda delegação era composta pelo secretário-geral do PCP-ML, José Manuel Pires de Carvalho Vilar, e por Carlos José Guinote, do Comité Central da AOC.
O texto do diplomata norte-americano ilustra as divisões entre os grupos maoístas: "Numa entrevista, a 08 de Abril, um porta-voz da AOC afirmou que Vilar e Guinote estavam na China a convite do país, demonstrando o apoio ‘do Partido Comunista Chinês ao PCP-ML". Um porta-voz do grupo rival denunciou a visita do grupo apoiado pelo PCP-ML destinava-se "apenas a aprofundar a divisões dos amigos da China".

UNCLASSIFIED
PAGE 01 LISBON 02082 111932Z
15
ACTION EUR-12
INFO OCT-01 AF-06 EA-10 ISO-00 CIAE-00 PM-03 H-02 INR-07
L-02 NSAE-00 NSC-05 PA-02 PRS-01 SP-02 SS-15 USIA-15
SAM-01 SAJ-01 /085 W
--------------------- 101158
R 111332Z APR 75
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC 2458
INFO AMEMBASSY BONN
AMCONSUL HONG KONG
AMEMBASSY LONDON
AMCONSUL LOURENCO MARQUES
AMCONSUL LUANDA
AMEMBASSY MADRID
AMEMBASSY MOSCOW
AMEMBASSY PARIS
USLO PEKING
USMISSION NATO
DIA WASHDC
USCINCEUR VAIHINGEN GER
AMCONSUL OPORTO
AMCONSUL PONTA DELGADA
UNCLAS LISBON 2082
E.O. 11652: N/A
TAGS: PINT, PFOR, PO, CH
SUBJ: RIVAL FAR LEFTISTS VISIT CHINA
1. TWO RIVAL MAOIST PARTIES HAVE SENT DELEGATIONS TO CHINA.
MRPP SUPPORTED "PORTUGAL-CHINA FRIENDSHIP ASSOCIATION" (AAP-C)
IS REPRESENTED BY FRANCISCO BAPTISTA AND AFONSO ALBUQUERQUE.
"DEMOCRATIC ASSOCIATION OF PORTUGAL-CHINA FRIENDSHIP," SUPPORTED
BY MARXIST-LENINIST COMMUNISTS (PCP-ML) AND THEIR ELECTION
CAMPAIGN CREATION, THE WORKER-PEASANT ALLIANCE (AOC), HAVE SENT
PCP-ML SECRETARY GENERAL JOSE MANUEL PIRES DE CARVALHO VILAR AND
AOC CENTRAL COMMITTEE MEMBER CARLOS JOSE GUINOTE.
UNCLASSIFIED

UNCLASSIFIED
PAGE 02 LISBON 02082 111932Z

2. AOC SPOKESMAN IN PRESS INTERVIEW APRIL 8 STATED THAT
VILAR AND GUINOTE WERE IN CHINA AT THAT COUNTRY'S INVITATION,
DEMONSTRATING THAT "CHINESE COMMUNIST PARTY IS GIVING POLITICAL
SUPPORT TO THE PCP-ML." AAP-C SPOKESMAN DENOUNCED PCP-ML/AOC
GROUP'S VISIT AS BEING DESIGNED "ONLY TO (FURTHER) DIVISION OF
THE FRIENDS OF CHINA."
CARLUCCI
UNCLASSIFIED

Sunday, August 10, 2008

O (des)interesse da China em Portugal visto de Hong Kong


A 10 de Junho de 1975, o consulado norte-americano em Hong Kong fazia uma análise ao(s) interesse(s) da China em Portugal e na Revolução portuguesa, então em fase de efervescência. É o telegrama Hong Kong 06408, enviado para o Departamento de Estado com o carimbo de “Confidencial” e que pode ser consultado no “site” dos National Archives.
Um resumo:
1. Pequim não conseguiu mais do que uma presença “simbólica” em Portugal.
2. O problema de Macau era peça fundamental para Pequim manter o “status quo”, sem dar muito alento aos grupos ou partidos maoístas.
3. Pequim receava as intenções do novo regime, com a influência do PCP pró-Moscovo, quanto a Macau; o consulado admite o cenário de devolução imediata de Macau à China ou, pior ainda, que a União Soviética viesse a ter influência no território – “o que seria intolerável para a República Popular da China. [Recorde-se que o PCP de Álvaro Cunhal alinhara pela URSS no “cisma” sino-soviético].
4. Quanto aos “grupos” ou partidos maoistas em Portugal, a leitura do consulado americanos em Hong Kong é que Pequim tem tentado ignorá-los, dado que há um conflito entre os interesses de uma potência como a China – a favor de um bloco europeu ocidental forte que “trave” a União Soviética – e esses “grupos” maoistas. “As actividades e os programas dos chamados grupos maoistas em Portugal não estão em sintonia com os interesses da China e demonstram a incapacidade de Pequim exercer controlo sobre os grupos que reclamam maoistas”.
Próximo post: as visitas dos grupos maoístas à China.

Telegrama na íntegra:

CONFIDENTIAL
PAGE 01 HONG K 06408 100142Z
70
ACTION EA-10
INFO OCT-01 ISO-00 EUR-12 IO-10 CIAE-00 PM-03 H-02 INR-07
L-03 NSAE-00 NSC-05 PA-01 PRS-01 SP-02 SS-15 USIA-06
SAJ-01 SAM-01 /080 W
--------------------- 109430
R 101145Z JUN 75
FM AMCONSUL HONG KONG
TO AMEMBASSY LISBON
INFO AMEMBASSY BONN
USMISSION NATO
AMEMBASSY LONDON
AMEMBASSY MADRID
AMEMBASSY MOSCOW
USLO PEKING
AMEMBASSY PARIS
AMEMBASSY STOCKHOLM
SECSTATE WASHDC 5357
/DIA WASHDC
USCINCEUR VAIHINGEN GER
USMISSION USUN
C O N F I D E N T I A L HONG KONG 6408
E.O. 11652: GDS
TAGS: PFOR PO CH
SUBJ: CHINESE PRESENCE IN PORTUGAL
REF: LISBON 3162
1. REFTEL DRAWS ATTENTION TO PEKING'S FAILURE TO ESTABLISH
MORE THAN A TOKEN PRESENCE IN PORTUGAL. IT IS TRUE THAT
ESTABLISHMENT OF DIPLOMATIC RELATIONS WITH LISBON WOULD AFFORD
PEKING AN OPPORTUNITY TO ESTABLISH A GREATER PRESENCE IN
PORTUGAL AND TO LODGE ANOTHER BLOW TO TAIWAN EFFORTS TO
REMAIN DIPLOMATICALLY AFLOAT. GIVEN THE CURENT POLITICAL SITUATION
IN LISBON, HOWEVER, PEKING SEES SOME RISKS IN
FORMALIZING TIES WITH LISBON.
CONFIDENTIAL
CONFIDENTIAL
PAGE 02 HONG K 06408 100142Z
2. PEKING NOT ONLY IS UNCERTAIN OF LISBON'S INTENTIONS VIS-A-VIS THE
PORTUGUESE ADMINISTERED ENCLAVE OF MACAU, BUT CLEARLY
PREFERS MAINTENCANCE OF THE POLITICAL STATUS QUO IN MACAU.
LISBON, HOWEVER, HAS TENDED TO LINK TALKS LEADING TO DIPLOMATIC
TIES WITH DISCUSSIONS ON THE FUTURE STATUS OF MACAU. CHINA'S
DESIRE TO AVOID HAVING THE SUBJECT OF MACAU'S FUTURE BROUGHT
IN TO QUESTION AT THIS PARTICULAR TIME IN LARGE PART ACCOUNTS
FOR PEKING'S KPUBLIC) UNRESPONSIVENESS TO ANY LISBON OVERTURE.
3. MOREOVER, GIVEN THE INCREASED INFLUENCE OF THE PRO-MOSCOW
COMMUNIST PARTY IN PORTUGAL, MOVES TOWARD ESTABLISHMENT OF
DIPLOMATIC RELATIONS COULD HAVE UNFAVORABLE REPRECUSSIONS
ON PRC INTERESTS IN ASIA. THE CHINESE PROBABLY ARE CONCERNED
LEST THE PRO-SOVIET INFLUENCE IN PORTUGAL RESULTS IN LISBON'S
ATTEMPTING TO EMBARRASS THE PRC OR IMPEL PEKING TO REASSERT
ADMINISTRATIVE CONTROL OVER MACAU (E.G., IN SPITE OF PRC
PROTESTATIONS , LISBON COULD UNILATERALLY RETURN MACAU TO PRC
AUTHORITIES OR APPROVE A SOVIET PRESENCE IN MACAU, THE LATTER
BEING INTOLERABLE TO THE PRC.)
4. AS TO RELATIONS WITH PRO-CHINA COMMUNIST PARTIES, PEKING
HAS TENDED TO BE HIGHLY SELECTIVE IN EXTENDING IT SUPPORT
AND ASSISTANCE TO SELF-STYLED "MAOIST" GROUPS. WHEN ACTIONS
OR INTERESTS OF SUCH GROUPS RUN COUNTER TO PRC INTEREST, CHINA
HAS BEEN KNOWN TO REPUDIATE OR IGNORE SUCH GROUPS. PEKING
FAVORS A POLITICALLY STAGLE AND UNIFIED WESTERN EUROPE AND
LOOKS UPON INSTANCES OF POLITICAL I STABILITY AS PROVIDING
OPPORTUNITIES FOR FURTHER SOVIET INROADS. THUS, THE ACTIVITIES
AND PROGRAMS OF THE SO-CALLED MAOIST GROUPS IN PORTUGAL DO
NOT ACCORD WITH PRC INTERESTS AND ARE INDICATIVE OF PEKING'S
INABILITY TO EXERCISE CONTROL OVER GROUPS WHICH MAY
CLAIM TO ESPOUSE MAOIST CONCEPTS.
CROSS

Friday, August 08, 2008

Mao super pop...


... sem limão!

Mas bem passado com colorido wharoliano!

Que haverá dos maoistas portugueses nos arquivos norte-americanos?

Uma foto pouco apropriada para férias


Saturday, July 26, 2008

A crítica no Expresso

O PREC visto pelos olhos do «amigo americano» vencedor

«NÃO TRAZ grandes novidades!», sentenciou José Pacheco Pereira, na apresentação do livro Portugal Classificado. Nem por isso o historiador poupou elogios à obra de Nuno Simas, editada pela Alêtheia. Por paradoxal que pareça, tem toda a razão - nos elogios e na sentença. É que a constatação de Pacheco, como o próprio reconheceu então, está longe de constituir o apontar de um defeito. Ao contrário: a grande qualidade do trabalho de Simas, passado a escrito após sete anos de pesquisa, consiste em confirmar, através do recurso a documentos de autenticidade insofismável, a natureza da posição do Governo dos Estados Unidos da América (EUA) sobre Portugal, entre 1973 e 1975. Uma posição tanto mais importante quanto, apesar de todos os erros de cálculo, os norte-americanos não podem deixar de ser colocados entre os vencedores da «revolução» portuguesa. É verdade, como o livro comprova, que os EUA não só não previram o próprio 25 de Abril de 74, como, para utilizar uma expressão de António José Teixeira, no prefácio da obra, foram apanhados «às escuras» pelos seus preparativos. Em Dezembro de 1973, ainda se escrevia num relatório da embaixada americana em Lisboa: «É improvável que se registe instabilidade séria nos próximos meses.» As previsões desastrosas continuaram durante muito tempo. «Em Novembro de 1974, Kissinger foi muito claro quanto às previsões para o futuro do país quando disse a Mário Soares: ‘Quando um país tem um presidente Costa Gomes e um primeiro-ministro Vasco Gonçalves dominados pelo Partido Comunista; quando as forças armadas estão sob o domínio comunista; e quando a comunicação social se encontra dominada, a situação é irreversível’.» O certo é que, apesar de tamanhos erros de análise, os EUA vão revelar uma enorme capacidade de recuperação. Em Janeiro de 75, substituem o embaixador Stuart Scott por Frank Carlucci. Este, mesmo se isso o leva a entrar em frequentes contradições com o centro do poder, em Washington, abandona Spínola à sua sorte, neutraliza Costa Gomes, isola Vasco Gonçalves e Otelo, rejeita qualquer intervenção armada, pressiona com o afastamento de Portugal da NATO e aposta tudo no PPD, no PS e no «grupo dos nove». A 26 de Novembro pode escrever a Henry Kissinger: «A operação de ontem à noite é portuguesa. Se nos associarmos a esta operação isso só pode fragilizar os moderados e prejudicar os seus esforços de capitalizar com os acontecimentos.» Nuno Simas tem a enorme virtude de colocar, com a autoridade que confere a posse de cópias de mais de mil documentos, afirmações como esta na boca dos próprios. O que só é possível porque, como afirmou outro jornalista, Pedro Correia (no blogue «Corta-Fitas»), «o Nuno é um excelente praticante de uma modalidade infelizmente quase extinta: o jornalismo de investigação».João Mesquita

NUNO SIMAS
Portugal Classificado
Alêtheia, 2008, 306 págs., €18

(Recensão do Expresso, sem "link", copiada à "mão")

Friday, July 25, 2008

Amanhã, no Expresso...

... sai a crítica ao meu livro, no caderno Actual. É assinada pelo João Mesquita.

Tensão entre o PCP e a Roménia de Ceausescu

As relações entre o PCP e os comunistas romenos eram tudo menos pacíficas na década da revolução portuguesa, por causa da proximidade do partido liderado por Álvaro Cunhal.
As embaixadas dos Estados Unidos na Europa, a começar por Lisboa e por Frank Carlucci, mantinham boas relações com os diplomatas romenos, com quem iam acompanhando a revolução portuguesa. Os registos desses contactos são múltiplos, depositados nos National Archives.
A 05 de Agosto, estava o governo de Vasco Gonçalves em queda e a luta esquerda direita ao rubro, o primeiro secretário da embaixada romena, Mihai Croitoru, dá uma leitura que os diplomatas norte-americanos em Londres admitem “represente parcial, se não totalmente, a posição do governo romeno”, de Nicolae Ceausescu. É o que se pode ler no telegrama London 12012 enviado para o Departamento de Estado.


CONFIDENTIAL
PAGE 01 LONDON 12012 01 OF 02 051639Z
53
ACTION EUR-12
INFO OCT-01 ISO-00 SAM-01 CIAE-00 DODE-00 PM-03 H-02
INR-07 L-03 NSAE-00 NSC-05 PA-01 PRS-01 SP-02 SS-15
USIA-06 SAJ-01 IO-10 /070 W
--------------------- 085288
R 051621Z AUG 75
FM AMEMBASSY LONDON
TO SECSTATE WASHDC 3499
INFO AMEMBASSY LISBON
AMEMBASSY BUCHAREST
AMEMBASSY MOSCOW
AMEMBASSY PARIS
AMEMBASSY PRAGUE
AMEMBASSY ROME
AMEMBASSY STOCKHOLM
USMISSION NATO BRUSSELS
AMEMBASSY BONN
C O N F I D E N T I A L SECTION 01 OF 02 LONDON 12012
E.O. 11652: GDS
TAGS: PFOR, PINT, PORT, SP, RO
SUBJECT: ROMANIAN DIPLOMAT'S VIEWS ON PORT0GAL

SUMMARY: ROMANIAN FIRST SECRETARY GAVE EMDASSY OFFICER
VIEWS ON SITUATION IN PORTUGAL WHICH ARE OF POSSIDLE
INTEREST SINCE HE UNDOUBTEDLY REFLECTS SOME, IF NOT ALL,
ROMANIAN GOVERNMENT VIEWS. END SUMMARY.
(…)
HE WAS OUTSPOKEN AND DIRECT IN EXPRESSING
A CONCERN THAT PRESENT SITUATION IN PORTUGAL WAS
THREATENING. HE CONCLUDED THAT PORTUGAL PERHAPS WILL
HAVE TO UNDERGO PERIOD OF CIVIL STRIFE AND BLOODSHED.

O diplomata é da opinião de que “provavelmente” Portugal vai entrar um período de quase guerra civil - “conflito social, com derramamento de sangue”.

2. CROITORU ATTACKED PORTUGUESE COMMUNIST LEADER CUNHAL
AS "RIGID DOGMATIST." HE SAID THAT CUNHAL HAS NOT PROVIDED
PORTUGUESE COMMUNISTS WITH THE KIND OF LEADERSHIP
SITUATION DEMANDS WHICH HE ATTRIBUTED TO LENGTHY PERIOD
CUNHAL SPENT IN EXILE IN PRAGUE. DURING EXILE PERIOD
CROITORU SAID CUNHAL SPENT ALL OF HIS TIME IN PRAGUE AND
MOSCOW AND DID NOT VISIT ROMANIA BECAUSE OF ROMANIA'S
INDEPENDENCE FROM MOSCOW. CUNHAL IS EXCESSIVELY DEPENDENT
ON MOSCOW AND NOT FLEXIBLE. BY CONTRAST, SPANISH
COMMUNIST SECRETARY GENERAL HAS SHOWN A GREAT DEAL OF
FLEXIBILITY IN DEALING WITH THE VERY DIFFICULT CIRCUMSTANCES
OF COMMUNIST PARTY IN SPAIN. (FYI: CROITORU
SHOWED CONSIDERABLE FAMILIARITY WITH THE FALLACCI
INTERVIEW WITH CUNHAL. END FYI.)

Neste telegrama, Croitoru é especialmente duro com o líder do PCP, Álvaro Cunhal, por ser um “dogmático inflexível”. Durante os anos do exílio em Moscovo e Praga, disse o diplomata, Cunhal nunca terá visitado Bucareste pela “independência” dos comunistas romenos relativamente ao PCUS e a Moscovo.


9. CROITORU SEES LITTLE POSITIVE IN THE PRESENT SITUATION.
THE POWER STRUGGLE IN THE AFM WILL EVENTUALLY LEAD
TO A COUP OR SEIZURE OF POWER BY A STRONG MAN WITH AN
ENSUING CURTAILMENT OF POLITICAL LIBERTIES, ELIMINATION
OF POLITICAL PARTIES, AND THE KIND OF AUTHORITARIAN REGIM
THE PORTUGUESE HAD FINALLY DIVESTED THEMSELVES OF A YEAR
OR SO AGO. CROITORU BELIEVES THE ONLY POSSIBLE SOLUTION
TO PORTUGAL WAS A PLURALISTIC DEMOCRACY AND A GOVERNING
SOCIALIST/PCP COALITION. HOPES FOR THIS WERE NOW FADING
FAST. CROITORU AGREED WITH A SUGGESTION THAT EITHER
DIRECT MILITARY RULE, WHICH WOULD LIKELY BE OF A RIGHTIST
COLORATION, OR A SEIZURE OF POWER BY THE PCP AND CUNHAL
WOULD BE EQUALLY DISASTROUS FOR DEMOCRACY IN PORTUGAL.


No ponto 9 o telegrama, o primeiro secretário da embaixada romena em Londres adverte para o perigo de um golpe de estado, tanto à direita como à esquerda, incluindo um movimento liderado pelo PCP. Uma ou outra solução “seria desastrosa para a democracia em Portugal”.

Saturday, July 19, 2008

E o fim da ilusão da esquerda... em 1975


"Olhe que não, olhe que não!"

25 de Abril e a ilusão da esquerda!

Imagem do regresso de Cunhal a Portugal em 1974, o tal momento que para uns foi encenado, a exemplo de Lenine, e para outros um mero acaso. Um deles é Jaime Neves, militar que enfileirou na direita, e explicou, numa entrevista ao António Ribeiro Ferreira, no CM, que ele próprio sugeriu a Cunhal que subisse ao blindado para melhor ser ouvido. Na foto, vêem-se Mário Soares, Dias Lourenço.

Cunhal e a art pop



Saturday, July 12, 2008

Bad books don´t exist

É sempre agradável ser "fichado" por um fórum chamado "Bad books don´t exist".
Ainda que me permita discordar: há maus livros, mas esses não merecem ser "fichados"...

Os risos de Marta de la Cal

Marta de la Cal é correspondente há 40 anos da revista “Time” em Portugal. Registo o seu riso sobre um aspecto do primeiro capítulo do meu livro. Escrevi que, segundo os documentos desclassificados, os Estados Unidos foram apanhados de surpresa pelo golpe do 25 de Abril.
Resposta: "(Risos) Ah, eles nunca sabem nada de nada. Nada! Nunca sabem o que se passa. Mas toda a gente sabia que havia um movimento de capitães".

É numa entrevista à revista “Jornalismo&Jornalistas” (sem "link"), do Clube dos Jornalistas. Na entrevista, Marta revela também dados curiosos: que a embaixada norte-americana em Lisboa tentava obter informação aos correspondentes estrangeiros e que ela, Marta, não acreditou na ameaça vermelha, imortalizada pela capa a vermelho da “Time”, que - recorde-se - não foi escrita por ela. “Nunca acreditei na história da ameaça comunista”.

Wednesday, July 09, 2008

Eugénia Cunhal


Eugénia Cunhal, irmã do líder histórico do PCP, é militante comunista; pertence ao sector intelectual do partido em Lisboa, onde também milita, por exemplo, Manuel Gusmão.

Eugénia Cunhal, irmão de Manuel Tiago, escreve mensalmente no jornal “A Voz do Operário”. Crónicas literárias.
Esta foi publicada em Março, em português escorreito, sem mácula. Esta é triste.

A Velha

Entrou. Passo miúdo e lento. Costas em arco, escondidas por baixo do tecido estampado de ramagens coloridas. Talvez a busca inconsciente da alegria. Pano do pó preso na mão flácida. Uma moldura de cabelos recém-cortados, a tentar dar um pouco de cuidado ao rosto de linhas vincadas. De olhar parado. Sem espera.
Então, D. Luísa… Havia uma ironia escondida nas vozes que se cruzavam no espaço largo, semeado de mesas e cadeiras.
- A velha voltou. Ali estava, de regresso. – Meteu baixa por causa da filha – segredava-se. Aquela filha que ninguém conhecia. Aquela filha doente que lhe ocupava o pensamento durante todas as horas que passava a trabalhar fora de casa. Aquela filha que, desde criança, era o seu maior cuidado. Que ia crescendo sem tino. Quantas vezes chegava a casa, não a encontrava e corria para a rua, a procurá-la, a trazê-la de volta.
- A senhora devia reformar-se. Tem quase sessenta anos. A ironia voltava. Não dava por isso. E os olhos concordavam. Porque já mal aguentavam as noites mal dormidas, cortadas pela inquietação. Os dias arrastando-se nas limpezas. Do chão. Dos móveis. Dos vidros das janelas. E o peso do corpo cada vez maior, que tornava os movimentos mais penosos. Mais difíceis. Claro que sonhava com a reforma. Sobretudo quando olhava para trás e recordava que começara a trabalhar ainda mal fizera dez anos. Ficara em casa, cuidando da sua menina para que nada de mal lhe acontecesse. Sem necessidade de inventar novos sítios para esconder os fósforos. As facas. Qualquer coisa que se pudesse transformar num perigo inconsciente. Sonhava com a reforma, sim. Mas não gostava que lhe dissessem que devia reformar-se. Cortava nas despesas o que podia. Até nos medicamentos, cada vez mais caros. Tal como a conta da electricidade, por mais que fosse diminuindo a força das lâmpadas. Tal como a parca comida que conseguia pôr na mesa. Diziam-lhe também, olhando para o seu corpo deformado, que devia fazer uma dieta.
Uma manhã, bastante cedo, uma vizinha que costumava ir à mesma hora que ela para o trabalho, notou-lhe a ausência. Bateu à porta. Uma, duas vezes.
Luísa estava deitada, sem conseguir fazer qualquer movimento com as pernas.
Alguém foi obrigado a separar os braços dela e da filha que se entrelaçavam desesperadamente.

Tuesday, July 08, 2008

João Abel Manta


Um cartoon "datado" de João Abel Manta, retirado dos Caminhos da Memória, um interessante projecto do movimento "Não Apaguem a Memória".

Sunday, July 06, 2008

Vasco Gonçalves e a estratégia do PCP



Na cronologia do PCP, há um dia e um acontecimento especialmente relevantes no Verão Quente: o Comité Central de 10 de Agosto em Alhandra. Aí Álvaro Cunhal, lança as bases de uma estratégia que incluía pontes de diálogo, à sua direita.
Socorro-me de um artigo de Armando Rafael, no DN, publicado a 10 de Outubro de 2005 – “Álvaro Cunhal salvou PCP afastando Vasco Gonçalves”. “A famosa reunião do Comité Central que o PCP efectuou em Alhandra, no dia 10 de Agosto” foi o “momento em que o secretário-geral dos comunistas impôs alguma contenção à euforia que se instalara depois do 11 de Março, antecipando, num discurso que permaneceu secreto [durante algum tempo], as linhas do acordo do 25 de Novembro”.
Depois de reler o artigo do Armando, uma eventual estratégia de aproximação aos aliados britânico e alemão de Mário Soares faz todo o sentido. O que – na estratégia das “simultâneas de xadrez”, expressão de um ex-dirigente comunista – não é obrigatoriamente contraditório com a tese de Josep Sanchez Cervelló ou da investigação do José Manuel Barroso, na década de 90 no DN, de que a ordem para a saída dos quartéis no 25 de Novembro partiu de militantes do PCP. E que acabou por resultar, além de vários dias de tensão e confrontação, num “reordenamento” das forças revolucionárias e a sobrevivência do PCP.


Álvaro Cunhal salvou PCP afastando Vasco Gonçalves


A história do PREC é razoavelmente omissa sobre uma famosa reunião do Comité Central que o PCP efectuou em Alhandra, no dia 10 de Agosto. Um momento em que o secretário-geral dos comunistas impôs alguma contenção à euforia que se instalara depois do 11 de Março, antecipando, num discurso que permaneceu secreto, as linhas do acordo do 25 de Novembro.

Quarenta e oito horas depois de o V Governo Provisório ter tomado posse, o PCP reuniu, discretamente, o seu Comité Central (CC) em Alhandra para ouvir Álvaro Cunhal alertar o partido para a forte possibilidade de Vasco Gonçalves poder ter os dias contados como primeiro-ministro.
Foi um discurso proferido a 10 de Agosto de 1975, recheado de improvisos que só viriam a ser integralmente conhecidos anos depois, e que caiu como um balde de água fria para quem não esperava ouvir o secretário-geral do PCP tirar o tapete a uma figura com a qual os comunistas tanto se identificavam.
Ao ponto de lhe terem prometido resistir a todas as ofensivas, garantindo total solidariedade - Força, força, companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço.
Um “slogan” mobilizador para quem se identificava com a governação e o estilo do Companheiro Vasco, mas que não resistia à análise fria dos dirigentes comunistas que se moviam nos bastidores do Processo Revolucionário em Curso (PREC). Como Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Carlos Costa, Octávio Pato ou Carlos Brito.
Todos eles já tinham percebido que os comunistas e, em especial, a esquerda militar que lhes era afecta (gonçalvistas) não tinham, naquele momento, força suficiente para impor os seus pontos de vista, razão pela qual era necessário reformular a estratégia que estava a ser desenvolvida.
Mesmo que isso os obrigasse a fazer concessões ou a ter de retomar o diálogo perdido com o Grupo dos Nove (que, por sinal, divulgara o seu famoso documento nas vésperas de o PCP reunir o Comité Central). Ou com o PS (que acabara de fazer uma grande demonstração pública da sua força com o comício da Fonte Luminosa). Ou até com Otelo Saraiva de Carvalho, apesar do revés que a viagem do comandante do Copcon a Cuba evidenciara, contribuindo para o afastar ainda mais do PCP.
Improvisos. "Uma melhor clarificação da situação interna no MFA teria sido desejável antes da formação do novo governo como garantia para a sua eficiência", explicou Cunhal, num dos tais acrescentos que não constam do discurso oficial distribuído na altura.
"Aqui informo", prosseguiu, "que, depois da formação do Directório [Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho], da discussão sobre a eventual participação de Otelo como vice-primeiro-ministro, de termos dado o nosso apoio à formação de um Governo sem participação partidária [o V Governo Provisório] (...), ao sabermos que Otelo se recusava a ser vice-primeiro-ministro, fizemos diligências imediatas, algumas junto do primeiro-ministro, para dizer que púnhamos muitas reservas à formação do novo governo e que (...) entendíamos que não devia ser formado, nem anunciado esse governo sem antes estar esclarecida a situação militar."
Uma preocupação que o próprio Álvaro Cunhal se encarregaria de explicitar mais à frente. "Tudo indicava que se formava o Governo num dia com o nosso apoio e a nossa participação para cair noutro dia. E a cair no outro porque não tinha qualquer apoio militar, não tinha qualquer possibilidade de fazer executar qualquer das suas decisões (..) Este governo formava-se e, contestado, caía em dois tempos. Por isso diligenciámos, e aqui está uma das tais iniciativas que muitas vezes a Comissão Política tem que tomar em situações novas e que não estão conforme com a perspectiva do Comité Central."
Para que não subsistissem dúvidas entre os elementos do Comité Central que o ouviam, e que eventualmente dele discordavam, o secretário-geral do PCP foi ainda mais longe na sua tese "Tomámos a responsabilidade de comunicar que não apoiávamos a constituição desse governo com Vasco Gonçalves, se na verdade não houvesse um apoio militar. Daí já termos afirmado que, a nosso ver, a solução encontrada não exclui possibilidades de recomposições, reajustamentos e reconsiderações que possam aumentar a eficiência do Governo e alargar a sua base de apoio social e política. Da parte da esquerda militar, sem exclusão de ninguém, vemos muito sectarismo. Não dá qualquer abertura e isso pode precipitar a sua queda.
Por isso esta solução governamental não pode ser rígida. Ao contrário. Devem procurar-se ajustamentos, devem procurar-se modificações que respondam à actual situação. A médio prazo as soluções podem ser outras."
Advertências. Como explicar, então, que Vasco Gonçalves tenha, apesar da reticências do PCP, tomado posse como primeiro-ministro de um governo que, à partida, todos sabiam estar já condenado?
Aparentemente, isso sucedeu porque era preciso ganhar tempo. Como o presidente da República, Costa Gomes, deixara já claro, no discurso da cerimónia de posse do V Governo Provisório, efectuada dois dias antes da reunião de Alhandra "A solução que hoje vos apresento é uma medida transitória, um governo de passagem que se espera seja a pausa política para, em clima de ordem, disciplina e trabalho, se poder constituir algo de mais definitivo."
Um sinal e uma mensagem devidamente articulada por Costa Gomes com os sectores moderados do MFA, com Otelo Saraiva de Carvalho, com o PS, mas também com o PCP e Álvaro Cunhal, que, assim, se preparavam para deixar cair Vasco Gonçalves como primeiro-ministro, esperando, no entanto, que o sacrifício do Companheiro Vasco como primeiro-ministro pudesse vir a ser ainda devidamente compensado pela sua nomeação para chefe do Estado-Maior-Ge- neral das Forças Armadas (CEMGFA). Onde iria substituir o próprio Costa Gomes, na sequência da mesma lógica que, alguns dias antes, levara já à constituição de um Directório que era suposto assumir-se como uma espécie de vanguarda da revolução.
PCP ausente. É isso que explica também as razões por que o PCP não permitiu, como Cunhal frisou em Alhandra, que o dirigente comunista Veiga de Oliveira tivesse continuado no Governo como ministro, situação que se aplicava igualmente ao líder comunista que integrou todos os executivos até ao IV Governo Provisório, embora isso não tenha sido mencionado. Um silêncio que lhe permitiu contornar ainda a presença de outros militantes do PCP no último executivo de Vasco Gonçalves, como Carlos Carvalhas ou Armando Teixeira da Silva, que constavam do elenco dos secretários de Estado.
Arrastamento. "Tomámos essa decisão", sublinhou, "para não nos comprometermos com uma solução muitíssimo incerta. E também para não nos arriscarmos a cair como força política com a queda do próprio governo formado por Vasco Gonçalves sem um apoio militar. (...) Pensámos, já nesse momento, guardar um campo de manobra política para o nosso partido, que não nos atrelasse necessariamente a uma previsível queda do Governo de Vasco Gonçalves (...) e nos desse margem para reconsiderar a composição do Governo e a sua própria chefia."
Uma referência, subtil, ao facto de o PCP estar também a posicionar-se já para influenciar o processo de designação de um novo primeiro-ministro e de um novo governo (do qual Veiga de Oliveira voltaria a fazer parte), que pudesse proteger o partido do desgaste provocado por Vasco Gonçalves, dando-lhe o tempo suficiente para que ele se reorganizasse. Tendo sempre em linha de conta a necessidade de reposicionar o partido perante as novas correlações de forças que começavam a impor-se.
"A divisão do MFA e a ofensiva da reacção são (...) muito perigosas e devemos por isso considerar as alternativas. Um dos males é que a esquerda militar sobrestima a sua força", alertou Cunhal, que não hesitaria igualmente em renovar as suas críticas ao sectarismo evidenciado pelos militantes comunistas que não dialogavam com elementos de outros partidos revolucionários e até com os militantes do PS.
Chile. Tudo porque o PCP temia que os exageros revolucionários da actuação dos governos e da retórica de Vasco Gonçalves pudessem acabar por pôr em causa o peso da esquerda militar no seio do MFA, arrastando o país para uma nova ditadura ou um regime autoritário que excluísse os comunistas, repetindo em Portugal aquilo que se verificara no Chile, onde o golpe militar liderado por Pinochet levara à perseguição e à eliminação sistemática dos comunistas e outros militantes de esquerda.
"Não nos devemos deixar encostar ao muro", advertiu Álvaro Cunhal em Alhandra. Não espanta, por isso, que o secretário-geral do PCP tivesse dedicado uma parte substancial do seu discurso perante o CC à análise da nova correlação de forças que começara a fazer-se sentir no seio do MFA, e que encorajou o Grupo dos Nove (com apoio e cumplicidade de Otelo Saraiva de Carvalho) a liderar a contestação aos gonçalvistas.
"A balança de forças não está nítida. Não está. Pode haver força bastante para ir para uma solução em que o poder político continua nas mãos da força militar de esquerda (...), mas pode admitir-se que a força não baste para manter uma tal situação. Seja com o risco de um golpe militar, com possibilidades reais de triunfo, seja com o risco do triunfo de operação política mesmo sem ter necessidade de um golpe militar mas com o apoio das forças armadas. Isto não está excluído e nas últimas semanas temos estado muitas vezes perto de situações que se nos afiguram aproximar-se duma tal situação em que possa haver um desequilíbrio de forças favorável à direita. (...) E quando digo à direita, não digo tanto a direita reaccionária (...), mas à direita do que tem sido até hoje uma parte do MFA, com o apoio político do PS e outros. Não é de excluir que possa haver um desequilíbrio nesse sentido."
Antecipação. Palavras premonitórias sobre a sucessão de acontecimentos que viriam a desembocar no 25 de Novembro, sem que o PCP tivesse conseguido implementar a nova estratégia que acabaria por ser ratificada no Comité Central de Alhandra. E que passava, no essencial, pelo retomar do diálogo com o Grupo de Nove.
Um objectivo que seria parcialmente atingido, como se constataria três meses depois, quando o PCP acabou por ser publicamente absolvido através de uma célebre declaração proferida por Melo Antunes na televisão.
Quanto ao resto, a proposta acabou por esbarrar na intransigência manifestada pelo PS, por Mário Soares e por Otelo Saraiva de Carvalho, o que levaria o PCP a atirar- -se (ainda que temporariamente) para os braços da extrema-esquerda, criando a Frente de Unidade Revolucionária (FUR), com a UDP, MES, PRP/BR, LUAR, LCI, MDP- -CDE e FSP, ou impulsionando os SUV (Soldados Unidos Vencerão). Sem que Álvaro Cunhal e a direcção do PCP conseguissem travar os ímpetos mais radicais de alguns dos seus compagnons de route, como os episódios em torno do 25 de Novembro viriam a demonstrar.
Queda. Mas, nessa altura, já Cunhal e o PCP tinham deixado cair Vasco Gonçalves e constatado o erro da aposta que os comunistas tinham feito em Pinheiro de Azevedo para o substituir.
Mas isso seria depois. Muito depois. Em pleno Verão Quente de 1975, a estratégia era bem diferente, como o sucessor de Vasco Gonçalves recordou, alguns anos depois, num livro de memórias que dedicou a esse período [ 25 de Novembro sem Máscara].
"O PC deixou de lhe dar cobertura (...).Vasco Gonçalves fora útil, mas estava a tornar-se prejudicial, com o seu extremismo desvairado, que poderia levar o país à guerra civil (...). Ora uma guerra civil não interessava a ninguém. Nem interna nem externamente. O PC, manifestamente, achou que Vasco Gonçalves já cumprira o seu papel."

Ver os originais em

http://dn.sapo.pt/2005/08/10/nacional/alvaro_cunhal_salvou_afastando_vasco.html

e

http://dn.sapo.pt/2005/08/10/nacional/simultaneas_xadrez_inspiram_no_prec.html