Friday, December 04, 2009

China/1975: Kissinger com Portugal na agenda


O presidente norte-americano reuniu-se, em Dezembro de 1975, com Mao Tse Tung, em Pequim. Afinal, como gracejava Kissinger, o eterno chefe da diplomacia norte-americana, a China, arqui-rival da União Siviética, era “o melhor aliado da NATO”…
Parte das conversações preparatórias de Kissinger em Pequim, em Outubro, para a cimeira de Dezembro de 1975 aparecem descritas no capítulo 6 do livro, “À volta do Mundo” – a diplomacia “passeava” a sua preocupação com Portugal nos encontros, em 1974 e 1975, com os líderes mundiais. Ao contrário do que escrevi no livro, Kissinger e Ford levaram Portugal para a mesa das conversações com Mao, a 2 de Dezembro. E é sobre isso o meu próximo post.

(reproduzo a parte do capítulo sobre essas conversações, incluindo as notas na numeração original. A foto é de Abril de 1974, durante uma visita de Deng a Nova Iorque - Colecção Bettman, Corbis Images)

Kissinger avisa China que Estados Unidos não permitiriam golpe comunista

Henry Kissinger tem, em 1975, uma agenda carregada e reúne-se por diversas vezes com dirigentes políticos da China, incluindo o próprio Mao Tse Tung, em Pequim. Afinal, a China era arqui-rival da União Soviética e, como brincava Kissinger, o “melhor aliado da NATO”… (21)
Em 1974 e 1975, há pelo menos três encontros de Kissinger com líderes chineses em que a revolução portuguesa é abordada. Um, a 27 de Novembro de 1974, juntou Kissinger e o vice-primeiro-ministro Deng Xiaoping em Pequim. Outro foi ao jantar, a 28 de Setembro de 1975, com Qiao Guanhua, ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, nas Torres Waldorf, que estava em Nova Iorque para uma reunião da ONU. Por último, um mês depois, a 21 de Outubro de 1975, Kissinger voltou a encontrar-se com Deng, no Grande Palácio do Povo, em Pequim, pouco antes de um frente-a-frente com o líder chinês, Mao Tse Tung. Com Mao, porém, Portugal é ignorado.
O chefe da diplomacia norte-americana reúne-se a 28 de Setembro de 1974 com Deng Xiaoping. Além da preparação da visita de Gerald Ford, dos perigos de uma guerra nuclear da Jugoslávia e das negociações com a União Soviética para o desarmamento, os dois políticos analisam o eurocomunismo. O secretário de Estado norte-americano está preocupado com o facto de os comunistas italianos e franceses seguirem uma estratégia de se apresentarem como “moderados e muitos responsáveis”. É Kissinger que explica a Deng a estratégia de Washington: “Quando se analisa a nossa política externa tem que compreender que fazemos certas coisas e dizemos certas coisas para paralisar não só a nossa esquerda mas também a esquerda europeia. Por isso, nós opomo-nos, e resistiremos, à entrada da esquerda em governos europeus. Faremos isso em Portugal porque não queremos que seja um modelo para outros países. Faremos o mesmo em Itália. E, claro, em França.
Kissinger dramatiza a determinação da administração norte-americana a “resistir” a uma vitória comunista em eleições na Itália e na França pelo “sério impacto” que teriam na NATO e na conjuntura política da República Federal da Alemanha. Deng Xiaoping responde a Kissinger com uma visão menos dramática quanto ao fenómeno do eurocomunismo e prevê que “eles [os eurocomunistas] são professores pela negativa”.
Do outro lado do mundo, os chineses pouco poderia fazer para ajudar os Estados Unidos a resistir às ameaça vermelha no sul da Europa, como Deng afirmou a Kissinger, para tentar impedir que os aliados dos soviéticos dominassem a situação em Portugal. Mas em ambos os encontros, o secretário de Estado norte-americano parece resoluto em explicar ao governo de Pequim a estratégia de Washington contra o inimigo comum – a União Soviética. É isso que faz com o ministro dos Negócios Estrangeiros no jantar nas Torres Waldorf, em Nova Iorque.

Qiao: Como vê a situação em Portugal?
Kissinger: (…) Como uma superpotência [a URSS] tem estado activa, nós não podíamos ficar atrás. Basicamente pensamos que se trata de uma questão interna portuguesa. E, devido à nossa situação interna [o escândalo Watergate em 1974, no ano do golpe do 25 de Abril, as alegações de apoio ao golpe de direita de Pinochet, no Chile, e a demissão de Richard Nixon], não pudemos fazer muito.
Estamos a trabalhar com os nossos aliados europeus para impedir que os grupos apoiados por Moscovo venham a dominar [o país]. Registaram-se alguns progressos tácticos – um grande avanço táctico [a demissão de Vasco Gonçalves e sua substituição por Pinheiro de Azevedo à frente do Governo] – na situação. O problema agora é saber se os nossos aliados europeus vão celebrar a vitória ou se percebem que esses grupos pró-Moscovo têm de ver sistematicamente reduzida a sua influência.
Qiao: Essa será uma luta a longo prazo. Independentemente do que diga aos seus aliados europeus, nós vamos dizer aos nossos amigos europeus para não sobrevalorizarem a força dos partidos comunistas. Nós conhecemos melhor os partidos comunistas do que vocês. Uma vez, dissemos aos nossos amigos europeus para darem poder aos pretensos partidos comunistas. Deixarem-nos tomar o poder e revelarem-se. Eles responderam-nos que jamais aceitariam isso.
Kissinger: Nem vocês aceitariam. Quer dizer, deixá-los tomar o poder em Portugal ou em qualquer outra parte?
Qiao: Portugal... No caso de Portugal, o Partido Comunista não controla as Forças Armadas.
Kissinger: Nós não sobrestimamos a força do Partido Comunista em Portugal. Temos de deixar a situação amadurecer até um certo ponto. Primeiro, não tivemos uma situação interna favorável; em segundo lugar, tivemos de levar a Europa Ocidental a entender a situação; em terceiro lugar, tínhamos que ter a certeza de que [Mário] Soares não era um Kerensky [líder social-democrata russo derrotado pelos comunistas na revolução bolchevique de 1917].
Em todo o caso, a situação em Portugal está numa fase em que pode evoluir nos dois sentidos [democracia pluralista ou domínio comunista].
Qiao: Bom, penso que se os nossos amigos europeus, apoiados pelos nossos amigos americanos, seguirem uma estratégia com habilidade, os soviéticos não vão conseguir dominar [Portugal]. (22)

Passa um mês e Henry Kissinger está agora em Pequim. A 21 de Outubro de 1975 encontra-se com Deng Xiaoping. É uma quarta-feira e o encontro dá-se numa residência dos convidados estrangeiros, na capital chinesa. Deng ouviu a exposição de Kissinger sobre a estratégia de Washington quanto à Europa do Sul, inclusivamente a promessa norte-americana de resistir às tentativas de tomada do poder pelos grupos apoiados pela URSS. Ainda que isso levasse a uma guerra civil em Portugal. E, nesse cenário, a intervenção americana ganhava peso.
Deng Xiaoping avisa Kissinger que Pequim pouco pode fazer para ajudar além de adiar o estabelecimento das relações diplomáticas com Lisboa. E alerta que apesar de a situação portuguesa estar a melhorar – após a demissão do “vermelho” primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, e a sua substituição pelo almirante Pinheiro de Azevedo, um “moderado” –, poderem ainda registar-se “muitas reviravoltas”.

Deng: (…) Se estiver interessado, podemos falar do flanco sul da Europa.
Kissinger: (…) No sul da Europa, temos Portugal, Espanha, Itália, Grécia e Turquia. Cada um com uma situação diferente.
No caso de Portugal, encontramos uma situação em que, resultado de 40 anos de um regime autoritário, as forças democráticos não estão organizadas e as estruturas políticas democráticas são muito fracas. Os militares adoptaram, em parte, a filosofia dos movimentos de libertação africanos, que combateram durante 25 anos. E o Partido Comunista de [Álvaro] Cunhal, que passou parte do seu exílio na Checoslováquia – curiosa escolha para exílio – está, e muito, sob a influência da União Soviética. [Deng inclina-se e cospe para uma escarradeira ao lado da cadeira].

Perante o vazio, o Partido Comunista conseguiu uma influência desproporcionada e, por algum tempo, parecia estar à beira de dominar a situação. Acho que esta tendência foi travada. E estamos a trabalhar com os nossos aliados da Europa Ocidental para reforçar e a apoiar as forças que se opõem a Cunhal. Infelizmente, algumas dessas forças são melhores na retórica do que na organização, mas achamos que a situação melhorou e vai continuar a melhorar.
Deng: Ouvimos nas notícias que alguns oficiais que estavam sob o comando de…
Qiao:… [Vasco] Gonçalves.
Deng: … estão a preparar um golpe.
Kissinger: Sim. Tivemos a informação esta manhã que numa unidade [Tancos] eles se recusaram a entregar armas.
Deng: Segundo as notícias, esses oficiais estarão a preparar alguma coisa para 11 de Novembro, que é a data da independência de Angola. Informações assim tão precisas não podem ser fidedignas, seguras.
Kissinger: Não, nós também não acreditamos. Temos um relatório segundo o qual uma unidade militar se recusa a entregar as armas. E não há dúvidas de que [Vasco] Gonçalves está do lado da União Soviética. Mas esperamos… Nós estamos em contacto com um número razoável de líderes militares que estão contra o golpe e que vão opor-se a ele.
Deng: Mas nós achamos que Portugal ainda pode sofrer muitas reviravoltas.
Kissinger: Concordo.
Deng: E muitas provas de força. Não estamos em condições de fazer o quer que seja nessa parte do Mundo, Mas há uma coisa que podemos fazer. Portugal tentou já muitas vezes estabelecer relações diplomáticas connosco, e nós recusámos. O nosso ponto de partida é muito simples: nós não queremos fazer nada que ajude os soviéticos a ganhar controlo da situação.
Kissinger: Creio que essa é uma opção sensata. Nós apoiamos [Melo] Antunes e [Mário] Soares. [Deng inclina-se outra vez e cospe de novo.] Antunes esteve em Washington há poucas semanas e estamos a cooperar com ele. Mas concordo que vai haver ainda muitas provas de força. E a dificuldade com os nossos aliados ocidentais é que eles baixam os braços depois de alguns sucessos passageiros.
Quando voltarmos a encontrar-nos em Dezembro, já a situação estará muito mais clara. Mas nós estamos determinados a resistir a qualquer tentativa de tomada de poder pelos soviéticos, ainda que isso leve a um conflito armado. Não vamos facilitar. Não será fácil para eles, e quero sublinhar isso, se eles estiverem a planear um golpe, não será nada fácil para eles.
Agora em Espanha, a situação é mais complicada. Temos, por um lado, um regime nos seus derradeiros dias, porque Franco está muito velho. Por outro lado, não queremos que a situação de Portugal se repita em Espanha. (23)

(21) BURR, William, “The Kissinger Transcripts – The Top-Secret Talks with Beijing and Moscow”, The New Press, New York, 1998.
(22) Memorandum, September 28, 1975, Kissinger, Qiao, box 16, National Security Adviser, Memoranda of Conversation, Gerald Ford Library.
(23) Memorandum, October 21, 1975, Kissinger, Deng Xiaoping, box 16, National Security Adviser, Memoranda of Conversation, Gerald Ford Library

Uma referência em Pravda ilhéu

Aqui fica a referência. Mas lendo o blog "ilhéu", há ainda outra.

Monday, November 09, 2009

O muro de Berlim e os Açores (ii)


Como em muitas crises da Guerra Fria, a Base das Lajes, nos Açores, participaram activamente nas missões das forças armadas norte-americanas. Foi assim em 1949, com o bloqueio de Berlim (e a ponte aérea), ou em 1961 com a crise de Berlim.
Pelos Açores, passaram centenas, milhares de aviões. Mais de 40 voos por dia na Base das Lajes e no aeroporto de Santa Maria. Uma memória para o dia em que passam os 20 anos da queda do Muro.
(Texto retirado do site do IPRI)

Sunday, November 08, 2009

O muro de Berlim (i)



O Muro caiu há 20 anos. Lembro-me que era estagiário na Lusa, na secção Internacional. Dias antes, foi com espanto que fiz uma notícia, a partir dos despachos da Reuters e AP, sobre a crise das embaixadas: milhares de pessoas que queriam passar, na Checoslováquia, para o Ocidente. O espanto é que conseguiam.
No dia em que caiu o muro pediram-se um Urgente (dois parágrafos, depois do "flash", uma linha de título) em que se anunciava que as pessoas começavam a passar da RDA para a RFA. Aos milhares. Olhei uns segundos, incrédulo, para o telexes, em papel. Horas depois vinha mais um urgente da Reuters: o muro começava a ser destruído. Começava a cair um muro e um "mundo".

Monday, September 07, 2009

Um "pormenor" que faltava sobre os Açores

Publiquei este artigo no meu jornal, o PÚBLICO. Na quinta-feira, 03/09/2009

1975
Ford apoiava independência dos Açores se comunistas ganhassem poder em Lisboa

Por Nuno Simas

É o primeiro documento oficial norte-americano a confirmar que a administração Ford estaria disposta a dar "luz verde" aos independentistas. Se Vasco Gonçalves, o PCP e a esquerda militar tivessem conseguido transformar Portugal numa Cuba no Sul da Europa


Foram apenas 24 minutos de reunião na Sala Oval, em Washington. A 9 de Setembro de 1975, já o primeiro-ministro Vasco Gonçalves, que Kissinger gracejava não ser do PCP apenas para poupar no dinheiro das quotas, tinha caído em desgraça, demitido dez dias antes. E o "grupo dos nove", a tendência moderada do Movimento das Forças Armadas (MFA), começava a ganhar poder num país a viver a vertigem de uma revolução. Passara apenas um ano após a "revolução dos cravos", a 25 de Abril de 1974, com a queda de Marcelo Caetano e de 48 anos de ditadura. Na tarde dessa terça-feira, entre as 17h10 e as 17h34, o Presidente Gerald Ford recebeu a congressista republicana Margaret Heckler, eleita pelo Massachusetts e representantes de associações portuguesas nos Estados Unidos, em que se incluía uma grande comunidade de açorianos.Queriam que Ford se pronunciasse de forma directa contra a "tirania comunista" em Portugal. O Presidente norte-americano resistiu a fazer tão radical declaração. Afinal, dizia, o Governo de Pinheiro de Azevedo, o almirante do grupo dos "moderados", era "melhor", democrático, e era preciso dar tempo ao tempo. E é na acta dessa reunião (depositada na Ford Library - http://www.fordlibrarymuseum.gov/) que Ford faz uma declaração surpreendente. A testemunhá-la estiveram o adjunto de Kissinger como conselheiro de segurança nacional, o general Brent Scowcroft, e Denis Clift, do Conselho de Segurança Nacional. É o primeiro documento oficial da administração dos Estados Unidos - revelado ao abrigo da política de desclassificação dos arquivos americanos - em que é tão abertamente assumido o apoio norte-americana à independência das ilhas portuguesas onde os Estados Unidos têm uma base na ilha Terceira desde a II Guerra Mundial. Uma simpatia que, afinal, teve um prazo de validade: enquanto o "gonçalvismo" estivesse no poder em Lisboa e fosse uma ameaça comunista num mundo dividido pela Guerra Fria, com os EUA de um lado e a URSS do outro. Imagine-se o cenário extremo de o "inimigo" soviético ter acesso, via Portugal, à Base das Lajes, no oceano Atlântico, a meio caminho entre a Europa e os Estados Unidos e o desequilíbrio que isso poderia causar entre as duas superpotências? Era isso que estava na mente de muitos estrategos do Pentágono e do Departamento de Estado. Os avisos americanos contra o domínio comunista no país foram sendo transmitidos ao mais alto nível, tanto na visita do Presidente Costa Gomes a Washington, ainda em 1974, como em Maio de 1975, num encontro, em Bruxelas, com Vasco Gonçalves, à margem de uma cimeira da NATO.À congressista Margaret Heckler e aos representantes dos portugueses nos Estados Unidos disse Gerald Ford: "Estamos também preocupados com os Açores. As Lajes têm grande importância. Temos que ter cuidado neste momento, em que os portugueses estão a evoluir de um Governo comunista, sob a liderança de [Vasco] Gonçalves, para um Governo democrático... Não podemos ter qualquer acção que possa prejudicar o novo Governo. Se os Açores se tornassem agora independentes, isso teria um reflexo negativo no novo executivo."Até aqui, nada de novo - era a política de neutralidade quanto à questão açoriana, que teve no embaixador norte-americano em Lisboa, Frank Carlucci, um dos grandes defensores. A nuance viria umas linhas mais abaixo, na acta da reunião, e essa, sim, é significativa: "Teríamos ficado contentes se [a independência] tivesse acontecido durante o Governo comunista, mas agora, com um Governo melhor, é necessário cuidado." Nem Henry Kissinger, o todo-poderoso secretário de Estado, que não esteve no encontro, nem qualquer outro responsável da administração de Ford tinham sido tão directos no apoio à independência das ilhas açorianas. Pelo menos on the record e em documentos norte-americanos que foram sendo desclassificados ao longos dos últimos dez, quinze ou vinte anos... A CIA, que deu alertas para um possível golpe separatista em 1975, tem todos os seus arquivos fechados. E raros foram os "papéis" que a "secreta" americana abriu aos olhares de jornalistas e historiadores.A ameaça de expulsãoDurante meses, no Verão Quente de 1975, Kissinger viveu obcecado com Portugal e com o risco de ter um Governo comunista num país da NATO - uma espécie de Cuba no Sul da Europa. Os Estados Unidos tinham interesses estratégicos na Base das Lajes, na Terceira, um verdadeiro porta-aviões no Atlântico desde a década de 40. Foi por isso que o Presidente Gerald Ford tentou perceber qual seria a reacção dos aliados europeus à independência dos Açores e cedo compreendeu, de uma conversa com Helmut Schmidt, o chanceler alemão, nesse ano de 1975, que Washington ia ficar isolado. Talvez lhe restasse a França. E a CIA, activa nas ilhas e com muitas "fontes" entre os separatistas açorianos, alertou, durante o Verão Quente, para uma possível revolta ou golpe nos Açores. Com o apoio de grupos de direita, exilados em Espanha, por exemplo. E o cenário de expulsão de Portugal da NATO foi bem mais do que isso. Washington desconfiava tanto dos generais portugueses que não entregava segredos da Aliança a Portugal, com medo de irem parar às mãos do inimigo soviético, em Moscovo. Mário Soares, o líder socialista e um aliado à esquerda dos americanos contra a ameaça "vermelha", percebeu os riscos e avisou que admitia sair da NATO se os Estados Unidos apoiassem os independentistas açorianos. Oficialmente, Washington garantiu, de 75 até hoje, ter mantido a neutralidade quanto à questão açoriana, mas a tentação da "acção" existiu. Os contactos informais com personalidades próximas da Frente de Libertação dos Açores (FLA), através de Denis Clift, do Conselho de Segurança Nacional, foram sendo cultivados, embora sem promessas de apoio à causa da independência das ilhas de um país a radicalizar-se à esquerda. Era a estratégia de manter os independentistas em "lume brando", não viessem a ser necessários para manter a Base das Lajes.Açores e GuantánamoAté agora, a tentação do apoio de Washington à causa separatista estava subentendida nos muitos milhares de papéis desclassificados dos arquivos norte-americanos. Afinal, esse desejo de independência das ilhas está em letra de forma e tem um rosto - o próprio Gerald Ford, que confessa que teria ficado feliz se os Açores se tornassem independentes.Em Setembro de 1975, a congressista Heckler, Joseph Fernandes e Júlio d'Oliveira, da Federação Luso-Americana nos Estados Unidos, queriam posições mais duras contra "os comunistas" portugueses. Ford advertiu que a independência dos Açores seria negativa nessa fase. É certo que o calendário ainda estava na página de Setembro e que o Verão Quente ainda aqueceu o país até ao 25 de Novembro - o princípio do fim da revolução e o começo da "normalização" democrática - mas Ford via agora riscos na acção directa dos independentistas. A tentação independentista açoriana não terá passado de uma ilusão para os açorianos e de uma estratégia de último recurso para a administração Ford. De um lado e de outro do Atlântico, a Base das Lajes foi uma peça central neste enredo. Mesmo que Portugal se tivesse tornado um regime comunista, incluindo os Açores, estariam os Estados Unidos condenados a abandonar a Base das Lajes? O general Pezarat Correia, um militar de Abril, escreveu que não no livro Questionar Abril. Guantánamo, na ilha de Cuba de Fidel, é a prova de que os EUA "estão onde querem e não onde os deixam".



http://jornal.publico.clix.pt/noticia/03-09-2009/1975-ford-apoiava-independencia-dos-acores-se-comunistas-ganhassem-poder-em-lisboa-17710145.htm

Saturday, June 13, 2009

Lajes: outra vez no centro das atenções




Portugal e Estados Unidos negoceiam utilização da base nos Açores
13.06.2009 - 09h26 Nuno Simas

É o primeiro passo para o acordo. O Governo comunicou ontem ao secretário da Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, a posição de princípio de Portugal favorável à utilização das Lajes, nos Açores, como base de treino dos F-22 e, no futuro, os F-35, disse ao PÚBLICO fonte governamental.

A base das Lajes, na ilha Terceira, Açores, é utilizada pelos Estados Unidos desde o final da II Guerra Mundial e conhecida, até entre os militares norte-americanos, como "porta-aviões" do Atlântico, e foi palco da famosa cimeira Bush-Aznar-Blair, em que Durão Barroso foi anfitrião, antes da guerra do Iraque, em 2003.

De acordo com informações recolhidas pelo PÚBLICO nas últimas semanas junto de fontes militares, um dos obstáculos a este entendimento seria se o treino de aviões militares de última geração não pudesse conviver pacificamente com o tráfego civil - intenso na área do Oceano Atlântico desejada pelos norte-americanos, a norte dos Açores.

A NAV (Navegação Aérea de Portugal) fez um estudo e concluiu serem compatíveis as duas actividades. Isso mesmo foi confirmado pelo ministro português da Defesa, Nuno Severiano Teixeira, depois do encontro com Gates, em Bruxelas, à margem de uma reunião ministerial da NATO.

Há contrapartidas

Para o "OK" definitivo faltam ainda outras avaliações, como custos económicos e o impacto ambiental, face à proximidade da ilha do Corvo da zona de treino, mas ontem o ministro antecipou que a resposta ao pedido da utilização das Lajes é, "em princípio, positiva".

Há ainda a questão das contrapartidas, que estará ainda em aberto. "Naturalmente que as contrapartidas terão de existir", afirmou Severiano Teixeira. Segue-se, agora, uma fase mais diplomática, dado que o acordo formal entre os dois países implicará o envolvimento do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Os "caças de quinta geração" como o F-22 atingem velocidades supersónicas e têm sistemas de armamento muito sofisticados, pelo que o treino exige espaços muito grandes e pouco habitados. É o caso da área "cobiçada" pela força aérea dos EUA (USAF) no Atlântico, a norte dos Açores. No total, os norte-americanos querem uma área de mais de 274.300 quilómetros quadrados, a norte da ilha do Corvo, o equivalente a três vezes a área de Portugal continental. A FAP terá feito uma contraproposta menor (64.190 quilómetros quadrados).

Além da logística já existente nas Lajes que serve de base de apoio para o transporte de militares e meios para vários cenários de conflito (Iraque ou Afeganistão), os militares norte-americanos consideram uma vantagem o facto de os Açores ficarem a uma ou duas horas de voo dos EUA. Outra vantagem é que está a ser preparada com novos radares e equipamento rádio. Ontem, os Governos de Lisboa e de Washington acordaram a repavimentação da pista da base açoriana.

Contestação à esquerda

Ainda os contactos eram apenas exploratórios e já o Bloco de Esquerda (BE) contestava mais esta possível cedência aos Estados Unidos. Os bloquistas açorianos chegaram a defender, no início deste ano, um referendo regional sobre o assunto nas ilhas.

Monday, June 01, 2009

Histórias de segredos

Um artigo no PÚBLICO sobre segredo de Estado. Dia 30 de Maio. Algo - segredos - a que me habituei quando escrevi o livro.



O estado dos segredos
30.05.2009

Quantos documentos têm o carimbo de segredo de Estado? Ninguém sabe. Não que seja segredo. Apenas ninguém fez as contas. Uma alteração à lei aprovada a 22 de Maio torna a Assembleia "guardiã do segredo de Estado" e cria um registo nacional de documentos classificados. Ainda assim, acessível a um muito restrito número de pessoas. Os segredos também têm histórias. Umas conseguem contar-se, outras ainda são... segredo. Por Nuno Simas

Em 1974, depois da Revolução dos Cravos, Portugal e a União Soviética reataram relações diplomáticas, rompidas por causa de outra Revolução, a de Outubro, em 1917. A Aeroflot passou a fazer voos regulares para Lisboa, via Havana. A revista Vida Soviética, na sua versão em português, passou a anunciar os voos da "maior companhia aérea do mundial", com a "tradicional hospitalidade soviética". Soaram campainhas de alarme nos gabinetes das chefias militares. E se os aviões comerciais da União Soviética tivessem câmaras e fotografassem território nacional? Era um risco evidente para os chefes militares, que fizeram chegar o alerta ao Governo. Afinal, Portugal era, e é, um país da Aliança Atlântica e havia o risco de fotografias de bases aéreas, algumas delas a servir a NATO, chegarem ao KGB. Ou ao Pacto de Varsóvia, "rival" da Aliança Atlântica num mundo dividido em dois e em Guerra Fria. Eram segredos que, numa época em que não existia o Google Earth, as autoridades portuguesas queriam fechados a sete chaves. Como fechados a sete chaves estão, e continuarão a estar, os planos de defesa do território a um eventual ataque terrestre... da Espanha, hoje um país aliado na União Europeia. Nem sempre o foi, mas, mesmo assim, os planos continuam carimbados e acessíveis a muito poucos olhos. Estas são duas histórias de segredos contadas ao P2 por ex-responsáveis governamentais e antigos chefes militares. Quando se lhes pede uma confirmação oficial, on the record, nem pensar. Os anos passaram, mas quem conta estas histórias prefere manter a sua identidade... em segredo.Segredos e silênciosO segredo cala muitas bocas. E assim continuará a ser. A Lei do Segredo de Estado foi alterada recentemente no Parlamento, mas há uma coisa que não muda: o dever de sigilo de quem "viu" o segredo, mesmo depois de ter deixado as funções. E de que falamos quando falamos de Segredo de Estado? O artigo 2.º da Lei 6, de 1994, define o que é. "São abrangidos pelo segredo de Estado os documentos e informações cujo conhecimento por pessoas não autorizadas é susceptível de pôr em risco ou de causar dano à independência nacional, à unidade e integridade do Estado e à sua segurança interna e externa." O mais óbvio é pensar logo nos planos militares, por exemplo. E é verdade. Mas há também informação classificada quanto a questões económicas e de cariz comercial. No topo da hierarquia da classificação estão segredos transmitidos, "a título confidencial", por Estados estrangeiros ou organizações internacionais - e esses serão os que Portugal terá em maior número, de acordo com o testemunho de ex-governantes ouvidos pelo P2. Não é por acaso que grande parte da documentação relativa aos voos da CIA que passaram por Portugal continua mais que reservada e os activistas dos direitos humanos ainda têm esperança que o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, desclassifique alguns dossiers do tempo de W. Bush. Classificada pode ainda ser informação de estratégia em negociações com outros Estados ou organizações - aqui, por exemplo, entram dossiers de negociações de Portugal na ONU ou União Europeia ou a participação em operações militares no estrangeiro nos últimos anos. Informação que possa "facilitar a prática de crimes contra a segurança do Estado" também pode ser "carimbada". E não é por acaso que, durante anos, houve informações protegidas sobre a localização de barragens e centrais eléctricas do país. E ainda hoje os planos de contingência (ou de emergência) para a Ponte Vasco da Gama estão sob segredo, assim como os procedimentos em torno da segurança de altas individualidades, como o Presidente ou o primeiro-ministro, por exemplo, dois titulares de órgãos políticos com o poder de pôr o carimbo de "segredo de Estado" a documentos. Os outros são o presidente da Assembleia da República, ministros, e, a título provisório, chefes militares e dos serviços de informações. Um segredo, porém, não é eterno. A regra, no acto da classificação, devidamente fundamentado, é de quatro anos, renováveis. Mas há outro tipo de classificações e outros prazos. No Arquivo Histórico-Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros, no Palácio das Necessidades, em Lisboa, estão milhares de páginas produzidas pelos diplomatas nas embaixadas portuguesas espalhadas pelo mundo ao longo de séculos. E esses são papéis que não vêem a luz do sol antes de 30 anos passados sobre a data em que foram escritos. Mesmo assim, há documentação que continuará "fechada" - seja porque é informação de um aliado ainda classificada na origem, matérias de defesa e da NATO ou "dados que possam pôr em causa a reputação, honra, bom nome ou imagem de pessoas singulares e colectivas a que digam respeito" - por decisão de uma comissão de selecção e desclassificação, presidida pelo embaixador Duarte de Jesus. Exemplos dos segredos mais secretos não faltam. As pastas relativas à guerra da Coreia estavam, até há pouco tempo, inacessíveis a investigadores, apesar de já ter passado mais de meio século. Pode ser o peso da eterna suspeita de colaboração de Portugal com a China, violando um bloqueio, mas ninguém sabe ao certo. Outro caso: a 30 de Outubro de 1961, a embaixada norte-americana em Lisboa enviou ao Governo português um ofício com o mapa que "mostra os efeitos possíveis de deflagração de uma bomba soviética de 50 megatoneladas" na Europa, 50 vezes mais potente do que a que destruiu Hiroxima. Não se diz onde, mas Portugal seria atingido pelos efeitos. A carta encontra-se no arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o mapa é que não. Ainda hoje é secreto.E foram os segredos militares da NATO que quase custaram a Portugal uma eventual expulsão da Aliança Atlântica no Verão Quente de 1975. O Governo de Vasco Gonçalves tinha vários ministros comunistas. O secretário de Estado Henry Kissinger estava obcecado pelo risco de Portugal se tornar numa Cuba na Europa. Resultado: os militares portugueses passaram a não ter acesso aos planos atómicos da Aliança, por receio que fossem parar aos soviéticos. Valeu a intervenção do então Presidente, Costa Gomes, durante anos o único militar português a ter visto os planos de defesa da NATO a um ataque nuclear soviético. Segredos mais secretosEstes são segredos do passado. Os do presente vão passar a ser listados na Assembleia da República, que será, nas palavras de Mota Amaral, deputado do PSD e um dos autores da nova lei, "a guardiã do segredo de Estado". Haverá uma comissão de fiscalização do segredo de Estado, "um passo na transparência", nas palavras de Vitalino Canas, o deputado do PS que negociou o diploma com o PSD. E tem poderes de facto. Até pode desclassificar documentos. O presidente do Parlamento, segunda figura do Estado, tem acesso a todos os segredos; os deputados só podem aceder em certas circunstâncias, se tal se justificar. Há segredos que "são mais segredo do que outros", como admitiu Mota Amaral. Único senão, apontado pelo PCP e Bloco de Esquerda: a comissão ter apenas representados deputados dos dois principais partidos. "Uma partidarização" criticada por Fernando Rosas, deputado do BE e historiador, e por António Filipe, do PCP. O segredo foi arma de regimes ditatoriais desde o Estado absolutista do século XVIII aos regimes fascistas e soviético no século XX. Hoje, nas sociedades democráticas e na era da Internet, a transparência é uma palavra de ordem, mas nenhum Estado dispensa os seus segredos. Nem pode dispensar, segundo o embaixador Duarte de Jesus, habituado que está, como disse ao P2, a "tornar públicos maiores ou menores 'segredos'". Transparência, sim, mas segredos são segredos. Duarte de Jesus deixa um alerta: "Hoje o terrorismo internacional e as questões de segurança não permitem 'laxismos' ou maiores aberturas, que penso que a Internet implica."

Tuesday, March 31, 2009

Um artigo de Irene Pimentel. A ler

Relações entre a PIDE/DGS e a CIA
(Publicado no nº 14 da colecção Os anos de Salazar/ O que se contava e o que se ocultava durante o Estado Novo , coordenada por António Simões do Paço. Também acessível nos caminhosdamemória)

A PIDE começou a chamar a atenção da Central Intelligence Agency (CIA), em1949, quando Portugal ingressou na Aliança Atlântica (NATO). Analistas dessa agência de Intelligence norte-americana consideraram que aquela polícia política tinha adquirido, em Portugal, um extraordinário poder, efectuava prisões arbitrárias, utilizava a brutalidade física e detinha presos na cadeia por prazo indefinido [1]. Depois, nos anos cinquenta, em plena Guerra-Fria, a CIA instalou um retransmissor da Radio Free Europe (Rádio Europa Livre, criada em 1947), em Glória do Ribatejo, criando, para o gerir, em Portugal, a Sociedade Anónima de Rádio-retransmissão (RARET). No entanto, a ligação “oficial” entre a PIDE e a CIA só foi formalizada em 1956, quando o coronel Benjamin H. Vandervoort [2], adido da embaixada dos EUA em Lisboa, convidou o director da polícia política portuguesa, capitão Agostinho Lourenço, comunicando-lhe para uma deslocação aos EUA, com o objectivo de «discutir matérias de mútua preocupação».
Como Agostinho Lourenço se desligou da direcção da PIDE, por limite de idade, em 5 de Setembro de 1956, o convite foi transmitido ao capitão António Neves Graça, chefe interino da polícia política portuguesa, que o aceitou, com «muito agrado». A CIA propôs-se então prestar auxílio à PIDE na organização de um sistema mecanizado de ficheiros e arquivos e, na sequência de impressões trocadas entre os dois respectivos directores, em Washington, por seu lado, Neves Graça elaborou uma proposta de colaboração entre os dois serviços. Segundo este, as duas polícias propunham-se trocar informações sobre a organização comunista e efectuar diligências e operações conjuntas, entre as quais se contavam a infiltração no seio dos Partidos Comunistas [3].
Os «homens das Américas»
Em 1957, uma delegação de elementos da PIDE frequentou um curso, ministrado pela agência americana, nos EUA [4] onde, entre outras matérias, se contavam técnicas de vigilância, aprendizagem de rádio, de filmagens e fotografia, escuta telefónica, intercepção postal, elaboração de relatórios, métodos informativos e de interrogatório processual, conhecimento de tintas simpáticas, criptografia, microfilmes, utilização de tele-impressores, bem como técnicas de informação e contra-informação [5]. Fizeram parte da delegação portuguesa o sub-inspector Jaime Gomes da Silva, o chefe de brigada Manuel Vilão de Figueiredo, os agentes Sílvio Mortágua, Amândio Gomes Naia, Álvaro dos Santos Dias Melo, Abílio Augusto Pires, Felisbino Marques Gomes, Ernesto Lopes (Ramos), José Mesquita Portugal e João Nobre e ainda os escriturários, Alfredo Fernando Robalo e Eduardo de Sousa Miguel da Silva [6].
Alguns dos quadros da PIDE que estagiaram na América - Abílio Pires, Ernesto Lopes Ramos e Miguel da Silva - terão sido contratados pela CIA como agentes de ligação em Portugal. Este último chegou a ser considerado, em 1969, pelos próprios dirigentes dessa polícia, de ser um «homem das Américas», razão pela qual ficou limitado a assuntos respeitantes à autoridade nacional de segurança [7]. Quanto a Abílio Pires, negaria ter trabalhado para a CIA, embora afirmando que esta agência o tinha de facto tentado subornar, através de Walter Andrade, elemento da estação americana em Lisboa [8].
Numa entrevista dada em 1974, em Londres, Philip Agee, oficial de operações secretas da CIA, afirmou, por seu turno, que Rudolfo (sic) Gómez, organizador da rede dessa agência em Portugal, em 1968 e 1969, tentara aliciar o inspector Rosa Casaco, com o qual terá reunido periodicamente no Porto e em La Toga (Galiza) [9]. António Rosa Casaco negou, porém, ter trabalhado para a CIA, esclarecendo que apenas teve uma «amizade desinteressada com Edward Gómez, chefe da base» dessa agência norte-americana, em Portugal na década de 60 [10].
Operações conjuntas entre a PIDE e a CIA: o caso «expectator»
Ao que parece, no continente português, a maior operação conjunta das duas polícias secretas, portuguesa e americana, foi o caso «expectator» [11] abordado, pela primeira vez, por escrito, pela CIA, em Julho 1957. O caso, considerado «top secret» - de «cross contamination between the expectator and or other Russian intelligencia service aparati in Portugal and PCP» - envolvia estrangeiros que se tinham refugiado em Portugal, durante a II guerra mundial, acusados de fazerem parte de uma rede soviética. Diga-se que a CIA sabia dessa rede, através de um relatório de 1943 dos serviços secretos da Alemanha nazi e que essa operação foi dirigida pelo então homem da CIA em Lisboa, coronel Vandervort [12].
Mais tarde, a PIDE realizou, pelo menos, duas viagens marítimas a portos soviéticos, com elementos seus, a bordo de navios mercantes portugueses, sobre as quais relatou à CIA. A primeira viagem realizou-se, ao porto de Riga, em 1959, com a presença de dois agentes da PIDE, Santos e Lopes (provavelmente Ernesto Lopes Ramos) e a segunda, ao porto soviético de Tuapse, no Mar Negro, em 1960, novamente com Ernesto Lopes Ramos. A agência norte-americana agradeceu, em 29 de Novembro de 1960, a colaboração dos portugueses, dizendo que essas fotografias haviam sido as primeiras a penetrar além da linha da água, de um porto soviético e afirmando que os resultados dessa operação representavam um dos melhores exemplos de ligação entre serviços para participar directamente na análise de dados marítimos [13].
Alguns autores datam no início dos anos sessenta o incremento de relações entre a PIDE e a CIA, embora um ex-elemento da polícia portuguesa, Óscar Cardoso, o tenha negado, ao afirmar que acontecera precisamente o contrário, devido ao apoio que os americanos deram, em 1961, à UPA e, três anos depois, a Mondlane, em Moçambique [14]. Houve efectivamente, nesse período, um esfriamento da cooperação entre a CIA e a PIDE, pois, além do alegado apoio à UPA, o governo português «não perdoou o suposto envolvimento norte-americano no golpe de Botelho Moniz e a atitude relativamente ao assalto ao paquete «Santa Maria» da parte da administração Kennedy, que aproveitou esse episódio para empolar a existência de uma oposição democrática em Portugal [15].
A questão da Índia, em Dezembro de 1961, tornou ainda mais difícil, quase à beira da ruptura, o relacionamento luso-americano, considerando então Salazar que os EUA pecaram por omissão, ao recusarem-se a fazer uma declaração pública sobre o assunto. No entanto, embaixador norte-americano em Lisboa, Charles Burke Elbrick, manifestou-se contrário a que a administração norte-americana apoiasse a condenação de Portugal, pelas Nações Unidas, argumentando que isso representaria um ataque a um aliado da NATO, que assim ficaria enfraquecida [16].
Durante o ano de 1962, o ministro dos negócios Estrangeiros, Franco Nogueira, manifestou, junto do Secretário de Estado norte-americano, Dean Rusk, preocupação com o apoio dos EUA à UPA e a Theodore Xanthaky, conselheiro da Embaixada dos EUA em Lisboa e elemento da CIA, afirmou que se tornava difícil manter um diálogo com o governo americano [17]. Em 1 de Janeiro de Janeiro de 1964, a PIDE passou a vigiar o já referido Theodore Anthony Xanthaky.
No entanto, a partir de 1963, já se fazia sentir uma moderação no discurso anti-colonialista dos EUA e uma tentativa de conciliação, num momento de negociações para a renovação do acordo de utilização da base das Lajes, nos Açores [18]. Após o fim da administração Kennedy, a PIDE voltou a ter, como antes de 1961, uma relação «leal» com a CIA, embora, como era «óbvio», houvesse sempre informações que uma polícia omitia à outra, e vice-versa, segundo afirmou Álvaro Pereira de Carvalho [19].
No período «marcelista», a colaboração entre a PIDE/DGS e os serviços secretos norte-americanos era das melhores embora a polícia portuguesa não deixasse de preocupar-se com a actividade da Embaixada e dos serviços secretos americanos. Refira-se, por exemplo, que, em 20 de Novembro de 1969, o director da DGS, Fernando da Silva Pais, soube, de fonte «absolutamente segura», da ocorrência, dois dias antes, de um jantar em casa de Diego Cortes Asencio, conselheiro da embaixada dos EUA (entre 1967 e 1972) e elemento da antena da CIA, com Robert Zimmerman, no qual tinham estado presentes Mário Soares [20], Francisco Salgado Zenha e Francisco Sousa Tavares [22].
Em 1973, William Colby, o novo director da CIA, considerou Portugal um país tão estagnado que chegou a sugerir o encerramento do posto da agência no país. Lembre-se que a principal preocupação da CIA continuava a ser então a América Latina, onde, como se sabe, através da «operação Condor», foram instaladas, com o apoio norte-americano, diversas ditaduras. Pouco tempo antes de 25 de Abril de 1974, o posto da CIA então era composto apenas por três elementos: John Stinard Morgan, acabado de chegar a Lisboa, Frank W. Lowell e Leslie F. Hughes, ambos incorporados na Embaixada como oficiais de telecomunicações.
Nó próprio dia 25, o responsável pela Embaixada dos Estados Unidos à época, Post, relatou a surpresa com que soube do golpe de Estado, reveladora da ignorância do representante norte-americano:
«o telefone tocou no meu quarto. O guarda da nossa casa no Restelo, um ex-quadro da DGS, atendera o telefone central na garagem, e disse-me: “Perigo, perigo”. Não percebi. A minha mulher, ensonada, comentou: “Oh, isso é o nome do guarda!” Desliguei e voltámos a dormir. Seriam aí umas seis da manhã quando um dos adidos militares me telefonou, dizendo que havia tanques na rua e música militar na rádio» [22].
[1] José Freire Antunes, Kennedy e Salazar, O Leão e a Raposa, Lisboa, Difusão Cultural, 1991, nota 3, p. 105-106, Central Intelligence Agency SR-31.
[2] Idem, ibidem, p.106.
[3] Arquivo PIDE/DGS no ANTT, pr. 6. 341 CI (2), pasta 2, fls. 2-7, 31, 36, 39, 40 e 45.
[4] Idem, pr. 2 CI (2) SC DSI, pasta 4, fls. 93, anexo b 3, 9, 10, 17, 24, 100.
[5] Idem, ibidem, pasta 3, fl. 4, pasta 4, fls. 1, 21, 91, 93, anexo 5, 9, 10, 17, 100, 117, 118, 119, 122 e 123.
[6] Idem, pasta 5, fls. 18, 19, 36, 40, 50, 54-55, 59, 64, 68-69 e 100.
[7] «A PIDE colaborou com a CIA», in Diário Popular, 7/2/1975.
[8] Bruno de Oliveira Santos, op. cit., p. 42.
[9] A Capital, 9/12/74 «Investigação sobre Rosa Casaco leva a rede da CIA».
[10] António Rosa Casaco, Servi a Pátria e Acreditei no Regime, Lisboa, ed. do autor, 2003, p.93.
[11] Nuno Vasco, A Bem da Nação, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1998, p. 195.
[12] «A PIDE colaborou com a CIA», Diário Popular, 7/2/75.
[13] Arquivo PIDE/DGS no ANTT, pr. 2 CI (2) SC DSI, pasta 6, fls. 134, 136, 137, 144, 168, 260, 281 e 282.
[14] Nuno Vasco, Óscar Cardoso, A Bem da Nação, p. 94.
[15] Luís Nuno Rodrigues, Salazar-Kennedy: a Crise de uma Aliança, Lisboa, Editorial Notícias, 2002, p. 317
[16] José Freire Antunes, Kennedy e Salazar, p. 95.
[17] Idem, ibidem, pp. 71 e 147.
[18] Idem, ibidem, p. 322.
[19] José Freire Antunes, Nixon e Caetano, pp. 56 e 57.
[20] José Freire Antunes, Kennedy e Salazar, p. 93-95.
[21] Arquivo da PIDE/DGS no ANTT, pr. 121 CI (1) Francisco Sousa Tavares, fl. 16.
[22] Idem, ibidem, p. 311 e 349.

Monday, March 30, 2009

Uma fotografia de Rui Nogueira


Usei esta foto no post "Cunhal, o PCP e o Verão Quente", em Julho de 2008. Tirei-a do flic.kr. A foto é excelente, com a imagem do homem a segurar o microfone. Nessa altura, apesar de ter procurado, não consegui saber quem é o autor. Hoje já sei: chama-se Rui Nogueira.
A foto foi feita em Beja, em 1976 ou 1977, e não no Verão Quente de 1975.
Fica a correcção e o agradecimento a Rui Nogueira.

Sunday, January 18, 2009

"Portugal Classificado" no "Le Monde Diplomatique"

Só hoje me chegou o artigo em versão digital, da edição de Novembro de 2008, do "Le Monde Diplomatique".

Portugal Classificado – Documentos Secretos Norte-americanos, 1974-1975
Nuno Simas
Alêtheia Editores, Lisboa, 2008, 308 pp., € 18.

Nuno Simas analisa neste livro um conjunto de documentos classificados acerca de Portugal, incluindo os memorandos e os relatórios secretos elaborados pelo Departamento de Estado e pela CIA para o presidente dos Estados Unidos durante os dezanove meses da revolução portuguesa. Surpreendidos na madrugada de 25 de Abril de 1974, a CIA e o Departamento de Estado procuraram a todo o custo correr atrás dos acontecimentos e identificar a forma mais segura de os influenciar. Uma revolução estranha e inexplicável, inaceitável no contexto da divisão do mundo em dois blocos, deixou-os à beira de um ataque de nervos. O pragmatismo das considerações e reflexões da política externa norte-americana – que desde o primeiro momento encarou Portugal como um cenário de enfrentamento no contexto da Guerra Fria – parece desmentir a tese de uma ameaça totalitária pró-soviética sobre Portugal. Segundo a CIA (p.157), o PCUS (Partido Comunista da União Soviética) encarava com extrema preocupação as possíveis implicações negativas de uma evolução da política portuguesa nesse sentido, num período em que se negociava um desanuviamento das relações entre as duas superpotências. Brejnev consideraria mesmo que Portugal «pertencia ao lado ocidental» na grande divisão do tabuleiro mundial e que uma intervenção da OTAN seria aceitável do ponto de vista soviético (p.159).
Fica claro, no entanto, que a presença de comunistas no governo português, fosse em que modalidade fosse – incluindo a de uma coligação de esquerda com o Partido Socialista (PS), com quem mantinha um acordo de cooperação mútua assinado antes do 25 de Abril –, era considerada inaceitável pelos responsáveis civis e militares da política externa norte-americana. A 27 de Março de 1975, ainda antes das eleições para a Assembleia Constituinte, Kissinger encarava a necessidade de isolar Portugal no seio da OTAN e, se necessário, atacar militarmente o país (p.125). O secretário de Estado norte-americano entrou em pânico com a possível entrada de comunistas para governos de outros países do Sul da Europa, nomeadamente em Itália, uma das fronteiras cruciais da Guerra Fria. O risco do contágio da experiência portuguesa e a possível desagregação do sistema de contenção do poderio militar soviético no continente europeu – num momento delicado de negociações tendo em vista o desanuviamento – tornou Lisboa uma constante fonte de preocupações para Washington.
A necessidade de criar um cordão sanitário em torno do Partido Comunista Português (PCP) foi o eixo central da intervenção dos Estados Unidos na revolução portuguesa e uma das causas fundamentais da desconfiança nutrida por Kissinger relativamente aos socialistas e a Mário Soares. A sua presença no I Governo Provisório, ao lado de dois ministros do PCP, foi considerada preocupante e motivou mesmo as garantias de Spínola ao embaixador norte-americano Scott Nash, de que tanto o PS como o PCP estariam longe do poder um ano depois (p.29). Após o 28 de Setembro de 1974, o secretário de Estado dos Estados Unidos considerou a situação «muito perigosa», com os comunistas e socialistas a surgirem como as únicas forças políticas organizadas (p.224). A 18 de Outubro, num episódio que se tornou célebre, apelidou Soares de Kenrensky português e, já com Carlucci a operar em Portugal a partir de Janeiro de 1975, manteve relativamente ao secretário-geral do PS as maiores reservas. Só a influência do embaixador o levaria a considerar a viabilidade de um apoio à esquerda moderada para combater a influência do PCP sobre o Movimento das Forças Armadas (MFA) numa estratégia que teve como epicentro Soares, Costa Gomes e Melo Antunes.
Alguns dos mais importantes episódios, acontecimentos e posicionamentos envolvendo os principais protagonistas do PREC (Processo Revolucionário em Curso) ganham novos contornos à luz destes documentos, que fornecem pistas preciosas para uma compreensão mais rigorosa da intervenção norte-americana na política portuguesa durante os anos conturbados de 1974 e 1975. O livro de Nuno Simas pode ser, a esse nível, um valioso contributo, ainda que uma organização mais cronológica dos documentos talvez permitisse seguir com maior precisão as evoluções conjunturais e as deslocações mais subtis da estratégia dos Estados Unidos. O formato escolhido, mais jornalístico do que historiográfico, tem em todo o caso a vantagem de condensar nalguns blocos temáticos – as relações com Spínola e com Costa Gomes, as implicações da revolução portuguesa na OTAN, a acção de Carlucci ou a importância da base das Lajes – o fundamental da informação encontrada nos arquivos da Ford Library, abrindo, assim o esperamos, novas direcções para a investigação acerca do período revolucionário.

Thursday, January 08, 2009

Vida Soviética - memorabilia
















A revista “Vida Soviética”, ainda hoje guardada em cuidadas encadernações por militantes comunistas, era um instrumento de propaganda da ex-URSS. [Outra revista, esta ideológica, de propagação da “linha justa” do comunismo, era a “Revista Internacional – Problemas da Paz e do Socialismo”].
A edição de Novembro de 1976 da revista, dois anos depois da revolução de Abril de 1974, um ano depois da “contra-revolução de Novembro de 1975 (como ainda hoje é designado o 25 de Novembro no “jargão” comunista por muitos militantes do PCP...), dedica uma página (p. 37) a Portugal.
Na rua Gorki, em Moscovo, havia, nesse ano, no Museu da Revolução da URSS, uma ala dedicada à revolução portuguesa,
O primeiro “material” exposto – outra expressão muito ao gosto da “nomenklatura” comunista – era uma fotografia datada de 1927, de “soldados revolucionários num teatro do Porto”. “Sede do estado-maior dos insurrectos que se ergueram contra a ditadura militar” que viria a ter Salazar como “chefe”.
Objecto que ”sempre atraía a atenção dos visitantes” era “um alto-relevo representando o labor dos trabalhadores da cortiça, feito por presos políticos e oferecido pelo PCP ao CC [Comité Central] no 50º aniversário da Grande Revolução de Outubro”, descrevia o articulista G. Schwarz-Pedraudze.
A frase mais entusiasmada vem logo a seguir: “A notícia de que a Revolução de 25 de Abril de 1974 triunfara foi acolhida com júbilo pelos soviéticos, bem como pelos trabalhadores, democratas e antifascistas de todo o mundo.”
Embora o “Pravda” só tenha dado a notícia da revolução do 25 de Abril passadas quase duas semanas sobre o golpe...
Na última página, na contracapa da edição portuguesa da Vida Soviética, que custava dez escudos, estava uma colorida foto com duas jovens a olhar um cartaz do filme “Viva Portugal”.
Umas páginas antes (p. 13 e 14), uma foto mostra trabalhadoras, tecelãs de Kostromá, a sorrir: simbolizam, lê-se na legenda, “os bons resultados obtidos” pelo “Partido e Governo soviéticos” na “melhoria constante das condições de trabalho dos operários, sobretudo dos jovens”.
Eram tempos “gloriosos” da Guerra Fria, entre EUA e URSS, de má memória...

Tuesday, December 30, 2008

A história de Pedro Rodriguez Peralta

Pedro Rodriguez Peralta era um capitão das forças armadas de Cuba quando, em 1969, foi caputado pelos militares portugueses na Guiné-Bissau. Foi capturado, ferido, e transportado para Portugal, onde ficou detido até Setembro de 1974. "Viu" a revolução dos cravos das janelas da cadeia e foi trocado por um cidadão norte-americano preso em Cuba, alegadamente agente da CIA, Lawrence Lunt. É uma história marginal dos primeiros dias da revolução portuguesa e que vale a pena recordar nos 50 anos da revolução cubana.

(A foto é de José Manuel Saraiva e foi publicada em 2002 pelo semanário Expresso. Na foto, aparece Pedro Peralta ladeado pelos dois militares portugueses que o detiveram, em 1969)




Thursday, November 13, 2008

Colóquio na Fundação Soares (ii): a notícia do DN

Frank Carlucci parecia "um típico mafioso italiano"
JOÃO PEDRO HENRIQUES
Debate. Mário Soares voltou a elogiar ex-embaixador dos EUA"O PREC visto da América" discutido ontem na fundação do ex-presidente

O pretexto foi o livro Portugal Classificado - Documentos Secretos Norte-Americanos 1974 -1975 (editora Alêtheia), do jornalista Nuno Simas, da Agência Lusa. Na sua fundação, Mário Soares moderou um debate sobre "O PREC visto da América", convidando José Medeiros Ferreira (ex-ministro dos Negócios Estrangeiros) e Carlos Brito (dissidente do PCP mas em 1974/1975 um dos principais dirigentes comunistas).Com exemplos concretos da pequena história do período revolucionário, Mário Soares voltou a demonstrar a sua empatia por Frank Carlucci, que no Outono de 1974 chegou a Portugal como embaixador dos EUA. "Um tipo pequenino, vivo. Um típico mafioso italiano!", contou, recordando o momento em que se conheceram. Carlucci chegou a Portugal com Otelo Saraiva de Carvalho (na altura um importante chefe militar e figura de topo na extrema-esquerda castrense) dizendo publicamente que não lhe podia garantir a segurança dada a fúria popular contra o "imperialismo" norte-americano. Costa Gomes, então Presidente da República, pediu a Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros, que assegurasse a Carlucci que nada lhe aconteceria. E aí a supresa: quando Carlucci chegou ao MNE e Soares lhe falou de Otelo, o embaixador revelou que já tinham almoçado com o militar. "Já o tinha metido no bolso! E acabaram a jogar ténis!", contou o fundador do PS, fascinado com a desenvoltura diplomática de Carlucci.Soares disse que os EUA "não tiveram tanta importância como se julga" no o processo revolucionário português. Os países que "ajudaram" à democratização foram a Alemanha, os nórdicos, os italianos e "sobretudo os ingleses". Medeiros Ferreira de certa forma corroborou esta tese afirmando que nos EUA havia "vários centros de poder" e "várias formas de pensar", destacando, por exemplo, que a descolonização "nunca teve no centro das preocupações norte-americanas". E até Carlos Brito admitiu que, apesar das "interferências" dos EUA e da sua "grande arrogância", "não foram os americanos a derrotar a aliança Povo-MFA" (entre o PCP, sectores das Forças Armadas, sindicatos e protagonistas da Reforma Agrária). "Foram os moderados das Forças Armadas, o PS, a Igreja Católica, toda a direita."Mário Soares reafirmou que "havia um projecto do PCP para tomar o poder". Medeiros Ferreira sublinhou, pelo seu lado, um aspecto "admirável" do 25 de Abril: "Portugal dotou-se de um regime democrático sozinho." Ou seja, fora de qualquer processo de democratização na Europa, como os que ocorreram logo após a II Guerra ou, nos anos 90, com a queda do Muro de Berlim.

Colóquio na Fundação Soares (i): a notícia da Lusa

A notícia da Lusa retirada do sapo.pt:

PREC: Ex-PCP Carlos Brito responsabiliza EUA por "derrota" de Aliança Povo-MFA
12 de Novembro de 2008, 23:38
Lisboa, 12 Nov (Lusa) - O ex-militante comunista Carlos Brito responsabilizou hoje os Estados Unidos pela "derrota" do "projecto de Aliança Povo-Movimento das Forças Armadas (MFA)" durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC), apontando a "obsessão" dos norte-americanos contra os comunistas.
Carlos Brito falava, na Fundação Mário Soares, em Lisboa, no colóquio "O PREC visto da América", a partir do livro "Portugal Classificado - Documentos Secretos Norte-Americanos 1974-1975", da autoria do jornalista da Agência Lusa Nuno Simas.
O ex-dirigente do PCP defendeu que - a par, em Portugal, da Esquerda "moderada", incluindo o Partido Socialista, da Direita e da Igreja - a "ingerência americana derrotou o projecto de Aliança Povo-MFA", que preconizava uma "economia largamente estatizada" e era sustentado pela "Esquerda Unitária, Partido Comunista, movimento sindical".
Carlos Brito apontou a "obsessão" e a "cruzada" dos Estados Unidos "contra os comunistas", alegando que os norte-americanos temiam que o regime comunista se estendesse a outros países europeus, como Espanha, Itália e Grécia, e pudesse causar "fragilidade na NATO".
O ex-comunista invocou também a "grande arrogância, por vezes insultuosa", dos dirigentes norte-americanos para com "os seus interlocutores" portugueses, nomeadamente com os então Presidente da República Costa Gomes, primeiro-ministro Vasco Gonçalves e ministro dos Negócios Estrangeiros Mário Soares.
"Estivemos em vários momentos à beira de um precipício", declarou Carlos Brito, defendendo que os norte-americanos chegaram a instar Espanha a invadir Portugal ou que houvesse uma Guerra Civil no País.
Hoje, o antigo militante do PCP reconhece que "todos", comunistas e socialistas, são responsáveis pela "sobreposição do poder económico ao poder político" e pelas "desigualdades sociais" em Portugal.
"Fomos todos culpados: os vencidos do 25 de Novembro [de 1975, numa referência aos comunistas]... que puxámos demasido a corda e os vencedores [socialistas]... que a têm deixado encurtar tanto", afirmou.
Por outro lado, para Carlos Brito, a Cimeira dos Açores, que levou à Guerra no Iraque, e a polémica dos voos de prisioneiros da CIA são uma "exuberante demonstração" de como os Estados Unidos continuam a influenciar Portugal.
Também presente no colóquio, o deputado do PS e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo Constitucional (1976-78) Medeiros Ferreira sustentou, contrariando a intromissão norte-americana aludida por Carlos Brito, que "os novos apoios" do Exterior, incluindo dos EUA, "não foram necessários" ao País, que, "pelos seus próprios meios", impôs, em 1974-75, uma "democracia pluralista".
Medeiros Ferreira afiançou, inclusive, que Henry Kissinger, secretário de Estado do presidente norte-americano Ricard Nixon, "esteve à espera", até Setembro de 1975, "que os militares resolvessem a situação" de instabilidade que se viveu em Portugal durante o PREC (sobretudo entre Março e Novembro de 1975).
Mário Soares, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre Maio de 1974 e Março de 1975, reforçou, em declarações aos jornalistas no final do colóquio, que nem os Estados Unidos nem a União Soviética sabiam do Processo Revolucionário em Curso, tendo a "ingerência" manifestado-se "a posteriori" quando ambos os países quiseram obter informações.
Referindo-se ao "projecto de Aliança Povo-MFA", o histórico socialista manifestou a sua convicção, à época, de que se tratava de "um projecto para o Partido Comunista tomar conta do Poder".
"Quem nos ajudou [Portugal, no período revolucionário] realmente foram os alemães, italianos, nórdicos e, sobretudo, os ingleses", defendeu no colóquio, sublinhando aos jornalistas que alguns norte-americanos "pensavam que era possível impedir os comunistas pela via militar".
"Mas os americanos não tiveram a importância que se pensava que tivessem tido ou que pudessem vir a ter", defendeu Mário Soares na sua intervenção enquanto moderador.
O jornalista Nuno Simas revelou-se surpreendido com a "crueza da linguagem" da troca de correspondência entre Portugal e Estados Unidos e com o "olhar distorcido" dos norte-americanos, que viam Portugal como "um país à beira de uma nova revolução russa", imagem que, invocou, Mário Soares e o antigo embaixador dos EUA em Lisboa Frank Carlucci procuraram inverter.
O autor de "Portugal Classificado - Documentos Secretos Norte-Americanos 1974-1975", cuja pesquisa durou sete anos, considerou "arrepiante quão perto" o País esteve do "abismo", no período revolucionário, ao ponto de os Estados Unidos quererem, em Setembro de 1975, distribuir armas ao PS, o que foi "travado" pelo então secretário de Estado Henry Kissinger.
ER.
Lusa/Fim

Tuesday, November 11, 2008

Thursday, November 06, 2008

Chefe do Governo de Franco admitiu intervenção militar em Portugal em 1975
04.11.2008, Alexandra Prado Coelho
A revelação feita ontem pelo diário espanhol El País baseia-se em documentos do Departamento de Estado norte-americano recentemente desclassificados

Documentos do Departamento de Estado norte-americano, recentemente desclassificados, revelam que Carlos Arias Navarro, último chefe do Governo de Franco, declarou aos norte-americanos que a Espanha estava disponível para uma intervenção armada em Portugal, em 1975, para travar o comunismo, revelou ontem o El País. Segundo os documentos a que o diário espanhol teve acesso através dos Arquivos Nacionais dos EUA, Arias manifestou as suas preocupações ao então vice-secretário de Estado norte-americano, Robert Ingersoll, durante um encontro em Jerusalém em Março de 1975. Ingersoll escreveu então ao secretário de Estado Henry Kissinger, fazendo eco das palavras do político espanhol: "Portugal é uma séria ameaça para Espanha, não só pelo desenvolvimento que está a ter a situação, como pelo apoio exterior que podia obter e que seria hostil a Es-panha". E acrescenta: "Espanha estaria disposta a travar o combate anticomunista, sozinha se necessário. É um país forte e próspero. Não quer pedir ajuda. Mas acredita que terá a cooperação e a compreensão dos seus amigos [...]". Ou seja, Arias esperava que os Estados Unidos manifestassem de forma clara o seu apoio a uma eventual intervenção, de acordo com as revelações feitas pelo El País, num artigo intitulado Arias queria ir para a guerra com Portugal. Estes papéis constituem "o primei-ro registo documental dessa intenção", diz Nuno Simas, autor do recentemente editado Portugal Classificado - Documentos Secretos Norte-Americanos 1974-1975. "Havia indicações nesse sentido de Paradela de Abreu [o editor de Portugal e o Futuro, o livro do general Spínola] e do antigo embaixador português em Madrid, Fernando Reino. Mas provas documentais não existiam". Em declarações aos jornalistas em Madrid em 1994, reproduzidas pela agência noticiosa Lusa, Fernando Reino contou uma versão um pouco diferente da história, dizendo que foram os EUA que sugeriram a Espanha a hipótese de invadir Portugal durante a crise provocada pelo assalto à embaixada espanhola em 1975. Segundo o antigo embaixador, "nessa altura houve um conselho de ministros em Espanha em que se discutiu o assunto e havia duas alas, uma que defendia a intervenção e a outra não". "Precauções apropriadas"Fernando Reino acrescentou ainda que, de acordo com as informações de que dispunha, teria sido o próprio Franco a decidir pela não intervenção em Portugal. Questionado pela agência Lusa sobre as fontes em que se baseava, explicou apenas que se tratava de "testemunhos vivos". Tiago Moreira de Sá que, juntamente com Bernardino Gomes, acaba de lançar Carlucci vs. Kissinger - Os EUA e a Revolução Portuguesa, também cita as declarações de Fernando Reino (que optou por não usar no seu livro por não terem confirmação de outras fontes), mas, de resto, diz que "todas as indicações apontavam no sentido inverso, para uma grande moderação da posição espanhola". Refere, em especial, uma conversa que o general Francisco Franco manteve com o Presidente norte-americano Gerald Ford (ver caixa) e com Kissinger, na qual Ford pergunta "Os moderados podem triunfar em Portugal?", e Franco responde: "Temos que deixar a revolução seguir o seu curso. A situação ainda não é muito clara. A situação económica vai seguramente deteriorar-se. Qualquer intervenção estrangeira seria prejudicial para os moderados, porque uniria os portugueses contra quem os atacasse". Os documentos citados pelo El País adiantam mais sobre o encontro entre Arias e Ingersoll, que aconteceu em Março, o mês do golpe militar falhado lançado por Spínola. O chefe do Governo espanhol terá dito ao "número dois" do Departamento de Estado que estavam a ser tomadas "precauções apropriadas" para impedir que "o que está a suceder em Portugal se estenda para o outro lado da fronteira espanhola". No seu telegrama para Kissinger, Ingersoll explica que Arias "está convencido de que a Espanha deve democratizar-se e abrir as suas portas a uma maior participação política popular", mas a experiência do general Spínola convenceu-o de que "não devemos subir nem descer uma colina demasiado depressa".Campainhas de alarmeO historiador Luís Nuno Rodrigues, especialista nas relações luso-americanas, confirma que estes documentos não eram conhecidos até agora, mas aconselha prudência na leitura do seu conteúdo. As declarações de Arias "são proferidas num contexto de negociações para a continuação das bases norte-americanas em Espanha e são momentos geralmente tensos, em que pode haver uma certa radicalização da linguagem". Sublinhando que não pode tirar con-clusões a partir daqueles excertos, considera, no entanto, "compreensível que a Espanha quisesse fazer soar as campainhas de alarme" relativamente à situação em Portugal, sobretudo depois do 11 de Março e do golpe falhado de Spínola. Mas lembra que "o combate anticomunista" podia ser feito por outros meios que não a intervenção militar - nomeadamente o apoio a estruturas de extrema-direita como o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP, de Spínola) e o Exército de Libertação Português (ELP), que "beneficiaram de algumas facilidades de organização de circulação em território espanhol".Prudente é também a leitura feita pelo historiador António Costa Pin-to, especialista no Estado Novo: "Em 1975, Portugal já está sob grande escrutínio da Administração norte-americana, e seria impensável qualquer acção unilateral da parte de Espanha". Admite, por isso, que uma mensagem como a de Arias "não seja para tomar à letra", mas constitua um alerta aos EUA. Até porque, a poucos meses da morte de Franco (em Dezembro de 1975) "a ditadura espanhola não estava para aventureirismos desse género". O secretário de Estado Henry Kissinger terá participado num encontro com Franco sobre a situação em Portugal em 1975.

A notícia do DN

Espanha admitiu declarar guerra a Portugal depois do 25 de Abril
SUSETE FRANCISCO
Verão Quente. Transcrição de conversas com diplomatas americanos revela ameaça

O último líder do governo de Franco, Carlos Arias Navarro, admitiu entrar em guerra com Portugal, em 1975, para travar o avanço do comunismo. A revelação consta de documentos, ontem divulgados pelo jornal El País, nos quais são relatadas conversas entre o chefe do governo franquista e diplomatas norte-americanos. Os relatórios integram os Arquivos Nacionais, em Washington. É a primeira vez que a hipótese de um ataque de Espanha a Portugal, na sequência da revolução de 74, surge citada num documento.De acordo com o diário espanhol, Carlos Arias Navarro informou em privado os Estados Unidos de que Espanha estava disposta a avançar para uma guerra. Segundo o relato escrito pelos diplomatas norte-americanos, o líder do governo de Franco manifestava uma "profunda preocupação" com os acontecimentos em Portugal, e pretendia que os EUA garantissem o apoio a Madrid em caso de conflito armado na Península.Estava-se então em Março de 1975, já após a tentativa do golpe spinolista do 11 de Março em Portugal - ao qual Arias se terá referido como o "último acto insensato de Spínola". Neste mesmo mês, a evolução política portuguesa foi discutida num encontro entre Arias e Robert Ingersoll (à data vice-secretário de Estado norte-americano) que decorreu em Jerusalém. Num relatório deste encontro dirigido ao secretário de Estado Henry Kissinger, Ingersoll escreve que "Portugal é uma séria ameaça a Espanha, não só pelo desenvolvimento da situação [política], mas sobretudo pelo apoio exterior que poderia obter e que seria hostil a Espanha". Afirmando que Arias estava "profundamente inquieto" com o que se passava, Ingersoll traduz assim o pensamento do político espanhol: "Espanha estaria disposta a travar o combate anticomunista sozinha, se necessário. É um país forte e próspero. Não quer pedir ajuda. Mas confia que terá a cooperação e a comprensão dos seus amigos, não só no interesse de Espanha, mas de todos os que pensam da mesma forma."No mesmo encontro, Arias garantiu ter tomado as "precauções apropriadas" para impedir que o que se passava em Portugal se estendesse ao outro lado da fronteira. Um mês depois, já num encontro com o senador Hugh Scott, o chefe do governo espanhol voltava a afastar esse cenário, argumentando que Espanha tinha mais liberdade, mais crescimento económico e que as forças armadas não tinham sofrido a "tensão de uma guerra colonial". A 28 de Maio é a vez do embaixador Wells Stabler informar: "Com a larga fronteira com Portugal, seria difícil a Espanha proteger-se de uma acção subversiva portuguesa." As conversas entre Carlos Arias Navarro e os responsáveis norte- -americanos decorrem num contexto de tensão nas relações entre os dois países - os Estados Unidos queriam renegociar a continuidade de várias bases militares em território espanhol, enquanto a Espanha de Franco procurava apoio internacional para entrar na NATO. É neste âmbito que Arias se queixa dos países europeus, apontando a incongruência da sua atitude face à "total anarquia que impera em Portugal, a cair num domínio completo dos comunistas, e a que têm face a Espanha, um bastião contra a expansão comunista".

Monday, November 03, 2008

Espanha preparou a guerra contra Portugal em 1975










Aquilo que era uma tese, por exemplo, de Paradela de Abreu, teve hoje confirmação oficial~.
O El Pais revela documentos dos arquivos norte-americanos em que Árias Navarro garantia que Espanha invadiria Portugal para evitar que o país se tornasse comunista.

Ler tudo aqui

Ler aqui um texto da Lusa

Espanha disse aos EUA em 1975 estar preparada para atacar Portugal

O último presidente do Governo franquista, Carlos Árias Navarro, afirmou em 1975 aos EUA que Espanha estava preparada para entrar em guerra com Portugal «para evitar que o comunismo se espalhasse», revela o jornal El Pais.
Na sua edição de hoje, o jornal refere que essa ameaça está nos registos de conversas entre diplomatas e governantes de Espanha e dos Estados Unidos, a seguir à tentativa do golpe spinolista de 11 de Março em Portugal.
El Pais refere que Árias «exprimia a sua profunda preocupação» pela transição para a democracia em Portugal e que queria o apoio de Washington caso ocorresse um conflito bélico.
«Tratava-se de um momento crucial nas relações entre os dois países, porque os Estados Unidos desejavam renegociar o aluguer das bases militares e Árias queria que Washington apoiasse a entrada de Espanha na NATO», escreve o jornal.
A análise feita pelo diário espanhol baseia-se em documentos obtidos nos Arquivos Nacionais em Washington que reproduzem as observações dos Estados Unidos nos últimos anos antes da morte de Franco.
Segundo esses documentos, a situação em Portugal foi um dos temas dominantes da reunião que Árias Navarro manteve com o vice-secretário de Estado norte-americano, Robert Ingersolll, em Jerusalém, em Março de 1975.
Nesse encontro, Árias manifestou a sua preocupação sobre os acontecimentos em Portugal devido ao que o presidente do Governo classificou como «o último acto insensato de Spínola».
«Portugal é uma séria ameaça para Espanha, não apenas pelo desenvolvimento que está a ter a situação, mas pelo apoio exterior que poderia ter e que seria hostil a Espanha», escreveu Ingersoll a 18 de Março, numa mensagem para Henry Kissinger, então secretário de Estado.
«A Espanha estaria disposta a travar o combate anticomunista sozinha, se for necessário. É um país forte e próspero. Não quer pedir ajuda. Mas confia que terá a cooperação e a compreensão dos seus amigos, não apenas no interesse de Espanha, mas no interesse de todos os que pensam assim», escreveu.
Árias terá explicado aos americanos estar a tomar «as precauções devidas» para que «os acontecimentos de Portugal não se estendam ao outro lado da fronteira».
«Está convencido de que a Espanha deve democratizar-se e abrir as suas portas a uma maior participação política popular. Mas a experiência de Spínola convenceu-o de uma coisa: não há que subir e descer uma colina demasiado depressa», escreve.
A preocupação de Árias voltou a ser repetida num encontro a 07 de Abril de 1975 com o senador republicano Hugh Scott, a quem prometeu que a Espanha não repetiria o que aconteceu em Portugal.
Como argumentos para justificar essa posição explicava que em Espanha há «mais liberdades», mais crescimento económico e maior distribuição da riqueza, além de que as forças armadas espanholas não tinham «sofrido a tensão da uma guerra colonial».
«Árias disse que o exército espanhol conhece os perigos do comunismo pela experiência da Guerra Civil e está totalmente unido», dizia o embaixador norte-americano, Wells Stable, numa mensagem enviada para Washington a 09 de Abril de 1975.

Monday, October 20, 2008

Ogivas nucleares nos Açores


Guerra-fria
Ogivas nucleares

sobre o arquipélago


Reportagem: Rui Messias / Fotografia: António Araújo

Antigos trabalhadores recordam ter visto indivíduos com fardas semelhantes às dos apicultores dentro dos paióis no Cabrito. Documentos norte-americanos desclassificados colocam as Lajes na rota das aeronaves com armamento nuclear em trânsito no Atlântico. Indícios de que as bombas atómicas andaram por cá? Cientistas defendem que se estude o assunto.

Nos últimos anos têm surgido novas investigações que reforçam a tese de que os Estados Unidos mantiveram – ou, pelo menos, fizeram passar – armamento nuclear na ilha Terceira.Os vários estudos assumem que essa eventual presença não seria permanente, mas são vários os indicadores que dão sustento a essa teoria, nem confirmada nem desmentida oficialmente, nem por Portugal nem pelos Estados Unidos da América.Um dos últimos documentos a admitir essa possibilidade é o livro do jornalista português Nuno Simas, que revela documentos oficiais americanos, entretanto desclassificados.“A 29 de Julho de 1957, um avião C-124 carregado com duas bombas nucleares «em rota para os Açores» teve problemas mecânicos e a tripulação optou por lançar a carga ao mar, ao largo de New Jersey. «As implicações são óbvias: se não tivessem havido problemas, o avião teria aterrado nos Açores com as duas bombas nucleares», afirma Hans Kristensen [director do projecto de informação nuclear da Federação dos Cientistas Nucleares, autor de várias investigações académicas sobre o arsenal nuclear dos Estados Unidos e da NATO ao longo da Guerra-fria, e que, em 2007, recebeu um documento desclassificado intitulado “Broken Arrow”, o nome de código dos acidentes com material atómico], admitindo que as Lajes tenham sido utilizadas, ao longo dos anos da Guerra-fria, para trânsito de aviões com carga idêntica”, escreve o jornalista Nuno Simas, autor do livro “Portugal Classificado - documentos secretos norte-americanos, 1974-1975” (2008).Admite, contudo, segundo a mesma fonte, que “as bombas teriam como destino final, para armazenamento permanente, bases norte-americanas no Norte de África e não os Açores”.O investigador afirma que Portugal autorizou nos anos cinquenta o depósito de armas nucleares na ilha Terceira, pelos norte-americanos, em caso de necessidade, o que, em seu entender, significa que a Base das Lajes terá sido, pelo menos, preparada para receber tais armamentos.Adianta também que estudos independentes norte-americanos permitem concluir pela presença na ilha Terceira de cargas nucleares de luta anti-submarina utilizadas pelos aviões P3-Orion que patrulhavam o Atlântico a partir das Lajes até ao início dos anos noventa.«Os Açores estavam reservados a ser uma base de armamento nuclear em situação de crise, emergência ou guerra. Autorizações foram válidas desde os anos 60 até à década de 80», refere William Arkin, ex-analista do exército norte-americano, citado por Nuno Simas.
O responsável, aliás, segundo a mesma fonte, revelou, em 1985, que a “base açoriana estava nos planos norte-americanos para «instalação condicional» de armamento nuclear, o que causou manifesto mal-estar no Governo português.Da parte governamental portuguesa, qualquer um destes dados nunca foi confirmado. Quando, em 1985, três investigadores (ver abaixo) revelaram que os Açores estavam incluídos nas localizações onde os norte-americanos poderiam manter ou fazer passar material nuclear, responsáveis portugueses alegaram que “tudo não passava de especulações”, logo não merecedoras de comentários.“Um antigo chefe das Forças Armadas portuguesas” – escreve Nuno Simas – afirma que «não há registo de terem passado pelas Lajes armas nucleares». Os acordos entre os Estados Unidos e Portugal não são, de todo, exaustivos nessa matéria, mas o mesmo ex-chefe militar, com funções na hierarquia das Forças Armadas nas décadas de 70 e 80, afirma que a tese prevalecente, entre os militares, era que «preferencialmente por lá não passassem». Um comandante português da base açoriana descreveu as preocupações dos militares portugueses: «Colocámos a questão da existência das armas nucleares na base. A resposta: montadas não há. Se calhar os americanos têm os componentes. Mas é preciso notar que os Estados Unidos colocam [na base] todo o material necessário em 12 horas”, afirma Nuno Simas, na página 205 do “Portugal Classificado - documentos secretos norte-americanos, 1974-1975”.
Revelações

William Arkin, Robert Norris e William Burr, autores de um artigo sobre o uso de armas atómicas por parte dos militares americanos, publicado, em 1999, no Bulletin of the Atomic Scientists, revelaram, baseando-se em autorizações presidenciais, que armamento nuclear norte-americano “deveria ser depositado em Espanha, Filipinas, Açores, e na ilha de Diego Garcia, no Oceano Índico.“Robert Norris, perito em armamento nuclear, é da opinião de que «nada aponta para a existência, na Base das Lajes, de armazenamento permanente» de armas nucleares. Mas significa isto que, ao longo dos anos da Guerra-fria, as Lajes nunca armazenaram armamento nuclear?”, pergunta Nuno Simas.“Não” – responde de seguida – “William Arkin admite que armas deste tipo tenham sido depositadas nos paióis da Base da ilha Terceira, «ainda que temporariamente», devido à avaria de um avião, por exemplo, ou a uma situação de emergência.Certa era a utilização da base terceirense no “Chrome Dome Program”, o programa americano de utilização de armamento nuclear para um contra-ataque contra a União Soviética, em que uma das rotas passava a 300 quilómetros a Norte dos Açores.O “Chrome Dome Program” envolvia 12 super-bombadeiros B-52, que levavam nos seus porões bombas termo-nucleares, que seriam atiradas sobre alvos soviéticos ou países integrados no Pacto de Varsóvia, caso a URSS ataca-se os Estados Unidos.Estas aeronaves permaneceram no ar constantemente nas décadas 50, 60 e 70.“Neste programa “Chrome Dome”, a base das Lajes (…) ao serviço dos Estados Unidos e da NATO, serviria como ponto de apoio, em caso de avaria ou acidente”, revela Nuno Simas, citando a investigação de Hans Kristensen.
Episódios
Há poucos anos, um antigo trabalhador português ao serviço dos militares na base das Lajes, em declarações ao DI, embora pedindo o anonimato, revelou ter visto “homens vestindo fatos semelhantes aos que se usa para retirar o mel das colmeias nos paióis do Cabrito”, envoltos em enorme secretismo e grandes cuidados de segurança.“Quando esses homens ali estavam, os seguranças portugueses eram mandados sair do local, e eram substituídos por militares armados”, recorda, embora desconhecendo se se tratava de armamento nuclear.Nessa zona da ilha, os militares norte-americanos mantiveram, durante vários anos, um vasto campo de paióis, hoje abandonado.Entre esse campo e um outro, hoje propriedade da Força Aérea Portuguesa, situa-se o “Pico Careca”, uma pequena elevação sem vegetação no seu cimo.Foi nessa área, aliás, rezam as descrições populares, que, em Janeiro de 1968, um segurança português – Serafim Viera Sebastião – terá avistado um Objecto Voador Não Identificado (OVNI).Vários académicos assumem que a inexistência de vegetação no topo do “Pico Careca” indicia a presença de substâncias que poderão resultar de radioactividade, ou outra qualquer actividade “secreta” que tenha destruído a vida vegetal ali existente.O professor Félix Rodrigues, do Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores, confirma – em declarações recentes ao DI - a presença na Terceira de vestígios de urânio, tório e água com níveis de trítio ligeiramente superiores aos níveis ambientais, que não indiciam uma origem geológica, mas não confirmam nem desmentem a hipótese de armas nucleares na ilha. Preconiza, por isso, mais investigações de pormenor e em larga escala.
Investigações
No início deste mês, uma notícia publicada pelo DI dava conta de que, nos anos 90, uma comissão do Senado norte-americano investigou uma queixa de militares americanos, à altura doentes com cancro, onde alegavam terem estado expostos a radiações nucleares na Base das Lajes.A informação foi confirmada ao jornalista Armando Mendes por Orlando Lima, hoje empresário na ilha Terceira e à altura um dos responsáveis pela segurança ambiental das Feusaçores (era funcionário dos norte-americanos nas Lajes).
Segundo esta fonte, a comissão do Senado deslocou-se à Terceira com secretismo, mas a sua presença nas Lajes foi bem notória. Na altura soube-se que a deslocação teve a ver com a alegada exposição de militares a radiação.O próprio Orlando Lima adiantou que o dossier foi considerado secreto, informação confirmada por altas patentes militares portuguesas que pediram o anonimato e garantiram nunca ter tido conhecimento dos resultados da investigação.Os documentos relativos a esta visita, segundo as mesmas fontes, estarão classificados por um período de trinta anos.Todos estes indícios têm servido para vários investigadores e comentadores da presença americana na ilha Terceira advogarem a necessidade de um estudo aprofundado desta situação. Nem que seja para sossegar as populações, argumentam.
Para ler no site do Diário Insular vá aqui; para ler em PDF na revista do DI, vá aqui

Sunday, October 19, 2008

Incertezas do Xá da Pérsia na base das Lajes



De leitura obrigatória: o texto de Margarida Santos Lopes sobre as horas de incerteza do Xá da Pérsia e a mulher, em 1980, numa pista da base das Lajes, nos Açores, na edição de hoje da revista Pública.

A última imperatriz da Pérsia
Farah Diba Pahlavi: Os EUA retiveram o Xá nos Açores para o entregar a Khomeini

Há quase três décadas no exílio e Farah Diba Pahlavi, que este mês (dia 14) completou 70 anos de vida, ainda não consegue esquecer-se da noite de 23 de Março de 1980 quando um DC9 das Evergreen Air Lines em que viajava fez escala nos Açores. O avião aterrara, oficialmente, para reabastecimento, mas ficou retido várias horas na pista sem autorização para descolar. “Foi um momento de angústia”, conta a última imperatriz da Pérsia, numa rara entrevista por e-mail.
(…)
Dos Açores ao Cairo

O Xá e a Xabanu partiram para o Cairo, às 14h00 locais, no domingo 23 de Março. À noite, o DC9 das Evergreen Air Lines, usado para voos fretados, fez escala nas Lajes, nos Açores, para reabastecimento. Ao fim de uma hora de espera, Farah Diba começou a temer o pior: “Não seria uma tentativa de nos impedir de chegar ao Egipto? Estávamos numa base americana, num avião americano, portanto, tudo era possível.” Inquiridos os responsáveis, a explicação foi a de que o aparelho “precisava de autorização para sobrevoar determinados territórios”.

“Pedi que me deixassem usar um telefone para contactar um amigo em Paris”, recorda Farah Diba na entrevista à Pública. “Informei-o da nossa situação: que Sua Majestade sofria de febre alta, que estava muito frio no avião e que ele notificasse toda a gente se não mais o contactasse. Muitos anos depois, terá sido na década de 1990, encontrei um ministro português dos Negócios Estrangeiros, o senhor André Gonçalves Pereira. Disse-me que a Embaixada dos EUA [em Lisboa] havia sido questionada sobre a nossa retenção na pista, durante mais de quatro horas, e que a resposta foi ‘não podemos dizer-vos’ [mais adiante o ex-ministro dará a sua diferente versão]. No dia seguinte [a 24 de Março de 1980], o embaixador português em Washington fez a mesma pergunta ao Departamento de Estado e, mais uma vez, a resposta foi ‘não podemos dar-lhe nenhuma justificação’.”

Posteriormente, Farah Diba encontrou a explicação para a interminável escala. Quando estava prestes a depositar um pedido de extradição, um dos advogados enviados por Teerão ao Panamá pediu aos EUA que interceptassem o avião em que seguia o casal imperial, porque Saedegh Ghotbzadeh se declarara convicto de conseguir a libertação dos reféns americanos assim que fosse anunciada a detenção do monarca.

A decisão de bloquear o avião nas Lajes terá sido de Hamilton Jordan, chefe de gabinete da Casa Branca e confidente de Carter, embora este não tenha sido avisado. Como não chegava de Teerão qualquer notícia encorajadora, o aparelho foi autorizado a descolar, após quatro horas imobilizado. A 24 de Março, quando o pedido de extradição foi entregue, os Pahlavi chegavam ao Cairo.

Torrijos “não teria hesitado em colocar o Xá em residência vigiada”, convenceu-se Farah Diba. Mas chegaria isso para aplacar a ira dos iranianos? Seja como for, Mohammad Reza Pahlavi não viveria muito mais tempo para restaurar o seu reino. Morreu a 27 de Julho. Sadat, que o instalara no palácio Kubbeh, ofereceu-lhe um imponente funeral de Estado. O corpo jaz na Mesquita de El Rifai, onde Farah Diba vai todos os anos prestar homenagem.

Encontro no Algarve

“Sim fui eu”, confirma André Gonçalves Pereira à Pública. “Fiquei curioso com o que se passara em 1980 e, no ano seguinte, já ministro, procurei averiguar o que se tinha passado nas Lajes. O avião chegou à meia-noite e partiu às oito da manhã. Tenho a certeza de que não foram apenas quatro horas [como disse Farah Diba]. Era estranho. A paragem só deveria ser de meia hora. A tripulação do aparelho alegara falha técnica.” No entanto, confrontadas com um pedido oficial de esclarecimento, responsáveis americanos apenas retorquiram que “não sabiam”. Não podiam, acrescenta Gonçalves Perreira, ter respondido a um Estado soberano “não podemos dizer-vos”, como alega a imperatriz na entrevista.

O ex-chefe da diplomacia foi remexer nos diários onde vai “anotando umas coisas”, e lá estava registado o momento em que deu conta à Xabanu do seu interesse pelo episódio nos Açores. “Ela veio jantar a minha casa no Algarve, em Julho de 1996, e foi então que conversámos sobre este assunto.” A informação que ele tinha era a de que os americanos estavam a negociar com os iranianos, através da Argélia, a entrega do Xá aos mullahs, em troca da libertação dos seus reféns em Teerão. Supostamente, a exigência da República Islâmica era a de que o avião que transportava o soberano deveria deixá-lo na capital iraniana. Os EUA só aceitavam depositá-lo em Argel. E as negociações falharam.”

A versão que Farah Diba relata em Memórias identifica o Panamá e não a Argélia. O antigo ministro salienta: “Nestas coisas de diplomacia ultra-secreta nunca podemos ter certezas”, excepto a de que “não houve razões técnicas mas razões políticas” para o avião ficar retido, e a de que Washington “estava mesmo a negociar a extradição do Xá”.

“Farah Diba escreveu-me depois uma carta a agradecer. Ela é uma mulher muito inteligente e bem informada. Tem um porte imperial. Ainda mantemos contactos esporádicos. Lembro-me de um jantar em Paris. Pedi ao embaixador português que a convidasse.”

Sobre o que se passou nas Lajes, Gonçalves Pereira destaca “o contraste” no tratamento que o Xá teve por parte dos Estados Unidos e do Egipto. “A Administração Carter, que até era relativamente séria, estava disposta a entregar o Xá, que foi aliado fundamental dos Estados Unidos no Médio Oriente, enquanto o Presidente Sadat, numa atitude quase quixotesca, aceitou recebê-lo, ainda que ameaçadíssimo pelo fundamentalismo islâmico, que no ano seguinte viria a assassiná-lo. Era um homem notável.”


Ler na íntegra aqui

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