Passa mais de um ano sobre a primeira análise ao golpe em
Lisboa. À mesma mesa de Downing Street, a 24 de julho de 1975, voltam a
sentar-se Harold Wilson, James Callaghan. Portugal está na agenda. Em Londres e não só; também em Paris, Washington, Pequim, Moscovo. O cenário era muito diferente de maio de
1974. Há uma revolução vermelha nas ruas de Lisboa. Os britânicos olhavam a situação “confusa” de Portugal, com
Soares a querer derrubar o Governo de Vasco Gonçalves; havia o risco de um
golpe de Estado da parte do PCP e da esquerda militar, concluíam eles. A poucos dias da Cimeira de Helsínquia, Wilson planeava
falar, juntamente com o presidente da França, Giscard d’Estaing, ao líder
soviético, Leonid Brejnev, sobre Portugal e os riscos, para a política de
“detente”, de um envolvimento da URSS nos acontecimentos em Portugal. “Não havia dúvidas de que a União Soviética estava a
fornecer fundos substanciais ao Partido Comunista Português, então o sr.
Brejnev tem o poder, ainda que parcialmente, para controlar a situação, como
prova de empenhamento na ‘detente ‘”, lê-se na ata da reunião de ministros
britânicos*. Nos arquivos norte-americanos há, também, documentos a
atestar este plano de Wilson e Giscard. E até um telegrama do Departamento de
Estado norte-americano a relatar que Brezhnev terá dito que ia analisar o
pedido… Harold Wilson era um dos líderes europeus que tinha planeado
estar presente num encontro de solidariedade da Internacional Socialista com Portugal, em Estocolmo.
Mário Soares era agora uma das figuras centrais da política portuguesa contra o
avanço “vermelho” em Portugal. Em Estocolmo, lá estiveram Willy Brandt, Olof Palme, François
Miterrand e Yitzak Rabin. Na ata, Soares já não era o “senhor Soares”, mas sim “dr.
Soares”…
*Consultar este link; para descarregar o documento, faça
duplo click em “download full document”:
Tinha passado apenas uma semana desde a queda da ditadura de Marcelo
Caetano, a 25 de abril de 1974. Harold Wilson era
primeiro-ministro no Reino Unido. No número 10 de Downing Street, em Londres, é
feita uma primeira análise do golpe (para já era um golpe). Há dois nomes que
aparecem na ata da reunião desse dia: o “senhor Soares” e o “general Spínola”.
A ata da reunião do governo britânico é de 02 de maio de 1974 e a
posição sobre Portugal é descrita pelo ministro dos Negócios Estrangeiros,
James Callaghan, mais tarde um aliado de Soares nos meses loucos da revolução. Para
já, Londres ia reconhecer o “novo regime”. António de Spínola, presidente da
Junta de Salvação Nacional, era tido como alguém que conseguiu manter a
situação estável em Lisboa. No texto da ata (ver página oito do documento na página dos National
Archives*) são curiosas as informações relatadas: sobre a visita de Soares a Londres,
como “emissário de Spinola”, e o desejo dos comunistas de participarem no
Governo saído do 25 de abril. Pode não parecer novidade, mas Mário Soares também tem uma confissão,
no relato feito por Callaghan:a ambição
de ser primeiro-ministro. Apesar dos “grandes problemas” que Portugal vai enfrentar na transição
de um “Estado totalitário para uma democracia”, Callaghan dizia acreditar que
estava criada “uma oportunidade” para os portugueses. Problemático era o dossier da descolonização – primeiro tema de fricção
entre os militares do MFA e Spínola. Pela ata percebe-se que “o novo regime”
acolheria de bom grado conselhos sobre o tema vindos de Londres... Curiosa é a forma como Soares, secretário-geral do PS, era tratado na
ata: “Senhor Soares”. Assim mesmo, com “n” e “h”. Um ano depois, já seria
diferente.
*Consultar este link; para descarregar o documento, faça duplo click em
“download full document”:
Na semana passada, os National Archives britânicos "desclassificaram" papéis de 1982 do gabinete de Margaret Thatcher, passados 30 anos de proteção. Há papéis sobre a guerra das Malvinas, confissões sobre o pior momento da sua vida...
E há um português... claro. Não se sabe é quem num documento sobre alegada vigilância pela URSS com aviões civis. Quem fez um pouco de investigação sobre o assunto sabe das alegações sobre as preocupações das autoridades aeronáuticas portugueses com os aviões da aeroflot depois do 25 de abril de 1974.
Ao tratar a "papelada" de Thatcher, o Express alega isso mesmo, que havia aviões civis a fazer atividades de espionagem. Um espião soviético foi detido 1981, em Londres, num "encontro clandestino com um cidadão português".
Foi um encontro entre dois presidentes caídos em desgraça. A expressão é do ex-embaixador de Portugal em Washington João Hall Themido. E “Inútil”, acrescenta o diplomata nas suas memórias sobre essa cimeira na base das Lajes, a 18 de Junho de 1974, a que não faltou um incidente, com um banquete que não chegou a acontecer.
Um era Richard Nixon. Vivia os dias do fim da sua Presidência, devastada pelo escândalo do Watergate. Outro, António de Spínola, estava há escassas seis semanas no poder num país à beira da revolução e em guerra mais ou menos surda com o Movimento das Forças Armadas (MFA) e Mário Soares por causa a descolonização, um dos três D prometidos pelos oficiais que derrubaram a ditadura de Salazar e Caetano a 25 de Abril. O presidente da Junta de Salvação Nacional (JSN) apostou forte nesse breve encontro durante uma escala pelos Açores de Nixon e comitiva no regresso a Wasington, após uma visita ao Médio Oriente. Queria o apoio dos Estados Unidos ao seu modelo de descolonização a duas velocidades, bem diferente do que queriam Soares e os militares, cansados de 13 anos de guerra colonial. Em vão. Nixon não quis comprometer-se. Numa fase em que a administração norte-americana ainda olhava a revolução portuguesa com expectativa, limitou-se a umas promessas mais ou menos genéricas de apoio. Mas o frente-a-frente nessa manhã de 19 de Junho não foi tão inconsequente quanto isso. A verdade é que o conteúdo da conversa continua classificada nos arquivos norte-americanos – apesar de Spínola ter feito o seu relato no livro País sem Rumo. Passados 36 anos, das sete páginas do dossier sobre a cimeira apenas uma foi desclassificada. É um memorando de Brent Scowcroft. Mas, mesmo assim, há partes "apagadas". Scowcroft, num memorando datado de 11 de Julho para Henry Kissinger, o todo-poderoso secretário de Estado, escrevia que em anexo apresentava o que julgava ser uma "pobre versão" da reunião entre os presidente norte-americano e português. A pedido de Spínola, o conselheiro de segurança lembrava que fora a dois, "dado que não confiava em ninguém que o acompanhava". O presidente da Junta fora aos Açores acompanhado pelo ministro Sá Carneiro.
"O Presidente [Nixon] ficou preocupado com o que Spínola lhe disse". Daí ter pedido que "apenas fosse enviado apenas a si, a [Alexander] Haig e a mim". Além disso, ordenou duas "acções", em dois pontos. A primeira não se sabe qual (foi "apagado"). A segunda é sobre os receios com "os comunistas" em Portugal e em África, para o qual o ex-comandante da Guiné alertou o presidente dos Estados Unidos. Daí que Nixon tenha pedido ao embaixador Tasca, que esteve colocado em Atenas e "aparentemente o Presidente considerava um especialista mundial em subversão" para fazer uma análise sobre "a actual ameaça da subversão comunista".
Numa frase: Richard Nixon foi sensível à versão da ameaça vermelha feita por Spínola. Não se podendo relacionar directamente, a verdade é que em Julho surgiram as primeiras declarações mais preocupadas de Kissinger sobre a revolução portuguesa. Quando disse, a 12 de Julho, que "Portugal está a ser a preocupação da América".
Afinal, desde Maio, do I Governo Provisório, que o país tinha dois ministros comunistas, o líder histórico do PCP Álvaro Cunhal e Avelino Gonçalves - uma "ameaça" que Washington não se cansou de combater nos meses seguintes até ao 25 de Novembro. Mas nessa altura, apesar de a revolução dos Cravos estugar o passo e Spínola ainda era visto pelo velho aliado como um homem de confiança à frente do Governo, ao contrário do que aconteceu no Verão Quente de 1975, quando o velho general tinha caído em desgraça aos olhos de Washington. Provas de alguma confiança deu - pelo menos formalmente - o presidente norte-americana numa reunião, a 30 de Julho, poucos dias antes de resignar, com o secretário do Tesouro, Kenneth Rush, conselheiro do Presidente, e Brent Scowcroft. Uma ideia corroborada por Witney Schneidman, no seu livro Confronto em África: Washington e a Queda do Império Colonial Português. Os Estados Unidos ainda tinham o seu general de confiança... "Spínola é bom... O problema é que os comunistas são as únicas forças organizadas em Portugal", comentou Nixon quando falava da situação política na Europa. Franco, em Espanha, estava a morrer. "E depois? Quem sabe?". Se a Espanha "cair" fora do controlo do Ocidente (e tiver um Governo “comunista”, entenda-se), depois é a Itália, antevia ele, lembrando a posição da Grécia e do Turquia no chamado Flanco Sul, onde os EUA até tinham bases militares que serviam a NATO.
Na conversa em, 1975, há outro dado curioso - visto à distância do tempo da Guerra Fria e da queda do Muro de Berlim, há 20 anos.
O presidente norte-americano admitiu que os Estados Unidos não tinham qualquer objecção à reunificação da Alemanha. E achava, aliás, que seria um processo inevitável. Na conversa com Deng, a estratégia anti-comunista era mais uma vez repetida. Henry Kissinger contou ter sido ele a receber, em Washington, François Mitterrand, líder do PSF, e não Gerald Ford, “para ele não fazer propaganda”. E disse-lhe que a administração Ford só manteria relações com ele se Mitterrand rompesse com o “grupo de [George] Marchais”, líder do PCF. Algo de muito idêntico disse Kissinger ao embaixador em Lisboa, Stuart Nash Scott, em 1974. Por causa da participação de Álvaro Cunhal, secretário-geral do PCP, no Governo Provisório.
(…) The President: We have no objection to the reunification of Germany, and as a matter of fact consider it inevitable. (…) Vice Premier Teng: During Chancellor Schmidt’s visit he said that they are making efforts to strengthen their tank and anti-tank weapons, and their surface-to-air missiles. But I told him to be careful as the Soviet Union might not try to break through the center. It might attempt the tactic of outflanking Europe. There are not only problems in the northern wing, but also in the southern wing, and these are more complicated and important. We have learned from you that recently the situation in Portugal has improved, but it is possible there might be reversals and trials of strength again. The President: We are working closely with various governments in West Europe, urging them to take strong action in Portugal; and we ourselves, as I indicated yesterday, are helping to strengthen the anti-Communist forces in Portugal. I recognize that the situation is not yet stable, but the progress has been significant in the past several weeks. As I told you yesterday, the United States is working with the government forces against the Communists in Italy and France. And we think these problems must be recognized by the governments themselves; and they must be able to take action against the elements in their own countries. For example, when Mitterrand came to the United States, we had no contact with him under any circumstances. Secretary Kissinger: When he came I saw him, not the President, and only in the presence of the French Ambassador so that he could make no propaganda. And we told him we would not deal with him unless he broke with the Marchais group.
O documento é recente, foi desclassificado em 2008 e publicado nesse ano no XVIII volume do dossier Foreign Relations of the United States (Foreign Relations, 1969–1976, Volume XVIII) , editado pelo Office of the Historian do Departamento de Estado norte-americano. Parte dos memorandos desse volume recebi-os da Ford Library durante a investigação para o “Portugal Classificado”. Mas memorando da conversa de Ford, Kissinger com Mao só me chegou às depois de o livro ser editado, em Abril de 2008. Daí que tenha escrito, erradamente, que a revolução não chegou à mesa das negociações de Kissinger e Mao. Chegou. A discussão não foi profunda e aconteceu em Pequim dias depois do desfecho, com a vitória dos “moderados”, do 25 de Novembro. Ford alerta que os soviéticos estavam a tentar explorar “algumas fraquezas” em Portugal e na Itália, onde a situação política era mais volátil e existiam partidos comunistas com força.
O comentário de Mao é curto. Perante o resultado do 25 de Novembro em Lisboa e a afirmação de Ford sobre as tentações soviéticas, o líder chinês parece concordar com o presidente norte-americano e diz apenas:“Sim, e agora Portugal parece mais estável. Parece estar melhor.”
(…)
President Ford: How are your relations with Western European
countries, Mr. Chairman?
Chairman Mao: They are better, better than our relations with Japan.
President Ford: It’s important that our relations with Western Europe
as well as yours be good to meet the challenge of any Soviet expansion
in Western Europe.
Chairman Mao: Yes. Yes, and on this we have a common point
there with you. We have no conflict of interests in Europe.
President Ford: As a matter of fact, Mr. Chairman, some of us believe
that China does more for Western European unity and the
strengthening of NATO than some of those countries do for themselves.
Chairman Mao: They are too scattered.
President Ford: Some of them are not as strong and forthright as
they should be.
Chairman Mao: As I see it, Sweden is not bad. West Germany is
not bad. Yugoslavia is also good. Holland and Belgium are lagging a
bit behind.
President Ford: That’s correct. And the Soviet Union is seeking to
exploit some weaknesses in Portugal and Italy. We must prevent it, and
we are trying to do so.
Chairman Mao: Yes, and now Portugal seems to be more stable. It
seems to be better.
President Ford: Yes, in the last forty-eight hours it has gotten very
encouraging. The forces we support have moved with great strength
and taken the action that is needed to stabilize the situation.
We agree with you that Yugoslavia is important and is strong in
its resistance against the Soviet Union, but we are concerned about
what might happen after Tito.
(…)
Ford leva a conversa para Tito e a Jugoslávia, impressionando uma confissão que fez e o elogio à “força e independência” de Ceausescu na Roménia…
Há meses que Kissinger insistia em explicar a política “forte” dos Estados Unidos quanto à União Soviética. Fê-lo com Qiao Guanhua, ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, num encontro sem Setembro, em Nova Iorque. “Onde os soviéticos dão sinais de querer expandir-se, nós resistimos.” Mesmo quando enfrenta as críticas tanto interna como externamente. E é o que repete, já em Outubro, em Pequim, quando se encontra com Deng Xiaoping: Evitar “a expansão soviética” mesmo quando os Estados Unidos estão sozinhos a fazê-lo
(…)
Secretary Kissinger: Let me say one thing. Our assessment of Soviet
tendencies does not differ from yours, but our strategic problem
is different than yours.
Your strategic problem is to call the attention to the dangers of this
tendency. Our strategic problem is to be in a position to resist these
tendencies when they occur. To do this we have to demonstrate for our
domestic situation that no other alternative is available.
Therefore we must use language [descriptive] of our relations
[with the USSR] which you do not like. But this is the only way for the
United States to pursue a really strong policy. If you observe our actual
policies in the Middle East, Portugal, Angola, or other areas, when
the Soviet Union tries to expand we resist—even in the face of domestic
or foreign criticism.
(…)
Voltemos a 2 de Dezembro. Gerald Ford explica a importância de manter unida e forte o Flanco Sul da Europa (Portugal, Espanha, Grécia, até a Jugoslávia) para conter “quaisquer esforços expansionistas” da União Soviética. De Portugal volta a falar para perguntar por que não aceita a CEE a adesão de Portugal e Espanha. Foi ainda preciso esperar 11 anos e a democratização plena dos dois países ibérios.
(…)
President Ford: We are very concerned about the situation in Spain
as well, Mr. Chairman. The King we do support. We hope he will be
able to handle the elements that would undermine his regime. And we
will work with him in trying to have the necessary control of the situation
during this period of transition.
Chairman Mao: Yes. And anyway we think it would be good if the
European Common Market accepted them. Why doesn’t the EEC want
Spain and Portugal?
President Ford: Mr. Chairman, we urged the NATO alliance to be
more friendly to Spain even under Franco. And we hope with the new
King that Spain will be more acceptable to the NATO alliance. In addition
we feel that the EEC ought to be responsive to movement by the
Spanish Government toward unity with Western Europe as a whole.
We will work in both directions as much as we can.
Secretary Kissinger: They are not radical enough for the Europeans.
Chairman Mao: Is that so? Yes, in the past they had fought each
other. Yes, and in the past you did not curse Franco.
President Ford: No. And we support the new King because
the whole southern belly of Western Europe must remain strong—
Portugal, Spain, Italy, Greece, Turkey, Yugoslavia. All that must be
strengthened if we are to meet any expansionist efforts by the Soviet
Union.
Chairman Mao: Good. Yes, and we think Greece should get better.
President Ford: Yes, they went through a difficult time, but the
new government we feel is moving in the right direction and we
will help them. And we hope they will come back as a full partner in
NATO.
(…)
A conversa avança e evolui para os receios de alguns países europeus quanto ao diálogo entre EUA e URSS. O assunto é levantado por Deng. E é nesta parte da conversa que Kissinger interrompe Ford para dizer que os aliados tinham conversações secretas para “coordenar planos” quanto a Espanha, Portugal, Itália e Jugoslávia. O próximo encontro seria na semana seguinte, em Bruxelas, com os ministros dos Negócios Estrangeiros de França, Alemanha, Reino Unido e Itália. Deng dissera o quanto conveniente seria, para a URSS, a “finlandização”. [Definição de José Cutileiro: “durante a Guerra Fria a independência da Finlândia estava limitada por obrigação tácita de defender os interesses de Moscovo”, Expresso, 29 de Dezembro de 2008].
Vice Premier Teng: (…) As I have said to you just
now, the Europeans have worries on two things: that the United
States and the Soviet Union are talking too much about so-called
détente; and they worry they may start deals over their heads.
Second are the domestic problems, and I presume you know there
are the so-called leftist forces. They worry about the strength of the left.
The President: That, of course, was one of the primary reasons for
meeting at Rambouillet. The six countries—four from Western Europe,
Japan, and ourselves—met primarily for the purpose of coordinating
our economic plans because if our economic recoveries are not coordinated
or are not moving ahead at a reasonable rate, there is the possibility
that the leftist forces might increase their strength. But it is our
overall view in the United States that economic recovery is moving
ahead very well, and I believe at Rambouillet there was a consensus—
many of the economic plans were coordinated.
Vice Premier Teng: The problem I have raised just now, perhaps I
can also by way of suggestion say that if the United States has such relations
with the Soviet Union that get the Western European countries
worried, and if the European countries are under the impression that
they are not in an important position, then the role they may play in
détente with the Soviet Union may go inappropriately too far or they
will do too much with their relations with the Soviet Union. And the
United States is in an important position politically and economically—
and these tactics you have mentioned will affect Western Europe and
Japan. And this tactic will surely lead to creating a favorable situation
for the Soviet Union. It is favorable for the Soviet Union to disintegrate
the European countries one-by-one, to so-called “Finlandize” the countries
of Western Europe one-by-one.
The President: Mr. Vice Premier, you should have no apprehension
as to our attitude and feeling toward the Soviet Union. The Secretary
of State is meeting regularly with Ministers of four Western European
countries to coordinate our diplomatic and other matters so that
we are working together and we are not, through détente with the Soviet
Union, going to—
Secretary Kissinger (interrupting): We meet secretly once a month
to coordinate plans for Portugal, Spain, Italy, and Yugoslavia—and
we are even making joint plans, for your information, for common
action regarding Yugoslavia. But we don’t announce the meeting to
spare the feelings of the others. We will meet again next week in
Brussels.
Vice Premier Teng: We are of the view that the top priority is that
the United States should pay more attention to Europe, because this
problem is relatively difficult, because the European countries are many
and their problems are different, and they are not all in agreement.
We have disagreement on the point that the focus of the Soviet
Union’s strategy is in Europe. That doesn’t matter, but the fact is the
Soviet Union is paying more attention to the Europeans. In case war
breaks out in Europe, as Chairman Mao mentioned yesterday, several
countries in Europe would fight—West Germany, Yugoslavia, Romania,
and Sweden. And even when our Chairman talked with some
friends from the West, he told them the unification of the two Germanies
is nothing to be feared. Germany, I believe, is Doctor Kissinger’s
first homeland.
Documentos citados:
Ford Library, National Security Adviser, Kissinger Reports on USSR,
China, and Middle East Discussions, Box 2, China Memcons and Reports, September 28,
1975, Kissinger’s Meeting with PRC Officials. Top Secret; Sensitive; Eyes Only.
Ford Library, National Security Adviser, Kissinger Reports on USSR,
China, and Middle East Discussions, Box 2, China Memcons and Reports, October 19–23,
1975, Kissinger’s Trip. Top Secret; Nodis.
Ford Library, National Security Adviser, Kissinger Reports on USSR, China, and Middle East Discussions, Box 2, China Memcons and Reports, December 1–5, 1975, President Ford’s Visit to Peking. Secret; Nodis.
O presidente norte-americano reuniu-se, em Dezembro de 1975, com Mao Tse Tung, em Pequim. Afinal, como gracejava Kissinger, o eterno chefe da diplomacia norte-americana, a China, arqui-rival da União Siviética, era “o melhor aliado da NATO”… Parte das conversações preparatórias de Kissinger em Pequim, em Outubro, para a cimeira de Dezembro de 1975 aparecem descritas no capítulo 6 do livro, “À volta do Mundo” – a diplomacia “passeava” a sua preocupação com Portugal nos encontros, em 1974 e 1975, com os líderes mundiais. Ao contrário do que escrevi no livro, Kissinger e Ford levaram Portugal para a mesa das conversações com Mao, a 2 de Dezembro. E é sobre isso o meu próximo post.
(reproduzo a parte do capítulo sobre essas conversações, incluindo as notas na numeração original. A foto é de Abril de 1974, durante uma visita de Deng a Nova Iorque - Colecção Bettman, Corbis Images)
Kissinger avisa China que Estados Unidos não permitiriam golpe comunista
Henry Kissinger tem, em 1975, uma agenda carregada e reúne-se por diversas vezes com dirigentes políticos da China, incluindo o próprio Mao Tse Tung, em Pequim. Afinal, a China era arqui-rival da União Soviética e, como brincava Kissinger, o “melhor aliado da NATO”… (21) Em 1974 e 1975, há pelo menos três encontros de Kissinger com líderes chineses em que a revolução portuguesa é abordada. Um, a 27 de Novembro de 1974, juntou Kissinger e o vice-primeiro-ministro Deng Xiaoping em Pequim. Outro foi ao jantar, a 28 de Setembro de 1975, com Qiao Guanhua, ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, nas Torres Waldorf, que estava em Nova Iorque para uma reunião da ONU. Por último, um mês depois, a 21 de Outubro de 1975, Kissinger voltou a encontrar-se com Deng, no Grande Palácio do Povo, em Pequim, pouco antes de um frente-a-frente com o líder chinês, Mao Tse Tung. Com Mao, porém, Portugal é ignorado. O chefe da diplomacia norte-americana reúne-se a 28 de Setembro de 1974 com Deng Xiaoping. Além da preparação da visita de Gerald Ford, dos perigos de uma guerra nuclear da Jugoslávia e das negociações com a União Soviética para o desarmamento, os dois políticos analisam o eurocomunismo. O secretário de Estado norte-americano está preocupado com o facto de os comunistas italianos e franceses seguirem uma estratégia de se apresentarem como “moderados e muitos responsáveis”. É Kissinger que explica a Deng a estratégia de Washington: “Quando se analisa a nossa política externa tem que compreender que fazemos certas coisas e dizemos certas coisas para paralisar não só a nossa esquerda mas também a esquerda europeia. Por isso, nós opomo-nos, e resistiremos, à entrada da esquerda em governos europeus. Faremos isso em Portugal porque não queremos que seja um modelo para outros países. Faremos o mesmo em Itália. E, claro, em França. Kissinger dramatiza a determinação da administração norte-americana a “resistir” a uma vitória comunista em eleições na Itália e na França pelo “sério impacto” que teriam na NATO e na conjuntura política da República Federal da Alemanha. Deng Xiaoping responde a Kissinger com uma visão menos dramática quanto ao fenómeno do eurocomunismo e prevê que “eles [os eurocomunistas] são professores pela negativa”. Do outro lado do mundo, os chineses pouco poderia fazer para ajudar os Estados Unidos a resistir às ameaça vermelha no sul da Europa, como Deng afirmou a Kissinger, para tentar impedir que os aliados dos soviéticos dominassem a situação em Portugal. Mas em ambos os encontros, o secretário de Estado norte-americano parece resoluto em explicar ao governo de Pequim a estratégia de Washington contra o inimigo comum – a União Soviética. É isso que faz com o ministro dos Negócios Estrangeiros no jantar nas Torres Waldorf, em Nova Iorque.
Qiao: Como vê a situação em Portugal? Kissinger: (…) Como uma superpotência [a URSS] tem estado activa, nós não podíamos ficar atrás. Basicamente pensamos que se trata de uma questão interna portuguesa. E, devido à nossa situação interna [o escândalo Watergate em 1974, no ano do golpe do 25 de Abril, as alegações de apoio ao golpe de direita de Pinochet, no Chile, e a demissão de Richard Nixon], não pudemos fazer muito. Estamos a trabalhar com os nossos aliados europeus para impedir que os grupos apoiados por Moscovo venham a dominar [o país]. Registaram-se alguns progressos tácticos – um grande avanço táctico [a demissão de Vasco Gonçalves e sua substituição por Pinheiro de Azevedo à frente do Governo] – na situação. O problema agora é saber se os nossos aliados europeus vão celebrar a vitória ou se percebem que esses grupos pró-Moscovo têm de ver sistematicamente reduzida a sua influência. Qiao: Essa será uma luta a longo prazo. Independentemente do que diga aos seus aliados europeus, nós vamos dizer aos nossos amigos europeus para não sobrevalorizarem a força dos partidos comunistas. Nós conhecemos melhor os partidos comunistas do que vocês. Uma vez, dissemos aos nossos amigos europeus para darem poder aos pretensos partidos comunistas. Deixarem-nos tomar o poder e revelarem-se. Eles responderam-nos que jamais aceitariam isso. Kissinger: Nem vocês aceitariam. Quer dizer, deixá-los tomar o poder em Portugal ou em qualquer outra parte? Qiao: Portugal... No caso de Portugal, o Partido Comunista não controla as Forças Armadas. Kissinger: Nós não sobrestimamos a força do Partido Comunista em Portugal. Temos de deixar a situação amadurecer até um certo ponto. Primeiro, não tivemos uma situação interna favorável; em segundo lugar, tivemos de levar a Europa Ocidental a entender a situação; em terceiro lugar, tínhamos que ter a certeza de que [Mário] Soares não era um Kerensky [líder social-democrata russo derrotado pelos comunistas na revolução bolchevique de 1917]. Em todo o caso, a situação em Portugal está numa fase em que pode evoluir nos dois sentidos [democracia pluralista ou domínio comunista]. Qiao: Bom, penso que se os nossos amigos europeus, apoiados pelos nossos amigos americanos, seguirem uma estratégia com habilidade, os soviéticos não vão conseguir dominar [Portugal]. (22)
Passa um mês e Henry Kissinger está agora em Pequim. A 21 de Outubro de 1975 encontra-se com Deng Xiaoping. É uma quarta-feira e o encontro dá-se numa residência dos convidados estrangeiros, na capital chinesa. Deng ouviu a exposição de Kissinger sobre a estratégia de Washington quanto à Europa do Sul, inclusivamente a promessa norte-americana de resistir às tentativas de tomada do poder pelos grupos apoiados pela URSS. Ainda que isso levasse a uma guerra civil em Portugal. E, nesse cenário, a intervenção americana ganhava peso. Deng Xiaoping avisa Kissinger que Pequim pouco pode fazer para ajudar além de adiar o estabelecimento das relações diplomáticas com Lisboa. E alerta que apesar de a situação portuguesa estar a melhorar – após a demissão do “vermelho” primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, e a sua substituição pelo almirante Pinheiro de Azevedo, um “moderado” –, poderem ainda registar-se “muitas reviravoltas”.
Deng: (…) Se estiver interessado, podemos falar do flanco sul da Europa. Kissinger: (…) No sul da Europa, temos Portugal, Espanha, Itália, Grécia e Turquia. Cada um com uma situação diferente. No caso de Portugal, encontramos uma situação em que, resultado de 40 anos de um regime autoritário, as forças democráticos não estão organizadas e as estruturas políticas democráticas são muito fracas. Os militares adoptaram, em parte, a filosofia dos movimentos de libertação africanos, que combateram durante 25 anos. E o Partido Comunista de [Álvaro] Cunhal, que passou parte do seu exílio na Checoslováquia – curiosa escolha para exílio – está, e muito, sob a influência da União Soviética. [Deng inclina-se e cospe para uma escarradeira ao lado da cadeira]. Perante o vazio, o Partido Comunista conseguiu uma influência desproporcionada e, por algum tempo, parecia estar à beira de dominar a situação. Acho que esta tendência foi travada. E estamos a trabalhar com os nossos aliados da Europa Ocidental para reforçar e a apoiar as forças que se opõem a Cunhal. Infelizmente, algumas dessas forças são melhores na retórica do que na organização, mas achamos que a situação melhorou e vai continuar a melhorar. Deng: Ouvimos nas notícias que alguns oficiais que estavam sob o comando de… Qiao:… [Vasco] Gonçalves. Deng: … estão a preparar um golpe. Kissinger: Sim. Tivemos a informação esta manhã que numa unidade [Tancos] eles se recusaram a entregar armas. Deng: Segundo as notícias, esses oficiais estarão a preparar alguma coisa para 11 de Novembro, que é a data da independência de Angola. Informações assim tão precisas não podem ser fidedignas, seguras. Kissinger: Não, nós também não acreditamos. Temos um relatório segundo o qual uma unidade militar se recusa a entregar as armas. E não há dúvidas de que [Vasco] Gonçalves está do lado da União Soviética. Mas esperamos… Nós estamos em contacto com um número razoável de líderes militares que estão contra o golpe e que vão opor-se a ele. Deng: Mas nós achamos que Portugal ainda pode sofrer muitas reviravoltas. Kissinger: Concordo. Deng: E muitas provas de força. Não estamos em condições de fazer o quer que seja nessa parte do Mundo, Mas há uma coisa que podemos fazer. Portugal tentou já muitas vezes estabelecer relações diplomáticas connosco, e nós recusámos. O nosso ponto de partida é muito simples: nós não queremos fazer nada que ajude os soviéticos a ganhar controlo da situação. Kissinger: Creio que essa é uma opção sensata. Nós apoiamos [Melo] Antunes e [Mário] Soares. [Deng inclina-se outra vez e cospe de novo.] Antunes esteve em Washington há poucas semanas e estamos a cooperar com ele. Mas concordo que vai haver ainda muitas provas de força. E a dificuldade com os nossos aliados ocidentais é que eles baixam os braços depois de alguns sucessos passageiros. Quando voltarmos a encontrar-nos em Dezembro, já a situação estará muito mais clara. Mas nós estamos determinados a resistir a qualquer tentativa de tomada de poder pelos soviéticos, ainda que isso leve a um conflito armado. Não vamos facilitar. Não será fácil para eles, e quero sublinhar isso, se eles estiverem a planear um golpe, não será nada fácil para eles. Agora em Espanha, a situação é mais complicada. Temos, por um lado, um regime nos seus derradeiros dias, porque Franco está muito velho. Por outro lado, não queremos que a situação de Portugal se repita em Espanha. (23)
(21) BURR, William, “The Kissinger Transcripts – The Top-Secret Talks with Beijing and Moscow”, The New Press, New York, 1998. (22) Memorandum, September 28, 1975, Kissinger, Qiao, box 16, National Security Adviser, Memoranda of Conversation, Gerald Ford Library. (23) Memorandum, October 21, 1975, Kissinger, Deng Xiaoping, box 16, National Security Adviser, Memoranda of Conversation, Gerald Ford Library
Como em muitas crises da Guerra Fria, a Base das Lajes, nos Açores, participaram activamente nas missões das forças armadas norte-americanas. Foi assim em 1949, com o bloqueio de Berlim (e a ponte aérea), ou em 1961 com a crise de Berlim. Pelos Açores, passaram centenas, milhares de aviões. Mais de 40 voos por dia na Base das Lajes e no aeroporto de Santa Maria. Uma memória para o dia em que passam os 20 anos da queda do Muro.
O Muro caiu há 20 anos. Lembro-me que era estagiário na Lusa, na secção Internacional. Dias antes, foi com espanto que fiz uma notícia, a partir dos despachos da Reuters e AP, sobre a crise das embaixadas: milhares de pessoas que queriam passar, na Checoslováquia, para o Ocidente. O espanto é que conseguiam. No dia em que caiu o muro pediram-se um Urgente (dois parágrafos, depois do "flash", uma linha de título) em que se anunciava que as pessoas começavam a passar da RDA para a RFA. Aos milhares. Olhei uns segundos, incrédulo, para o telexes, em papel. Horas depois vinha mais um urgente da Reuters: o muro começava a ser destruído. Começava a cair um muro e um "mundo".
Publiquei este artigo no meu jornal, o PÚBLICO. Na quinta-feira, 03/09/2009
1975 Ford apoiava independência dos Açores se comunistas ganhassem poder em Lisboa
Por Nuno Simas
É o primeiro documento oficial norte-americano a confirmar que a administração Ford estaria disposta a dar "luz verde" aos independentistas. Se Vasco Gonçalves, o PCP e a esquerda militar tivessem conseguido transformar Portugal numa Cuba no Sul da Europa
Foram apenas 24 minutos de reunião na Sala Oval, em Washington. A 9 de Setembro de 1975, já o primeiro-ministro Vasco Gonçalves, que Kissinger gracejava não ser do PCP apenas para poupar no dinheiro das quotas, tinha caído em desgraça, demitido dez dias antes. E o "grupo dos nove", a tendência moderada do Movimento das Forças Armadas (MFA), começava a ganhar poder num país a viver a vertigem de uma revolução. Passara apenas um ano após a "revolução dos cravos", a 25 de Abril de 1974, com a queda de Marcelo Caetano e de 48 anos de ditadura. Na tarde dessa terça-feira, entre as 17h10 e as 17h34, o Presidente Gerald Ford recebeu a congressista republicana Margaret Heckler, eleita pelo Massachusetts e representantes de associações portuguesas nos Estados Unidos, em que se incluía uma grande comunidade de açorianos.Queriam que Ford se pronunciasse de forma directa contra a "tirania comunista" em Portugal. O Presidente norte-americano resistiu a fazer tão radical declaração. Afinal, dizia, o Governo de Pinheiro de Azevedo, o almirante do grupo dos "moderados", era "melhor", democrático, e era preciso dar tempo ao tempo. E é na acta dessa reunião (depositada na Ford Library - http://www.fordlibrarymuseum.gov/) que Ford faz uma declaração surpreendente. A testemunhá-la estiveram o adjunto de Kissinger como conselheiro de segurança nacional, o general Brent Scowcroft, e Denis Clift, do Conselho de Segurança Nacional. É o primeiro documento oficial da administração dos Estados Unidos - revelado ao abrigo da política de desclassificação dos arquivos americanos - em que é tão abertamente assumido o apoio norte-americana à independência das ilhas portuguesas onde os Estados Unidos têm uma base na ilha Terceira desde a II Guerra Mundial. Uma simpatia que, afinal, teve um prazo de validade: enquanto o "gonçalvismo" estivesse no poder em Lisboa e fosse uma ameaça comunista num mundo dividido pela Guerra Fria, com os EUA de um lado e a URSS do outro. Imagine-se o cenário extremo de o "inimigo" soviético ter acesso, via Portugal, à Base das Lajes, no oceano Atlântico, a meio caminho entre a Europa e os Estados Unidos e o desequilíbrio que isso poderia causar entre as duas superpotências? Era isso que estava na mente de muitos estrategos do Pentágono e do Departamento de Estado. Os avisos americanos contra o domínio comunista no país foram sendo transmitidos ao mais alto nível, tanto na visita do Presidente Costa Gomes a Washington, ainda em 1974, como em Maio de 1975, num encontro, em Bruxelas, com Vasco Gonçalves, à margem de uma cimeira da NATO.À congressista Margaret Heckler e aos representantes dos portugueses nos Estados Unidos disse Gerald Ford: "Estamos também preocupados com os Açores. As Lajes têm grande importância. Temos que ter cuidado neste momento, em que os portugueses estão a evoluir de um Governo comunista, sob a liderança de [Vasco] Gonçalves, para um Governo democrático... Não podemos ter qualquer acção que possa prejudicar o novo Governo. Se os Açores se tornassem agora independentes, isso teria um reflexo negativo no novo executivo."Até aqui, nada de novo - era a política de neutralidade quanto à questão açoriana, que teve no embaixador norte-americano em Lisboa, Frank Carlucci, um dos grandes defensores. A nuance viria umas linhas mais abaixo, na acta da reunião, e essa, sim, é significativa: "Teríamos ficado contentes se [a independência] tivesse acontecido durante o Governo comunista, mas agora, com um Governo melhor, é necessário cuidado." Nem Henry Kissinger, o todo-poderoso secretário de Estado, que não esteve no encontro, nem qualquer outro responsável da administração de Ford tinham sido tão directos no apoio à independência das ilhas açorianas. Pelo menos on the record e em documentos norte-americanos que foram sendo desclassificados ao longos dos últimos dez, quinze ou vinte anos... A CIA, que deu alertas para um possível golpe separatista em 1975, tem todos os seus arquivos fechados. E raros foram os "papéis" que a "secreta" americana abriu aos olhares de jornalistas e historiadores.A ameaça de expulsãoDurante meses, no Verão Quente de 1975, Kissinger viveu obcecado com Portugal e com o risco de ter um Governo comunista num país da NATO - uma espécie de Cuba no Sul da Europa. Os Estados Unidos tinham interesses estratégicos na Base das Lajes, na Terceira, um verdadeiro porta-aviões no Atlântico desde a década de 40. Foi por isso que o Presidente Gerald Ford tentou perceber qual seria a reacção dos aliados europeus à independência dos Açores e cedo compreendeu, de uma conversa com Helmut Schmidt, o chanceler alemão, nesse ano de 1975, que Washington ia ficar isolado. Talvez lhe restasse a França. E a CIA, activa nas ilhas e com muitas "fontes" entre os separatistas açorianos, alertou, durante o Verão Quente, para uma possível revolta ou golpe nos Açores. Com o apoio de grupos de direita, exilados em Espanha, por exemplo. E o cenário de expulsão de Portugal da NATO foi bem mais do que isso. Washington desconfiava tanto dos generais portugueses que não entregava segredos da Aliança a Portugal, com medo de irem parar às mãos do inimigo soviético, em Moscovo. Mário Soares, o líder socialista e um aliado à esquerda dos americanos contra a ameaça "vermelha", percebeu os riscos e avisou que admitia sair da NATO se os Estados Unidos apoiassem os independentistas açorianos. Oficialmente, Washington garantiu, de 75 até hoje, ter mantido a neutralidade quanto à questão açoriana, mas a tentação da "acção" existiu. Os contactos informais com personalidades próximas da Frente de Libertação dos Açores (FLA), através de Denis Clift, do Conselho de Segurança Nacional, foram sendo cultivados, embora sem promessas de apoio à causa da independência das ilhas de um país a radicalizar-se à esquerda. Era a estratégia de manter os independentistas em "lume brando", não viessem a ser necessários para manter a Base das Lajes.Açores e GuantánamoAté agora, a tentação do apoio de Washington à causa separatista estava subentendida nos muitos milhares de papéis desclassificados dos arquivos norte-americanos. Afinal, esse desejo de independência das ilhas está em letra de forma e tem um rosto - o próprio Gerald Ford, que confessa que teria ficado feliz se os Açores se tornassem independentes.Em Setembro de 1975, a congressista Heckler, Joseph Fernandes e Júlio d'Oliveira, da Federação Luso-Americana nos Estados Unidos, queriam posições mais duras contra "os comunistas" portugueses. Ford advertiu que a independência dos Açores seria negativa nessa fase. É certo que o calendário ainda estava na página de Setembro e que o Verão Quente ainda aqueceu o país até ao 25 de Novembro - o princípio do fim da revolução e o começo da "normalização" democrática - mas Ford via agora riscos na acção directa dos independentistas. A tentação independentista açoriana não terá passado de uma ilusão para os açorianos e de uma estratégia de último recurso para a administração Ford. De um lado e de outro do Atlântico, a Base das Lajes foi uma peça central neste enredo. Mesmo que Portugal se tivesse tornado um regime comunista, incluindo os Açores, estariam os Estados Unidos condenados a abandonar a Base das Lajes? O general Pezarat Correia, um militar de Abril, escreveu que não no livro Questionar Abril. Guantánamo, na ilha de Cuba de Fidel, é a prova de que os EUA "estão onde querem e não onde os deixam".
É o primeiro passo para o acordo. O Governo comunicou ontem ao secretário da Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, a posição de princípio de Portugal favorável à utilização das Lajes, nos Açores, como base de treino dos F-22 e, no futuro, os F-35, disse ao PÚBLICO fonte governamental.
A base das Lajes, na ilha Terceira, Açores, é utilizada pelos Estados Unidos desde o final da II Guerra Mundial e conhecida, até entre os militares norte-americanos, como "porta-aviões" do Atlântico, e foi palco da famosa cimeira Bush-Aznar-Blair, em que Durão Barroso foi anfitrião, antes da guerra do Iraque, em 2003.
De acordo com informações recolhidas pelo PÚBLICO nas últimas semanas junto de fontes militares, um dos obstáculos a este entendimento seria se o treino de aviões militares de última geração não pudesse conviver pacificamente com o tráfego civil - intenso na área do Oceano Atlântico desejada pelos norte-americanos, a norte dos Açores.
A NAV (Navegação Aérea de Portugal) fez um estudo e concluiu serem compatíveis as duas actividades. Isso mesmo foi confirmado pelo ministro português da Defesa, Nuno Severiano Teixeira, depois do encontro com Gates, em Bruxelas, à margem de uma reunião ministerial da NATO.
Há contrapartidas
Para o "OK" definitivo faltam ainda outras avaliações, como custos económicos e o impacto ambiental, face à proximidade da ilha do Corvo da zona de treino, mas ontem o ministro antecipou que a resposta ao pedido da utilização das Lajes é, "em princípio, positiva".
Há ainda a questão das contrapartidas, que estará ainda em aberto. "Naturalmente que as contrapartidas terão de existir", afirmou Severiano Teixeira. Segue-se, agora, uma fase mais diplomática, dado que o acordo formal entre os dois países implicará o envolvimento do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Os "caças de quinta geração" como o F-22 atingem velocidades supersónicas e têm sistemas de armamento muito sofisticados, pelo que o treino exige espaços muito grandes e pouco habitados. É o caso da área "cobiçada" pela força aérea dos EUA (USAF) no Atlântico, a norte dos Açores. No total, os norte-americanos querem uma área de mais de 274.300 quilómetros quadrados, a norte da ilha do Corvo, o equivalente a três vezes a área de Portugal continental. A FAP terá feito uma contraproposta menor (64.190 quilómetros quadrados).
Além da logística já existente nas Lajes que serve de base de apoio para o transporte de militares e meios para vários cenários de conflito (Iraque ou Afeganistão), os militares norte-americanos consideram uma vantagem o facto de os Açores ficarem a uma ou duas horas de voo dos EUA. Outra vantagem é que está a ser preparada com novos radares e equipamento rádio. Ontem, os Governos de Lisboa e de Washington acordaram a repavimentação da pista da base açoriana.
Contestação à esquerda
Ainda os contactos eram apenas exploratórios e já o Bloco de Esquerda (BE) contestava mais esta possível cedência aos Estados Unidos. Os bloquistas açorianos chegaram a defender, no início deste ano, um referendo regional sobre o assunto nas ilhas.
Um artigo no PÚBLICO sobre segredo de Estado. Dia 30 de Maio. Algo - segredos - a que me habituei quando escrevi o livro.
O estado dos segredos 30.05.2009
Quantos documentos têm o carimbo de segredo de Estado? Ninguém sabe. Não que seja segredo. Apenas ninguém fez as contas. Uma alteração à lei aprovada a 22 de Maio torna a Assembleia "guardiã do segredo de Estado" e cria um registo nacional de documentos classificados. Ainda assim, acessível a um muito restrito número de pessoas. Os segredos também têm histórias. Umas conseguem contar-se, outras ainda são... segredo. Por Nuno Simas
Em 1974, depois da Revolução dos Cravos, Portugal e a União Soviética reataram relações diplomáticas, rompidas por causa de outra Revolução, a de Outubro, em 1917. A Aeroflot passou a fazer voos regulares para Lisboa, via Havana. A revista Vida Soviética, na sua versão em português, passou a anunciar os voos da "maior companhia aérea do mundial", com a "tradicional hospitalidade soviética". Soaram campainhas de alarme nos gabinetes das chefias militares. E se os aviões comerciais da União Soviética tivessem câmaras e fotografassem território nacional? Era um risco evidente para os chefes militares, que fizeram chegar o alerta ao Governo. Afinal, Portugal era, e é, um país da Aliança Atlântica e havia o risco de fotografias de bases aéreas, algumas delas a servir a NATO, chegarem ao KGB. Ou ao Pacto de Varsóvia, "rival" da Aliança Atlântica num mundo dividido em dois e em Guerra Fria. Eram segredos que, numa época em que não existia o Google Earth, as autoridades portuguesas queriam fechados a sete chaves. Como fechados a sete chaves estão, e continuarão a estar, os planos de defesa do território a um eventual ataque terrestre... da Espanha, hoje um país aliado na União Europeia. Nem sempre o foi, mas, mesmo assim, os planos continuam carimbados e acessíveis a muito poucos olhos. Estas são duas histórias de segredos contadas ao P2 por ex-responsáveis governamentais e antigos chefes militares. Quando se lhes pede uma confirmação oficial, on the record, nem pensar. Os anos passaram, mas quem conta estas histórias prefere manter a sua identidade... em segredo.Segredos e silênciosO segredo cala muitas bocas. E assim continuará a ser. A Lei do Segredo de Estado foi alterada recentemente no Parlamento, mas há uma coisa que não muda: o dever de sigilo de quem "viu" o segredo, mesmo depois de ter deixado as funções. E de que falamos quando falamos de Segredo de Estado? O artigo 2.º da Lei 6, de 1994, define o que é. "São abrangidos pelo segredo de Estado os documentos e informações cujo conhecimento por pessoas não autorizadas é susceptível de pôr em risco ou de causar dano à independência nacional, à unidade e integridade do Estado e à sua segurança interna e externa." O mais óbvio é pensar logo nos planos militares, por exemplo. E é verdade. Mas há também informação classificada quanto a questões económicas e de cariz comercial. No topo da hierarquia da classificação estão segredos transmitidos, "a título confidencial", por Estados estrangeiros ou organizações internacionais - e esses serão os que Portugal terá em maior número, de acordo com o testemunho de ex-governantes ouvidos pelo P2. Não é por acaso que grande parte da documentação relativa aos voos da CIA que passaram por Portugal continua mais que reservada e os activistas dos direitos humanos ainda têm esperança que o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, desclassifique alguns dossiers do tempo de W. Bush. Classificada pode ainda ser informação de estratégia em negociações com outros Estados ou organizações - aqui, por exemplo, entram dossiers de negociações de Portugal na ONU ou União Europeia ou a participação em operações militares no estrangeiro nos últimos anos. Informação que possa "facilitar a prática de crimes contra a segurança do Estado" também pode ser "carimbada". E não é por acaso que, durante anos, houve informações protegidas sobre a localização de barragens e centrais eléctricas do país. E ainda hoje os planos de contingência (ou de emergência) para a Ponte Vasco da Gama estão sob segredo, assim como os procedimentos em torno da segurança de altas individualidades, como o Presidente ou o primeiro-ministro, por exemplo, dois titulares de órgãos políticos com o poder de pôr o carimbo de "segredo de Estado" a documentos. Os outros são o presidente da Assembleia da República, ministros, e, a título provisório, chefes militares e dos serviços de informações. Um segredo, porém, não é eterno. A regra, no acto da classificação, devidamente fundamentado, é de quatro anos, renováveis. Mas há outro tipo de classificações e outros prazos. No Arquivo Histórico-Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros, no Palácio das Necessidades, em Lisboa, estão milhares de páginas produzidas pelos diplomatas nas embaixadas portuguesas espalhadas pelo mundo ao longo de séculos. E esses são papéis que não vêem a luz do sol antes de 30 anos passados sobre a data em que foram escritos. Mesmo assim, há documentação que continuará "fechada" - seja porque é informação de um aliado ainda classificada na origem, matérias de defesa e da NATO ou "dados que possam pôr em causa a reputação, honra, bom nome ou imagem de pessoas singulares e colectivas a que digam respeito" - por decisão de uma comissão de selecção e desclassificação, presidida pelo embaixador Duarte de Jesus. Exemplos dos segredos mais secretos não faltam. As pastas relativas à guerra da Coreia estavam, até há pouco tempo, inacessíveis a investigadores, apesar de já ter passado mais de meio século. Pode ser o peso da eterna suspeita de colaboração de Portugal com a China, violando um bloqueio, mas ninguém sabe ao certo. Outro caso: a 30 de Outubro de 1961, a embaixada norte-americana em Lisboa enviou ao Governo português um ofício com o mapa que "mostra os efeitos possíveis de deflagração de uma bomba soviética de 50 megatoneladas" na Europa, 50 vezes mais potente do que a que destruiu Hiroxima. Não se diz onde, mas Portugal seria atingido pelos efeitos. A carta encontra-se no arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o mapa é que não. Ainda hoje é secreto.E foram os segredos militares da NATO que quase custaram a Portugal uma eventual expulsão da Aliança Atlântica no Verão Quente de 1975. O Governo de Vasco Gonçalves tinha vários ministros comunistas. O secretário de Estado Henry Kissinger estava obcecado pelo risco de Portugal se tornar numa Cuba na Europa. Resultado: os militares portugueses passaram a não ter acesso aos planos atómicos da Aliança, por receio que fossem parar aos soviéticos. Valeu a intervenção do então Presidente, Costa Gomes, durante anos o único militar português a ter visto os planos de defesa da NATO a um ataque nuclear soviético. Segredos mais secretosEstes são segredos do passado. Os do presente vão passar a ser listados na Assembleia da República, que será, nas palavras de Mota Amaral, deputado do PSD e um dos autores da nova lei, "a guardiã do segredo de Estado". Haverá uma comissão de fiscalização do segredo de Estado, "um passo na transparência", nas palavras de Vitalino Canas, o deputado do PS que negociou o diploma com o PSD. E tem poderes de facto. Até pode desclassificar documentos. O presidente do Parlamento, segunda figura do Estado, tem acesso a todos os segredos; os deputados só podem aceder em certas circunstâncias, se tal se justificar. Há segredos que "são mais segredo do que outros", como admitiu Mota Amaral. Único senão, apontado pelo PCP e Bloco de Esquerda: a comissão ter apenas representados deputados dos dois principais partidos. "Uma partidarização" criticada por Fernando Rosas, deputado do BE e historiador, e por António Filipe, do PCP. O segredo foi arma de regimes ditatoriais desde o Estado absolutista do século XVIII aos regimes fascistas e soviético no século XX. Hoje, nas sociedades democráticas e na era da Internet, a transparência é uma palavra de ordem, mas nenhum Estado dispensa os seus segredos. Nem pode dispensar, segundo o embaixador Duarte de Jesus, habituado que está, como disse ao P2, a "tornar públicos maiores ou menores 'segredos'". Transparência, sim, mas segredos são segredos. Duarte de Jesus deixa um alerta: "Hoje o terrorismo internacional e as questões de segurança não permitem 'laxismos' ou maiores aberturas, que penso que a Internet implica."