Sunday, July 06, 2008

Vasco Gonçalves e a estratégia do PCP



Na cronologia do PCP, há um dia e um acontecimento especialmente relevantes no Verão Quente: o Comité Central de 10 de Agosto em Alhandra. Aí Álvaro Cunhal, lança as bases de uma estratégia que incluía pontes de diálogo, à sua direita.
Socorro-me de um artigo de Armando Rafael, no DN, publicado a 10 de Outubro de 2005 – “Álvaro Cunhal salvou PCP afastando Vasco Gonçalves”. “A famosa reunião do Comité Central que o PCP efectuou em Alhandra, no dia 10 de Agosto” foi o “momento em que o secretário-geral dos comunistas impôs alguma contenção à euforia que se instalara depois do 11 de Março, antecipando, num discurso que permaneceu secreto [durante algum tempo], as linhas do acordo do 25 de Novembro”.
Depois de reler o artigo do Armando, uma eventual estratégia de aproximação aos aliados britânico e alemão de Mário Soares faz todo o sentido. O que – na estratégia das “simultâneas de xadrez”, expressão de um ex-dirigente comunista – não é obrigatoriamente contraditório com a tese de Josep Sanchez Cervelló ou da investigação do José Manuel Barroso, na década de 90 no DN, de que a ordem para a saída dos quartéis no 25 de Novembro partiu de militantes do PCP. E que acabou por resultar, além de vários dias de tensão e confrontação, num “reordenamento” das forças revolucionárias e a sobrevivência do PCP.


Álvaro Cunhal salvou PCP afastando Vasco Gonçalves


A história do PREC é razoavelmente omissa sobre uma famosa reunião do Comité Central que o PCP efectuou em Alhandra, no dia 10 de Agosto. Um momento em que o secretário-geral dos comunistas impôs alguma contenção à euforia que se instalara depois do 11 de Março, antecipando, num discurso que permaneceu secreto, as linhas do acordo do 25 de Novembro.

Quarenta e oito horas depois de o V Governo Provisório ter tomado posse, o PCP reuniu, discretamente, o seu Comité Central (CC) em Alhandra para ouvir Álvaro Cunhal alertar o partido para a forte possibilidade de Vasco Gonçalves poder ter os dias contados como primeiro-ministro.
Foi um discurso proferido a 10 de Agosto de 1975, recheado de improvisos que só viriam a ser integralmente conhecidos anos depois, e que caiu como um balde de água fria para quem não esperava ouvir o secretário-geral do PCP tirar o tapete a uma figura com a qual os comunistas tanto se identificavam.
Ao ponto de lhe terem prometido resistir a todas as ofensivas, garantindo total solidariedade - Força, força, companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço.
Um “slogan” mobilizador para quem se identificava com a governação e o estilo do Companheiro Vasco, mas que não resistia à análise fria dos dirigentes comunistas que se moviam nos bastidores do Processo Revolucionário em Curso (PREC). Como Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Carlos Costa, Octávio Pato ou Carlos Brito.
Todos eles já tinham percebido que os comunistas e, em especial, a esquerda militar que lhes era afecta (gonçalvistas) não tinham, naquele momento, força suficiente para impor os seus pontos de vista, razão pela qual era necessário reformular a estratégia que estava a ser desenvolvida.
Mesmo que isso os obrigasse a fazer concessões ou a ter de retomar o diálogo perdido com o Grupo dos Nove (que, por sinal, divulgara o seu famoso documento nas vésperas de o PCP reunir o Comité Central). Ou com o PS (que acabara de fazer uma grande demonstração pública da sua força com o comício da Fonte Luminosa). Ou até com Otelo Saraiva de Carvalho, apesar do revés que a viagem do comandante do Copcon a Cuba evidenciara, contribuindo para o afastar ainda mais do PCP.
Improvisos. "Uma melhor clarificação da situação interna no MFA teria sido desejável antes da formação do novo governo como garantia para a sua eficiência", explicou Cunhal, num dos tais acrescentos que não constam do discurso oficial distribuído na altura.
"Aqui informo", prosseguiu, "que, depois da formação do Directório [Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho], da discussão sobre a eventual participação de Otelo como vice-primeiro-ministro, de termos dado o nosso apoio à formação de um Governo sem participação partidária [o V Governo Provisório] (...), ao sabermos que Otelo se recusava a ser vice-primeiro-ministro, fizemos diligências imediatas, algumas junto do primeiro-ministro, para dizer que púnhamos muitas reservas à formação do novo governo e que (...) entendíamos que não devia ser formado, nem anunciado esse governo sem antes estar esclarecida a situação militar."
Uma preocupação que o próprio Álvaro Cunhal se encarregaria de explicitar mais à frente. "Tudo indicava que se formava o Governo num dia com o nosso apoio e a nossa participação para cair noutro dia. E a cair no outro porque não tinha qualquer apoio militar, não tinha qualquer possibilidade de fazer executar qualquer das suas decisões (..) Este governo formava-se e, contestado, caía em dois tempos. Por isso diligenciámos, e aqui está uma das tais iniciativas que muitas vezes a Comissão Política tem que tomar em situações novas e que não estão conforme com a perspectiva do Comité Central."
Para que não subsistissem dúvidas entre os elementos do Comité Central que o ouviam, e que eventualmente dele discordavam, o secretário-geral do PCP foi ainda mais longe na sua tese "Tomámos a responsabilidade de comunicar que não apoiávamos a constituição desse governo com Vasco Gonçalves, se na verdade não houvesse um apoio militar. Daí já termos afirmado que, a nosso ver, a solução encontrada não exclui possibilidades de recomposições, reajustamentos e reconsiderações que possam aumentar a eficiência do Governo e alargar a sua base de apoio social e política. Da parte da esquerda militar, sem exclusão de ninguém, vemos muito sectarismo. Não dá qualquer abertura e isso pode precipitar a sua queda.
Por isso esta solução governamental não pode ser rígida. Ao contrário. Devem procurar-se ajustamentos, devem procurar-se modificações que respondam à actual situação. A médio prazo as soluções podem ser outras."
Advertências. Como explicar, então, que Vasco Gonçalves tenha, apesar da reticências do PCP, tomado posse como primeiro-ministro de um governo que, à partida, todos sabiam estar já condenado?
Aparentemente, isso sucedeu porque era preciso ganhar tempo. Como o presidente da República, Costa Gomes, deixara já claro, no discurso da cerimónia de posse do V Governo Provisório, efectuada dois dias antes da reunião de Alhandra "A solução que hoje vos apresento é uma medida transitória, um governo de passagem que se espera seja a pausa política para, em clima de ordem, disciplina e trabalho, se poder constituir algo de mais definitivo."
Um sinal e uma mensagem devidamente articulada por Costa Gomes com os sectores moderados do MFA, com Otelo Saraiva de Carvalho, com o PS, mas também com o PCP e Álvaro Cunhal, que, assim, se preparavam para deixar cair Vasco Gonçalves como primeiro-ministro, esperando, no entanto, que o sacrifício do Companheiro Vasco como primeiro-ministro pudesse vir a ser ainda devidamente compensado pela sua nomeação para chefe do Estado-Maior-Ge- neral das Forças Armadas (CEMGFA). Onde iria substituir o próprio Costa Gomes, na sequência da mesma lógica que, alguns dias antes, levara já à constituição de um Directório que era suposto assumir-se como uma espécie de vanguarda da revolução.
PCP ausente. É isso que explica também as razões por que o PCP não permitiu, como Cunhal frisou em Alhandra, que o dirigente comunista Veiga de Oliveira tivesse continuado no Governo como ministro, situação que se aplicava igualmente ao líder comunista que integrou todos os executivos até ao IV Governo Provisório, embora isso não tenha sido mencionado. Um silêncio que lhe permitiu contornar ainda a presença de outros militantes do PCP no último executivo de Vasco Gonçalves, como Carlos Carvalhas ou Armando Teixeira da Silva, que constavam do elenco dos secretários de Estado.
Arrastamento. "Tomámos essa decisão", sublinhou, "para não nos comprometermos com uma solução muitíssimo incerta. E também para não nos arriscarmos a cair como força política com a queda do próprio governo formado por Vasco Gonçalves sem um apoio militar. (...) Pensámos, já nesse momento, guardar um campo de manobra política para o nosso partido, que não nos atrelasse necessariamente a uma previsível queda do Governo de Vasco Gonçalves (...) e nos desse margem para reconsiderar a composição do Governo e a sua própria chefia."
Uma referência, subtil, ao facto de o PCP estar também a posicionar-se já para influenciar o processo de designação de um novo primeiro-ministro e de um novo governo (do qual Veiga de Oliveira voltaria a fazer parte), que pudesse proteger o partido do desgaste provocado por Vasco Gonçalves, dando-lhe o tempo suficiente para que ele se reorganizasse. Tendo sempre em linha de conta a necessidade de reposicionar o partido perante as novas correlações de forças que começavam a impor-se.
"A divisão do MFA e a ofensiva da reacção são (...) muito perigosas e devemos por isso considerar as alternativas. Um dos males é que a esquerda militar sobrestima a sua força", alertou Cunhal, que não hesitaria igualmente em renovar as suas críticas ao sectarismo evidenciado pelos militantes comunistas que não dialogavam com elementos de outros partidos revolucionários e até com os militantes do PS.
Chile. Tudo porque o PCP temia que os exageros revolucionários da actuação dos governos e da retórica de Vasco Gonçalves pudessem acabar por pôr em causa o peso da esquerda militar no seio do MFA, arrastando o país para uma nova ditadura ou um regime autoritário que excluísse os comunistas, repetindo em Portugal aquilo que se verificara no Chile, onde o golpe militar liderado por Pinochet levara à perseguição e à eliminação sistemática dos comunistas e outros militantes de esquerda.
"Não nos devemos deixar encostar ao muro", advertiu Álvaro Cunhal em Alhandra. Não espanta, por isso, que o secretário-geral do PCP tivesse dedicado uma parte substancial do seu discurso perante o CC à análise da nova correlação de forças que começara a fazer-se sentir no seio do MFA, e que encorajou o Grupo dos Nove (com apoio e cumplicidade de Otelo Saraiva de Carvalho) a liderar a contestação aos gonçalvistas.
"A balança de forças não está nítida. Não está. Pode haver força bastante para ir para uma solução em que o poder político continua nas mãos da força militar de esquerda (...), mas pode admitir-se que a força não baste para manter uma tal situação. Seja com o risco de um golpe militar, com possibilidades reais de triunfo, seja com o risco do triunfo de operação política mesmo sem ter necessidade de um golpe militar mas com o apoio das forças armadas. Isto não está excluído e nas últimas semanas temos estado muitas vezes perto de situações que se nos afiguram aproximar-se duma tal situação em que possa haver um desequilíbrio de forças favorável à direita. (...) E quando digo à direita, não digo tanto a direita reaccionária (...), mas à direita do que tem sido até hoje uma parte do MFA, com o apoio político do PS e outros. Não é de excluir que possa haver um desequilíbrio nesse sentido."
Antecipação. Palavras premonitórias sobre a sucessão de acontecimentos que viriam a desembocar no 25 de Novembro, sem que o PCP tivesse conseguido implementar a nova estratégia que acabaria por ser ratificada no Comité Central de Alhandra. E que passava, no essencial, pelo retomar do diálogo com o Grupo de Nove.
Um objectivo que seria parcialmente atingido, como se constataria três meses depois, quando o PCP acabou por ser publicamente absolvido através de uma célebre declaração proferida por Melo Antunes na televisão.
Quanto ao resto, a proposta acabou por esbarrar na intransigência manifestada pelo PS, por Mário Soares e por Otelo Saraiva de Carvalho, o que levaria o PCP a atirar- -se (ainda que temporariamente) para os braços da extrema-esquerda, criando a Frente de Unidade Revolucionária (FUR), com a UDP, MES, PRP/BR, LUAR, LCI, MDP- -CDE e FSP, ou impulsionando os SUV (Soldados Unidos Vencerão). Sem que Álvaro Cunhal e a direcção do PCP conseguissem travar os ímpetos mais radicais de alguns dos seus compagnons de route, como os episódios em torno do 25 de Novembro viriam a demonstrar.
Queda. Mas, nessa altura, já Cunhal e o PCP tinham deixado cair Vasco Gonçalves e constatado o erro da aposta que os comunistas tinham feito em Pinheiro de Azevedo para o substituir.
Mas isso seria depois. Muito depois. Em pleno Verão Quente de 1975, a estratégia era bem diferente, como o sucessor de Vasco Gonçalves recordou, alguns anos depois, num livro de memórias que dedicou a esse período [ 25 de Novembro sem Máscara].
"O PC deixou de lhe dar cobertura (...).Vasco Gonçalves fora útil, mas estava a tornar-se prejudicial, com o seu extremismo desvairado, que poderia levar o país à guerra civil (...). Ora uma guerra civil não interessava a ninguém. Nem interna nem externamente. O PC, manifestamente, achou que Vasco Gonçalves já cumprira o seu papel."

Ver os originais em

http://dn.sapo.pt/2005/08/10/nacional/alvaro_cunhal_salvou_afastando_vasco.html

e

http://dn.sapo.pt/2005/08/10/nacional/simultaneas_xadrez_inspiram_no_prec.html

Cunhal, o PCP e o Verão Quente



Os acontecimentos políticos em Portugal, em Setembro de 1975, quando, segundo um telegrama arquivado nos National Archives (http://www.archives.org/) dos Estados Unidos, Álvaro Cunhal tentou ser convidado por Harold Wilson e Willy Brandt a visitar o Reino Unido e República Federal da Alemanha, permitem muitas conjecturas. E muitas especulações sobre a explicações possíveis para tal iniciativa. Cunhal estava a jogar em muitos tabuleiros, aliando-se a sectores mais radicais da esquerda – a FUR é um exemplo – ou, no pólo oposto, tentando estabelecer pontes com os moderados dos “grupo dos nove” ou os socialistas de Mário Soares. Era como se Cunhal jogasse uma “simultânea de xadrez” com os restantes personagens do Verão Quente.
(Foto de Rui Nogueira)


Fita do tempo, a partir de Julho de 1975:


8 Julho, o MFA divulga o Documento "Aliança POVO/MFA. Para a construção da sociedade socialista em Portugal.".


Em declarações à imprensa, 12 Julho, Henry Kissinger afirma: “Portugal está a ser a preocupação da América".


A 13 Julho, dá-se o assalto à sede do PCP em Rio Maior. Têm aqui início uma série de acções violentas contra as sedes de partidos e organizações políticas de esquerda, registadas por todo o país mas com maior intensidade no Norte e Centro. Esta onda de violência, associada às forças conservadoras, ficou conhecida por Verão Quente.

O PS de Mário Soares desencadeia grandes manifestações (a maior na Fonte Luminosa, em Lisboa, a 19 de Julho), abandonando o Governo em 16 de Julho. O PPD segue-lhe o exemplo.


A 27 Julho, fogem 88 agentes da ex-PIDE/DGS da prisão de Alcoentre.Três dias depois, a 30 Julho, é criado o “triunvirato” que passa a liderar o Conselho da Revolução - Costa Gomes (Presidente), Vasco Gonçalves (primeiro-ministro) e Otelo Saraiva de Carvalho (chefe do COPCON-Comando Operacional do Continente).


É anunciado, 7 Agosto, o Documento Melo Antunes, apoiado pelo Grupo dos Nove, de militares moderados do MFA, que se opõem às teses do Documento Guia Povo/MFA.
Toma posse, a 8 Agosto, o V Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves.


A 10 Agosto, Melo Antunes e apoiantes do “grupo dos nove” são afastados do Conselho da Revolução.


Dois dias depois, é divulgado o "Documento do COPCON", em contraposição ao "Documento dos Nove", e reforçando a ideia de ser atribuído um papel político relevante às Assembleias Populares (poder popular).


A 30 de Agosto, Vasco Gonçalves, o “companheiro Vasco” e aliado (mais ou menos) tácito do PCP, já deixara de ser primeiro-ministro.


A 10 de Setembro, são “desviadas” 1.000 espingardas automáticas G3 das instalações do exército, em Beirolas.


No dia seguinte, no Porto, dá-se a manifestação dos SUV, que defendem o poder popular.


A 19 Setembro, dia em que o Departamento de Estado recebe o telegrama com a informação de que Wilson e Brandt optaram por não convidar Cunhal, toma posse o VI Governo Provisório, chefiado por Pinheiro de Azevedo.


Nos dias seguintes, a 21 e 22 Setembro, agudiza-se a luta política nas ruas: manifestação dos Deficientes das Forças Armadas com ocupação de portagens de acesso a Lisboa e tentativa de sequestro do Governo. As nacionalizações prosseguem.
(A foto deste "post" é estupenda e não quem é o autor. Quem souber, mande um e-mail, please)

Friday, July 04, 2008

O dia em Brandt e Wilson recusaram convite a Cunhal




A informação não deixa de ser surpreendente. E, apesar de Álvaro Cunhal, secretário-geral do PCP, não ser o meu objecto central de investigação, esta é a primeira vez que vejo uma referência a uma iniciativa inédita: a sugestão para o chanceler alemão, Willy Brand, e o primeiro-ministro britânico, Harold Wilson, o convidarem a visitar a Reública Federal da Alemanha (no tem em havia duas Alemanhas, incluindo a comunista, a RDA) e o Reino Unido. “Enquanto líderes dos partidos socialistas”.
A informação foi transmitida ao embaixador norte-americano em Bona pelo gabinete do líder socialista alemão, relatada depois para o Departamento de Estado em Washington a 19 de Setembro de 1975. E retransmitida para a representação diplomática dos EUA em Lisboa no dia seguinte, 20 de Setembro. A resposta é uma recusa… educada: “Ele [Schmidt] e Wilson estiveram em contacto e concordaram que deveria rejeitar educadamente a tentativa de Cunhal de ser convidado por ser inapropriado”.
A “historiografia” oficial do PCP, que eu saiba, é omissa quanto a esta notícia e não me lembro de ver qualquer referência em livros ou artigos sobre esta iniciativa “diplomática”.
Este telegrama abre a questão de saber porque motivo queria Cunhal ser recebido por Brandt e Wilson “enquanto líderes dos partidos socialistas”? Uma aproximação aos aliados europeus dos “moderados” – de Mário Soares - em plena convulsão revolucionária? Sendo verdadeira esta iniciativa de Cunhal, como interpretá-la? Aceitam-se ensaios de resposta.




Ver o telegrama no "site" dos National Archives (http://www.archives.org/)



SECRET
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O 191720Z SEP 75
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TO SECSTATE WASHDC IMMEDIATE 3028
S E C R E T BONN 15441
EXDIS
E.O. 11652: GDS
TAGS: PFOR, GW, US
SUBJECT: MEETING WITH WILLY BRANDT
REF: BONN 15262
1. WILLY BRANDT HAS PASSED ON ONE BIT OF ADDITIONAL INFORMATION
TO SUPPLEMENT THAT REPORTED IN REFTEL. HE
SAID THAT PCP LEADER CUNHAL HAD COMMUNICATED WITH HIM
AND PRIME MINISTER WILSON AS HEAD OF THE BRITISH LABOR
PARTY WITH A REQUEST THAT HE BE INVITED BY THEM IN THEIR
CAPACITY AS SOCIALIST PARTY LEADERS TO VISIT THE FRG AND
THE UK. HE AND WILSON HAVE BEEN IN TOUCH AND AGREED
THAT THEY WOULD POLITELY REJECT CUNHAL'S BID FOR AN INVITATION
AS INAPPROPRIATE.
HILLENBRAND
SECRET
NNN

Thursday, July 03, 2008

“Cunhal: Um Comunista Formidável”





Era o título da revista Time, na sua edição de 31 de Março de 1975, uma segunda-feira.
Com uma revolução em pleno gás em Portugal, a revista lembrava o percurso do líder histórico dos comunistas portugueses, então com 61 anos. E era descrito pelos seus olhos, o cabelo branco, a sua “jovial boa aparência”, “maneiras afáveis” e uma “fama lendária de dedicado comunista e opositor ao antigo regime”. “Ele tornou-se, provavelmente, no mais formidável político em Portugal”.
Apesar dos anos de clandestinidade, o “advogado brilhante” que conseguiu médias altíssimas, ainda que tenha concluído o curso na prisão tentava a todo o custo “aparecer como um moderado, advogando a liberdade de imprensa, partidos políticos livres e eleições”. Uma contradição com esta posição, segundo a Time, era Cunhal “insistir que se deveria acabar com o poder dos latifundiários e dos monopólios”.


(A imagem é de um "poster" de Maluda, retirado de http://maludablog.umnomundo.eu/. Outros personagens da história também têm "poster" no blog - Sá Carneiro, Mário Soares, Vasco Gonçalves...)

Ler o texto integral aqui ou na transcrição a seguir.

Monday, Mar. 31, 1975
Cunhal: A Formidable Communist
For much of the past four decades he has been in prison (14 years in all) or in exile. The rest of the time he lurked in a shadowy, hotly pursued underground movement. Even so, Alvaro Cunhal, 61, secretary-general of the Portuguese Communist Party, is surprisingly well known. A brilliant lawyer with blazing black eyes and a mane of thick silver hair, he returned from Eastern Europe to a tumultuous red-banner welcome only a few days after the April 1974 revolution that toppled the old right-wing dictatorship. Since then, with his debonair good looks, smooth manner and legendary reputation as a dedicated Communist opponent of the former regime, he has become probably the most formidable politician in Portugal.
Cunhal was born in the town of Se Nova, the son of an impecunious country lawyer. As a law student at Lisbon University, Cunhal received the highest grades ever recorded, even though he had to finish his studies from prison (he was jailed numerous times during that period for being a Communist). In 1935 he went to Moscow for the annual Communist International Youth Congress, where he impressed the party with his eloquent oratory. The following year he was sent to Madrid on a special mission during the first months of the Spanish Civil War. When he tried to slip back to Portugal, he was arrested and tortured. Out of prison after a year, he began his vida clandestina (life in hiding) that did not end until after the April revolution 38 years later.
Working clandestinely, he formed a nucleus of professional revolutionaries, creating a broader-based anti-Fascist movement, and organized strikes, set up an underground press and established relations with the international Communist movement. In 1949 he was caught and again imprisoned. When he managed to escape from the infamous Peniche prison in 1961, Cunhal had spent eight full years in solitary confinement.
"Where did I live after escaping?"
Cunhal asks rhetorically. "Many places. I was a gypsy. But I never ran away from Portugal." Western intelligence sources say that he spent much of that time in Prague. He was reportedly in the Czechoslovak capital in 1968 when the Russians invaded. He publicly came out in support of the invasion. Cunhal tries hard to look and sound like a moderate, advocating a free press, political parties and elections. But he insists that the power of the landowners and monopolies must be ended. Cunhal also says that all existing agreements, including ties with NATO and U.S. base arrangements, should be respected. But then, not so long ago he was saying that the Communist Party would not insist on nationalization either, and while he might bide his time on NATO, nobody expects him to do so indefinitely. Rumors persist that the Soviets are seeking refueling facilities in Madeira for their fishing fleet, a move which would hardly sit well with NATO.
A modest man who keeps his private life so quiet that no one even knows whether he is married. Cunhal attributes the party's success to tireless organization. In Path to Victory, published in 1964, he wrote: "Those who witness great struggles by the masses . . . many times imagine that they appear by magic, as a result of spontaneous indignation of the people or perhaps through emotional appeals. The truth is that only through careful organization can they succeed."

Sunday, June 29, 2008

Henry Kissinger: "Soares pertence à facção extremista?"

Tiago Moreira de Sá é historiador e ex-jornalista. Tem um livro “Os Americanos na Revolução Portuguesa” e está a preparar outro, igualmente sobre os Estados Unidos e Portugal durante o período revolucionário de 1974-75.
Na revista Atlântico de Maio publicou o texto “Os EUA e a ‘Revolução Spínolista’”, de que se publicam dois excertos retirado do blogue. Uma das melhores frases é mesmo a de Kissinger quando pergunta se Mário Soares é um extremista.

“A 25 de Abril de 1974, Henry Kissinger reúne com o staff do Departamento de Estado que dirigia. Um dos temas em cima da mesa é o golpe de Estado em Portugal, a chamada revolução dos cravos. Vale a pena transcrever parte do que foi dito sobre o nosso país, num diálogo inédito entre o todo-poderoso secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, e o responsável máximo do Departamento de Estado para os Assuntos Europeus, Arthur Hartman.

Arthur Hartman: «Espero que não me negue a oportunidade de falar sobre um golpe de Estado na Europa. Não é todos os dias que tenho essa hipótese (risos). As últimas notícias são que [Marcello] Caetano foi preso – não há nenhuma palavra sobre o que aconteceu com [Américo] Tomás. Existe um relato de um funcionário da embaixada dizendo que Spínola estava a ir para o quartel-general nacional no meio da aclamação popular. De qualquer modo, ainda nada é absolutamente definitivo sobre que grupo tomou conta do poder e quais as suas políticas. Tanto quanto sei, não há relatos a partir das colónias sobre as actividades lá.»
Henry Kissinger: «Então, se se trata de Spínola a política nas colónias será mais liberal.»
AH: «Mais liberal. Existem algumas evidências de que têm existido grupos económicos a apoiar a posição [de Spínola].»
HK: «Mas eles têm que estar loucos para pensarem que podem aguentar as colónias através de meios mais liberais. Assim que entrarem por esse caminho vão perder as colónias.» (1)
(…)
“O mais condecorado herói de guerra”

O diálogo entre Henry Kissinger e Arthur Hartman constitui um resumo elucidativo da reacção inicial dos Estados Unidos ao 25 de Abril. Nele se percebe a surpresa com que o derrube do Estado Novo é recebido em Washington, assim como o quase total desconhecimento acerca do Movimento das Forças Armadas (MFA) – e, finalmente, a atribuição do golpe de Estado militar a António de Spínola.
Estas percepções são confirmadas pelos demais registos existentes nos arquivos norte-americanos, desde logo pela correspondência trocada entre a Embaixada em Lisboa e o Departamento de Estado.
No dia seguinte, ocorre mais uma reunião de Henry Kissinger com o seu staff do Departamento de Estado onde, entre outros assuntos, são analisadas as consequências da “crise Palma Carlos”:

Arthur Hartman: «A situação portuguesa está também a tornar-se mais confusa. Alguns ministros demitiram-se, incluindo o primeiro-ministro. Parece que as coisas estão a transformar-se numa luta entre o próprio Spínola, que quer ter mais poder e dar mais poder aos ministros civis e “centristas”, e os militares [do MFA] que o têm apoiado.»
Henry Kissinger: «A minha previsão tem sido sempre que só há dois desenvolvimentos possíveis. Ou os militares tomam conta do poder ou a esquerda fá-lo-á.»
AH: «Há uma complicação adicional pois existem alguns elementos de esquerda no grupo militar.»
HK: «Nós estamos fora disso?»
AH: «Tanto quanto sei.»
HK: «Bem, diz-lhes para ficarem fora disso. Sabemos o suficiente para ter uma perspectiva?»
AH: «Penso que não sabemos.»
HK: «Bem, desde que estejamos fora disso. Pessoalmente, prefiro que um grupo centrista domine a situação. Mas não vejo que tipo de apoio poderá ter.»
AH: «Claramente, terá que ter o apoio dos militares.»
HK: «Aparentemente, Soares continua no Governo.»
AH: «Sim.»
HK: «Ele pertence à facção extremista?»
AH: «Não. Mas está aparentemente à espera do seu momento, pois penso que esta é mais uma luta entre os dois ministros comunistas, um dos quais é o ministro do Trabalho, e os centristas.» (2)

(1) The Secretary´s Principals and Regionals Staff Meeting, Department of State, April 26, 1974, National Archives.
(2) The Secretary´s Principal´s and Regional´s Staff Meeting, July 10, 1974

Saturday, June 28, 2008

François Mitterrand, porta-voz das "dúvidas" soviéticas sobre Cunhal?


François Mitterrand era líder do PCF e da oposição em França quando foi a Moscovo, de 23 a 28 de Abril de 1975. No regresso, a embaixada norte-americana em Paris recolheu as opiniões de Mitterrand sobre a visita e o que pensava que os soviéticos pensavam da revolução portuguesa e dos seus "planos" para a Península Ibérica.
No telegrama enviado para o Departamento de Estado, em Washington, a embaixada emite também uma opinião ou “impressão” de Mitterrand sobre Álvaro Cunhal, secretário-geral do PCP e fiel aliado desde há décadas do partido irmão soviético, do “centro”. Seria mesmo? A avaliar pelos contactos na capital soviética, não. Melhor dizendo: a liderança soviética – o Kremlin ou o Partido Comunista da União Soviética (PCUS)? - tinha dúvidas ou fazia passar a ideia de que tinham dúvidas.
O telegrama tem como fontes “os mais directos colaboradores” daquele que viria a ser presidente de França e aliado de peso de Mário Soares nesses meses agitados. Mitterrand, segundo os seus colaboradores, “regressou de Moscovo convencido de que os soviéticos não têm uma estima muito grande pelo líder do Partido Comunista Português Cunhal, cuja inexperiência política e intransigência pessoal olham como uma força desestabilizadora na Europa”.
“Na ausência de melhor alternativa, Mitterrand espera que o PCUS continue a apoiar Cunhal, apesar de considerar altamente exageradas as notícias da imprensa sobre os fortes apoios financeiros dos soviéticos [ao PCP]. Na sua opinião, os soviéticos estão claramente mais interessados na estabilidade política da Europa Ocidental do que em ganhos nacionais”, pode ler-se no telegrama. Em Portugal, no caso.
Surpreendente ou talvez não. Esta visão, porém, não era consensual. Giscard d'Estaing, por exemplo, não tinha esta opinião tão "simpática" das intenções soviéticas. Bem pelo contrário.







Extracto do telegrama dos National Archives, que pode ser consultado aqui.






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SUBJECT: PS/PCF RELATIONS AFTER MITTERRAND'S MOSCOW TRIP

SUMMARY AND CONCLUSIONS. IN THE AFTERMATH OF SOCIALIST
PARTY FIRST SECRETARY FRANCOIS MITTERRAND'S MOSCOW TRIP,
FRENCH SOCIALIST/COMMUNIST (PS/PCF) RELATIONS ARE
ENTERING A NEW PHASE. AFTER SOME SEVEN MONTHS OF PUBLIC
SQUABBLING, THE PS AND PCF HAVE COOLED THEIR POLEMIC
AND ARE MAKING SOME MOVES TOWARD GREATER DIALOGUE.
FOLLOWING HIS MOSCOW TRIP, MITTERRAND INVITED HIS PCF
PARTNERS IN THE UNITED LEFT TO A SUMMIT MEETING; ALTHOUGH
THE PCF HAS NOT OFFICIALLY AGREED, THE PARTY'S
CENTRAL COMMITTEE HAS INDICATED THAT IN PRINCIPLE IT IS
NOT OPPOSED.
WITH MITTERRAND RIDING HIGH ON WHAT THE PS PERCEIVES AS
THE INTERNATIONAL RECOGNITION BESTOWED ON IT BY THE
MOSCOW TRIP, WITH THE PS IN A STRONGER POSITION TO
ASSERT ITSELF WITHIN THE UNITED LEFT -- AS POLLS CONFIRM
THAT THE PCF HAS SLIPPED BADLY WHILE THE PS HAS MADE
MAJOR GAINS, THE PCF SEEMS TO HAVE OPTED AGAINST A
CONTINUATION OFITS PUBLICQUARREL WITH THE PS. THE
UNION OF THE LEFT'S DOMESTIC POLICY MAY TAKE A SLIGHT
TURN TO THE LEFT -- AS THE PRICE WHICH THE PS WILL HAVE
TO PAY IN ANY SUMMIT NEGOTIATION. HOWEVER, FOREIGN
POLICY DIFFERENCES BETWEEN THE PS AND PCF WILL REMAIN
AND COULD EVEN BECOME MORE PRONOUNCED OVER SUCH ISSUES
AS FRANCE'S NATO MEMBERSHIP, THE EC AND SALT/MBFR.
OVER THE NEAR TERM THIS UNEASY ALLIANCE WILL TAKE ON A
MORE CORDIAL TONE, BUT THE SUBSTANCE OF PS/PCF DIFFERENCES
REMAINS UNCHANGED.
WE DISCUSS BELOW ASPECTS OF MITTERRAND'S MOSCOW TRIP,
THE PS CONVENTION ON PS/PCF RELATIONS, AND RELATED
INTERNAL DEVELOPMENTS AFFECTING THE UNION OF THE LEFT.
END SUMMARY AND CONCLUSIONS.

1. MITTERRAND'S MOSCOW TRIP (APRIL 23-28): PORTUGAL.
MITTERRAND'S CLOSEST ASSOCIATES HAVE TOLD US THAT HE
RETURNED FROM MOSCOW CONVINCED THAT THE SOVIETS ARE
NOT STRONGLY ATTACHED TO PORTUGUESE COMMUNIST PARTY
LEADER CUNHAL, WHOSE LACK OF POLITICAL EXPERTISE AND
PERSONAL INTRANSIGENCE THEY VIEW AS A POLITICALLY
DESTABILIZING FORCE IN EUROPE. IN THE ABSENCE OF A
BETTER ALTERNATIVE, MITTERRAND EXPECTS THE CPSU TO
CONTINUE TO SUPPORT CUNHAL ALTHOUGH HE DISMISSES PRESS
REPORTS OF HEAVY SOVIET FINANCIAL SUPPORT FOR THE PCP
AS WILDLY EXAGGERATED. IN HIS VIEW, THE SOVIETS ARE
CLEARLY MORE INTERESTED IN WESTERN EUROPEAN POLITICAL
STABILITY THAN IN NATIONAL COMMUNIST GAINS.
(...)

Friday, June 27, 2008

Gierek e os avisos aos revolucionários portugueses


Edward Gierek (1913-2001) era primeiro secretário do partido comunista da Polónia e esteve em Portugal durante a revolução, no primeiro mês de 1975.
Em Lisboa, Gierek encontrou-se sucessivamente com Álvaro Cunhal, líder histórico do PCP, o primeiro-ministro, general Vasco Gonçalves, e outro general, Otelo Saraiva de Carvalho, comandante do COPCON.
Tad Szulk, num artigo publicado em 1976 (Tad Szulc, “Lisbon and Washington: Behind the Portuguese Revolution”, Foreign Policy 21 (Winter 1975-1976) descreve que o Edward Gierek aconselhou os portugueses a “avançarem mais devagar com a revolução”, advertindo para os riscos de tensão entre os Estados Unidos e a União Soviética poderia “causar danos à détente”.
Analistas da CIA também tinham essa tese - de que os soviéticos não estariam dispostos a trocar uma “aventura” vermelha em Lisboa pelo “status quo” com os norte-americanos.
A mesma análise era feita pelos social-democratas suecos de Olof Palme, em Junho de 1976. O embaixador norte-americano em Estocolmo aproveita um encontro com Palme para lhe pedir uma avaliação da situação portuguesa, dado que um colaborador do líder sueco, Pierre Schori, tinha regressado essa semana de Lisboa. Além disso, Palme tinha conversado com Gierek, o que o tinha “descansado” sobre a revolução portuguesa.
O líder comunista polaco garantira-lhe que nem os soviéticos nem outros dirigentes da Europa de Leste “não desejam, repito, não desejam ‘precipitar os acontecimentos’ em Portugal”. Segundo Gierek, Portugal estará “pronto para uma revolução burguesa, mas não ainda para [uma revolução] proletária”.
E faz uma apreciação do líder polaco sobre Cunhal, considerando-o “razoável”. Os dirigentes à volta de Cunhal “estiveram muito tempo presos” o que, segundo Gierek, os tornou “demasiado ‘linha dura’”.


Extracto do telegrama original, que pode ser consultado em nara.gov.


CONFIDENTIAL
PAGE 01 STOCKH 02982 191211Z 46
ACTION EUR-12
INFO OCT-01 ISO-00 SAM-01 SAJ-01 IO-10 CIAE-00 DODE-00
PM-03 H-02 INR-07 L-03 NSAE-00 NSC-05 PA-01 PRS-01
SP-02 SS-15 USIA-06 ACDA-05 EB-07 OMB-01 TRSE-00
AID-05 AF-06 NEA-10 /104 W
---------------------
097663
R 191100Z JUN 75
FM AMEMBASSY STOCKHOLM
TO SECSTATE WASHDC 4948
INFO AMEMBASSY COPENHAGEN
AMEMBASSY HELSINKI
AMEMBASSY LISBON
AMEMBASSY OSLO
AMEMBASSY REYKJAVIK
USMISSION USNATO
C O N F I D E N T I A L STOCKHOLM 2982
E.O. 11652: GDS
TAGS: PFOR, PO, SW

SUBJECT: SWEDISH PRIME MINISTER DISCUSSES PORTUGUESE SITUATION
1. WHILE CALLING ON PRIME MINISTER OLOF PALME PRIOR
TO HIS DEPARTURE JUNE 19 FOR OFFICIAL VISITS TO
MEXICO, VENEZUELA AND CUBA (SEPTEL), I ASKED HIM FOR
HIS ASSESSMENT OF THE CURRENT PORTUGESE SCENE. I
SAID I UNDERSTOOD THAT ONE OF HIS AIDES, PIERRE
SCHORI, HAD RETURNED ONLY THIS WEEK FROM A VISIT TO
THAT COUNTRY AND MIGHT HAVE SOME NEW INSIGHT INTO
THE SITUATION THERE.
(…)
3. THE PRIME MINISTER SAID THAT HE IS PLEASED WITH
THE POSITION OF THE USG AND THE EC-9 TOWARDS THE
PORTUGUESE GOVERNMENT. OUR ATTITUDE OF "WATCHFUL
WAITING," HE SAID, IS ALSO THE SWEDISH APPROACH.
PALME SAID HE IS WATCHING DEVELOPMENTS CLOSELY IN
PORTUGAL. HOWEVER, HE CONTINUED, HE FELT LESS WORRIED
SINCE HIS TALK WITH THE FIRST SECRETARY OF THE POLISH
COMMUNIST PARTY, EDWARD GIEREK, WHO VISITED SWEDEN
EARLY THIS MONTH (STOCKHOLM 2789). ACCORDING TO PALME,
HE AND GIEREK DISCUSSED PORTUGAL AT CONSIDERABLE
LENGTH. HE SAID GIEREK TOLD HIM THAT THE SOVIETS AND
OTHER EAST EUROPEANS DO NOT RPT NOT WISH TO
"PRECIPITATE EVENTS" IN PORTUGAL, AND THAT WHILE
PORTUGAL IS READY FOR A "BOURGOIS" REVOLUTION, IT IS
NOT READY YET FOR A "PROLETARIAN" ONE. GIEREK
DESCRIBED CUNHAL AS "REASONABLE," BUT ASSERTED THAT
SOME OF THE MEN AROUND HIM "HAD BEEN TOO LONG IN
JAIL," IMPLYING THAT THEIR TIME IN PRISON HAD MAKE
THEM TOO HARD-LINE.


Thursday, June 19, 2008

Alertas no NYT, cartazes nas paredes em Lisboa




A 30 de Setembro de 1974, dois dias depois do 28 de Setembro e da falhada manifestação da "maioria silenciosa", Spínola demite-se no meio de grande confusão e palavras duras e sombrias sobre o futuro do país, em que alertou para novas ditaduras, agora de sinal contrário, de esquerda.

Nos Estados Unidos, a demissão de Spínola é um dos primeiros alertas sobre a revolução dos cravos. O jornal "The New York Times" titula que as forças armadas portuguesas estão em alerta máximo para responder a um eventual golpe... Leia-se a notícia, retirada do Arquivo Pintasilgo, assim descrita:

"UNEASY PORTUGAL ON VIGIL FOR COUP : Armed Forces Alerted as a Precation in Wake of Spinola Resignation"
Autor: Henry Giniger
Âmbito e Conteúdo: Artigo, publicado no jornal «The New York Times», sobre o estado de alerta em que se encontravam as Forças Armadas portuguesas na sequência da resignação de António de Spínola do cargo de presidente da República, destacando a tensão política que se vivia em Portugal.

Data: [Out.1974]

Local: [Nova Iorque]


Enfim, todos tiveram de esperar cinco meses, até ao 11 de Março de 1975...

Post Scriptum: Vale a pena uma visita ao site do Arquivo Lourdes Pintasilgo -

Tuesday, June 17, 2008

Os desabafos de Kissinger na Cimeira de Helsínquia, em 1975


É uma imagem clássica da Cimeira de Helsínquia, em 1975. Uma reunião, no auge do Verão Quente da revolução, em que Portugal está no centro das atenções dos líderes mundiais. Brejnev foi confrontado sobre os apoios da URSS aos comunistas portugueses e disse que, no regresso a Moscovo, ia pensar no assunto.
À margem da cimeira, Gerald Ford e Henry Kissinger tiveram encontros com líderes europeus, entre eles o primeiro-ministro grego. Portugal voltou a ser tema de conversa e Kissinger lá desabafa que os Estados Unidos tinham "perdido um ano" por culpa dos europeus que lhe diziam que “não havia problema”. Caramanlis está céptico e diz que Portugal “não tem solução”.

Extracto do memorando, em inglês.

Memorandum of Conversation1
Helsinki, July 30, 1975, 1 p.m.
PARTICIPANTS
Greece:
Prime Minister Caramanlis
Foreign Minister Bitsios
Chef de Cabinet Molyviatos
U.S.:
The President
The Secretary of State
Mr. Arthur A. Hartman, Assistant Secretary for European Affairs
There was a brief discussion in the garden of the President’s previous
stops and then of his future travel plans including his plans to
meet with the Japanese Prime Minister.
(…)
The President: What do you think of Portugal today?
Caramanlis: I think it is hopeless.
The Secretary: That is my view.
The President: Do you think that they should stay in NATO if they
are Communists?
Caramanlis: There may be a civil war there. It depends on the
conservatives.
Bitsios: It is also bad for Spain.
The President: I noted that the Workers’ Associations in Spain have
voted and they have chosen either liberal or Communist leadership.
The Secretary: Yes.
Caramanlis: The Portuguese situation has a dangerous effect in
Spain and Italy. In my view when situations develop that are bad they
need immediate measures to correct them.
The Secretary: You’re right. We have wasted a year on Portugal
mainly because the West Europeans said there was no problem.
Caramanlis: In the case of Portugal, Cyprus and Arab oil, we
now have a big problem which creates hostility but if these crises
are dealt with quickly they usually can be solved and we can avoid
confrontation.


1 Ford Library, National Security Adviser, Memoranda of Conversations,
Box 14, CSCE, 7/26–8/4/75. Secret; Nodis. Drafted by Hartman. The meeting was held
at the Ambassador’s residence. Ford and Kissinger were in Helsinki for CSCE talks.
In "Foreign Relations of the United States, 1969–1976 - Greece; Cyprus; Turkey,
1973–1976 (Volume XXX)", Ed. Laurie Van Hook

[Foto: Soviet leader Leonid Brezhnev in expressive mood between his U.S. counterpart Gerald Ford (left) and the Soviet Foreign Minister Andrei Gromyko (right). Photo:VESA KLEMETTI]

Tuesday, June 10, 2008

Cunhal e a "táctica mais perigosa" para os Estados Unidos em 74





Era o primeiro congresso do PCP na legalidade após o 25 de Abril, mas só se realizou em Outubro, seis meses passados sobre o golpe dos “capitães”.
Da embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, o congresso é acompanhado com interesse. No telegrama, com a data de 24 de Outubro, o embaixador Stuart Nash Scott conclui que “a táctica” adoptada pelo PCP liderado por Cunhal é aquela que, “quanto aos interesses, a longo prazo, dos EUA”, é “provavelmente a mais perigosa que o PCP poderia seguir” - ou seja, credibilizar-se com um discurso para conseguir "respeitabilidade e legitimidade".
De resto, ao longo das suas seis páginas, o telegrama faz a descrição dos trabalhos do congresso dos comunistas, incluindo a decisão de retirar a expressão “ditadura do proletariado” das suas teses e o programa de emergência que, para o diplomata, mais não era do que “uma versão portuguesa” da “Nova Política Económica”, adoptada por Lenine, em 1921. Neste “post”, é apresentado o “sumário” do telegrama e o último ponto, o décimo, aquele em que Scott faz uma apreciação sobre o congresso.


PAGE 01 LISBON 04611 01 OF 02 241316Z
43
ACTION EUR-12
INFO OCT-01 AF-04 ISO-00 IO-04 CIAE-00 PM-03 H-01 INR-05
L-01 NSAE-00 NSC-05 PA-01 RSC-01 PRS-01 SP-02 SS-15
USIA-06 SAM-01 EB-04 COME-00 TRSE-00 AGR-05 CIEP-01
SIL-01 LAB-01 NIC-01 /076 W
--------------------- 106059
R 241209Z OCT 74
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC 0843
INFO AMEMBASSY BONN
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USCINCEUR
DIA
AMCONSUL OPORTO
AMCONSUL PONTA DELGADA
LIMITED OFFICIAL USE SECTION 1 OF 2 LISBON 4611
E.O. 11652: N/A
TAGS: PINT PO
SUBJ: SPECIAL PCP CONGRESS APPROVES "EMERGENCY PLATFORM"
REF: FBIS LONDON A) 210009Z; B) 210330Z; C) 210402Z
D) 210222Z
SUMMARY: SPECIAL CONGRESS OF PORTUGUESE COMMUNIST PARTY
(PCP) HAS APPROVED "EMERGENCY PROGRAM" ADVOCATING DEFENSE
OF LIBERTIES AND REINFORCEMENT OF PORTUGUESE DEMOCRACY,
CONTINUATION OF DECOLONIZATION AND, IN EFFECT, ADVANCEMENT
OF A PORTUGUESE VERSION OF LENIN'S "NEW ECONOMIC POLICY" OF 1921.
PCP SECRETARY GENERAL CUNHAL SPOKE OF IMPEDIMENT THAT GENERAL
SPINOLA REPRESENTED FOR DEVELOPMENT OF PORTUGUESE DEMOCRACY. CUNHAL
ALSO DWELT AT LENGTH ON PROGRAM'S EXPURGATION OF SLOGAN
"DICTATORSHIP OF THE PROLETARIAT" FROM THE CONVENTIONAL
LITANY, SINCE IT CAN BE TOO EASILY MISCONSTRUED FOLLOWING
YEARS OF DICTATORSHIP FROM A DIFFERENT QUARTER. CUNHAL
WARNED THAT THERE COULD BE NO BARRIERS WITHIN THE PARTY
LEADERSHIP BETWEEN PRE-APRIL 25 (CLANDESTINE) MILITANTS
AND THOSE WHO HAVE EMERGED SINCE. STATISTICS WERE ISSUED
ON COMPOSITION OF CONGRESS DELEGATES AND PARTY MEMBERSHIP, AND
FULL COMPOSITION OF CENTRAL COMMITTEE WAS REVEALED FOR FIRST TIME.
LISBON PRESS ACCOUNTS SUGGEST THAT MANY CONGRESS DELEGATES
WERE UNHAPPY WITH THE BANNING OF SLOGAN ON DICTATORSHIP
OF PROLETARIAT. DOSCINTENT WITHIN RANKS MAY ALSO STEM
FROM EMERGENCY PROGRAM'S EMPHASIS ON STRENGTHENING NATIONAL
ECONOMY AND ACHIEVING SOCIAL AND ECONOMIC REFORM, RATHER
THAN DENUNCIATION OF SOCIAL EVILS AND INEQUALITIES
INHERITED FROM THE DISCRETIED PAST. END SUMMARY.
(…)
10. THE PARTY IS FOLLOWING A CLEVER LINE DESIGNED TO ENSURE ITS
ACHIEVEMENT OF LEGITIMACY AND RESPECTABILITY IN NEW PORTUGAL.
AS FAR AS LONG-RUN US INTERESTS ARE CONCERNED, THIS IS
PROBABLY THE MOST DANGEROUS TACTIC THE PCP COULD UNDERTAKE.
SCOTT


A versão integral do telegrama pode ser lida aqui, retirada dos National Archives.



Da página do PCP na Internet (http://www.pcp.pt/) retirei o resumo sobre o congresso:

A 20 de Outubro de 1974, poucos meses depois do 25 de Abril, reúne-se extraordinariamente o primeiro Congresso do PCP na legalidade, após 48 anos de fascismo. Com milhares de convidados em festa, milhares de delegados representando um Partido em forte crescimento aprovam modificações ao Programa e aos Estatutos, decorrentes da situação de liberdade conquistada. Aprova também, este VII Congresso, uma Plataforma de Emergência contendo medidas fundamentais para a defesa e desenvolvimento da Revolução. O Comité Central, apresentado ao Congresso, era então composto por 23 membros efectivos e 13 suplentes.

Tuesday, May 27, 2008

O esquecimento faz parte da memória



É uma frase estupenda, esta a da historiadora Irene Pimentel, retirada de uma peça do Público: "O esquecimento faz parte do próprio trabalho da memória"

Irene Pimentel dedica Prémio Pessoa aos que lutam pela preservação de lugares de memória

Irene Pimentel, investigadora de História Contemporânea e que ontem recebeu o Prémio Pessoa 2007, entende que existem "nos mais velhos um excesso de memória, visível na obsessão com que alguns temas recalcados tomam uma dimensão considerável" e, "nos mais jovens, uma míngua de memória, inevitável com o surgimento de gerações totalmente estranhas à vivência da ditadura". "No entanto - continuou -, contra a sensação de que a memória desse período não chega aos jovens, tem de se dizer que o esquecimento faz parte do próprio trabalho da memória".
A historiadora referia-se especificamente à memória sobre o período do Estado Novo, um dos temas centrais do seu trabalho e do discurso que proferiu ontem, ao princípio da noite, na cerimónia de entrega do prémio, realizada no Museu Militar, em Lisboa, e presidida pelo Presidente da República.
Autora do primeiro estudo completo sobre a polícia política (História da PIDE, edição da Temas e Debates), Irene Pimentel, de 58 anos, reforçou a ideia de que contra a insuficiência ou o excesso de memória deve "erguer-se o trabalho da História", enquanto conhecimento que permite ao investigador "libertar-se do passado, através de duplo trabalho de recordação e de luto".
(sem "link" - copiado manualmente)

Sunday, May 25, 2008

O jovem Donald Rumsfeld, a história e Portugal



Uma das coisas curiosas para quem "mexe" nos baús da história é encontrar políticos famosos em início de carreira. Mas nem por isso com problemas de "défice" de poder. Que o diga Donald Rumsfeld, ex-secretário da Defesa. Antes de ser "despedido" por Bush Jr., por causa do Iraque, Rumsfeld foi chefe de gabinete de Gerald Ford e depois nomeado para secretário da Defesa. A escolha de Frank Carlucci para embaixador norte-americano em Lisboa terá tido influência activa de Rumsfeld, com quem depois o diplomata mantinha contactos durante os meses quentes que esteve em Portugal. E que terão servido para "influenciar" a administração norte-americana (ou seja Ford) sem passar pelo "pessimista" Henry Kissinger, o todo-poderoso secretário de Estado.
(A1110-28A. President Ford and Chief of Staff Donald Rumsfeld in the Oval Office. September 29, 1974. Ford Library)

Uma foto com história



Encontrei, finalmente, uma imagem de arquivo (foto da AP, disponível na Ford Library, das conversações, em Moscovo, de Ford e Kissinger com Leonid Brejnev, a 21 de Janeiro de 1976. Aquelas em que o líder soviético disse que não conhecia Álvaro Cunhal... E que levou Cunhal a chamar "mentiroso" a Brejnev.

Friday, May 23, 2008

Uma capa, mil palavras


Uma imagem (uma capa da Time) que diz tudo do clima psicológico em torno da revolução dos cravos. Até pela cor.
Apetece escrever: "Say you wanna a Revolution? Starring Otelo, Vasco Gonçalves and Costa Gomes"

E os americanos “vigiam” Cunhal

São dezenas de telegramas: sempre que Cunhal dá uma entrevista, seja em França, Brasil, Checoslováquia, havia uma embaixada ou consulado norte-americano a fazer um telegrama.
Um mês antes do 11 de Março, tentativa “putchista” de Spínola e seus apoiantes, Cunhal alertava para os riscos de golpe num país em que “rumores de golpe” andavam de boca em boca, de manchete em manchete.
Veja-se este telegrama, do embaixador norte-americano em Lisboa Frank Carlucci, sobre uma entrevista do líder comunista à revista brasileiro “Veja”: Cunhal, segundo Carlucci, falava em risco de golpe da direita, e de guerra civil, para tentar “arrefecer” os rumores de que o PCP estaria a preparar a tomada do poder.
(Ler o telegrama na íntegra aqui)

CONFIDENTIAL
PAGE 01 LISBON 00880 141927Z
20
ACTION EUR-12
INFO OCT-01 AF-06 ARA-06 ISO-00 CIAE-00 DODE-00 PM-03 H-01
INR-07 L-02 NSAE-00 NSC-05 PA-01 PRS-01 SP-02 SS-15
USIA-06 ACDA-05 SAJ-01 /074 W
--------------------- 039717
R 141635Z FEB 75
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC 1755
INFO AMEMBASSY BONN
AMEMBASSY BRASILIA
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AMCONSUL RIO DE JANEIRO
USMISSION NATO
DIA WASHDC
USCINCEUR VAIHINGEN GER
AMCONSUL OPORTO
AMCONSUL PONTA DELGADA
C O N F I D E N T I A L LISBON 880
EO 11652: GDS
TAGS: PINT, PO
SUBJ: ALVARO CUNHAL ON "LOCKED GATE" AND POSSIBILITY OF CIVIL WAR
1. SECRETARY GENERAL OF PORTUGUESE COMMUNIST PARTY (PCP)
ALVARO CUNHAL GRANTED INTERVIEW TO BRAZILIAN MAGAZINE "VEJA"
IN WHICH HE STATED THAT THERE WAS NOTHING EXTRAORDINARY ABOUT
NATO "LOCKED GATE" EXERCISE SINCE PORTUGAL IS MEMBR OF NATO.
CUNHAL WENT ON TO STATE THAT TIMING OF EXERCISE POORLY CHOSEN,
BUT IT NOT NECESSARY TO "DRAMATIZE" THAT FACT.
2. REGARDING POSSIBILITY OF CIVIL WAR IN PORTUGAL, CUNHAL
STATED THAT CIVIL WAR NOT LIKELY, BUT THAT IT COULD ARISE IF
CONFIDENTIAL

CONFIDENTIAL
PAGE 02 LISBON 00880 141927Z
"COUNTE-REVOLUTIONARY FORCES" MADE ARMED COUP ATTEMPT.
3. COMMENT: IT APPARENT THAT CUNHAL IS MAKING ATTEMPT IN
"VEJA" INTERVIEW TO COOL ALARMIST RUMORS CONNECTED WITH RECENT
ISSUES SUCH AS "LOCKED GATE" AND DRAFT LABOR LAW, ESPECIALLY
REGARDING PCP ATTEMPTS TO TAKE OVER GOVT.
STATEMENTS MADE IN "VEJA" SIMILAR TO PREVIOUS STATEMENTS MADE
BY CUNHAL ON THESE TOPICS.
CARLUCCI
CONFIDENTIAL
NNNN

Thursday, May 22, 2008

Cunhal contra "comezainas", pelos "petiscos"


Um “post” algo marginal ao tema central do blogue. Há dias, numa conversa com militantes comunistas, disseram-me que Álvaro Cunhal não tinha muito o hábito de ir almoçar ou jantar “fora”, essa prática tão portuguesa. Mas quando ia um dos locais preferidos era o “Santo António de Alfama”.

Leia-se o que diz Cunhal da comida em “Cinco Conversas com Álvaro Cunhal”, de Catarina Pires, Campo das Letras, 1999, citado por Miguel Carvalho em “Álvaro Cunhal – Íntimo e Pessoal”, Campos das Letras, 2006.

“Às vezes, zás, também gostava de comer uns petiscos em conjunto ou de um piquenique… Comezainas nunca apreciei”.

O livro e os Açores (i)


Gustavo Moura, ex-director do Açoriano Oriental e um dos personagens dos acontecimentos de Junho de 1975 em Ponta Delgada (foto retirada de paralelo37.blogspot.com), escreveu um artigo "Justiça e emoções não fazem bom casamento…" no Correio dos Açores sobre dois livros – Portugal Classificado e “Marechal Costa Gomes – No centro da Tempestade”, de Luís Nuno Rodrigues.

«Nas últimas semanas vieram a público vários livros sobre acontecimentos recentes da nossa vida colectiva, especialmente versando o Movimento de 25 de Abril de 1974 e alguns dos seus protagonistas. Trinta anos depois, muitos arquivos são abertos aos investigadores e documentos na época classificados como secretos ou confidenciais deixam de o ser, ficando ao dispor de historiadores e, em muitos casos, do público em geral. De entre os vários livros recentemente editados sobre estas matérias, dois chamaram a nossa atenção e vou os lendo, com particular interesse e muito cuidado, pois versam uma época e acontecimentos que vivemos intensamente e algum protagonismo. Falamos dos livros “Marechal Costa Gomes – No centro da Tempestade”, de Luís Nuno Rodrigues, e “Portugal Classificado – Documentos Secretos Norte-Americanos 1974-1975”, de Nuno Simas. Os dois trabalhos são amplamente documentados com extensas transcrições de textos oficiais, apontamentos de reuniões ao mais alto nível, telegramas, troca de notas e correspondência diplomática e, também, de observações pessoais de alguns dos intervenientes, retiradas dos seus diários e cartas particulares. Este conjunto de informações permite-nos compreender melhor as circunstâncias que condicionaram os acontecimentos políticos e sociais daquela época, clarificando atitudes que a emotividade da altura e o desconhecimento de todos os dados envolvidos conduziam a pressupostos nem sempre os mais correctos. Mais uma vez se prova que a História necessita de algum distanciamento e de investigação exaustiva das fontes disponíveis e credíveis, para que o juízo sobre acontecimentos e personalidades possa ser o mais justo. (...)


A autonomia é uma conquista política. As conquistas, mesmo as políticas, fazem-se com lutas e a política leva, por vezes, vezes demais, a tortuosos caminhos para atingir o objectivo desejado e nenhum dos seus protagonistas pode reclamar total pureza. E quando é o interesse colectivo que está em causa, as questões pessoais não podem ser determinantes. É sacrifício doloroso, sem dúvida. Mas um interesse superior, por visar o bem comum, assim o exige. »

Nota pessoal: Conheci Gustavo Moura quando era director do Açoriano Oriental e fui em reportagem aos Açores. Recebeu-me no seu gabinete, com algum formalismo, ou não fosse eu, na altura, repórter de um jornal “irmão” – o DN. Gustavo Moura foi um dos personagens dos acontecimentos de Junho de 1975, mas disso não falámos nessa altura, só anos depois quando nos cruzámos num jantar oficial. Sempre meticuloso e rigoroso.

Wednesday, May 21, 2008

Cunhal nos arquivos norte-americanos (i)


Este é um excerto de um telegrama enviado pelo Departamento de Estado (não citado no meu livro) em que o embaixador João Hall Themido, diploma português em Washington que resistiu ao 25 de Abril e ficou em funções, apesar da queda da ditadura. Ele foi uma “peça”, pela continuidade, na tentativa de acalmar o aliado americano face às mudanças de regime em Portugal. A 30 de Maio de 1974, Themido estivera em Lisboa e regressou a Washington com uma mensagem de amizade aos Estados Unidos, nessa altura ainda na fase de “wait and see”, mas já com os olhos postos em Álvaro Cunhal , líder do “único partido organizado”, como não se cansava de dizer Kissinger. Conciliador, João Hall Themido dizer que, até ao momento, fizera declarações muito “responsáveis”. Nos meses, anos seguintes o embaixador teve posições bem mais alarmadas sobre "os comunistas" em Portugal...
(Telegrama retirado dos National Archives)
Ver o telegrama na íntegra aqui


CONFIDENTIAL
PAGE 01 STATE 113385
63
ORIGIN EUR-25
INFO OCT-01 ISO-00 CIAE-00 DODE-00 PM-07 H-03 INR-10 L-03
NSAE-00 NSC-07 PA-04 RSC-01 PRS-01 SP-03 SS-20
USIA-15 IO-14 AF-10 SAM-01 EB-11 /136 R
DRAFTED BY EUR/IB:WPKELLY:MS
APPROVED BY EUR - WELLS STABLER
--------------------- 091061
P 301929Z MAY 74
FM SECSTATE WASHDC
TO AMEMBASSY LISBON PRIORITY
C O N F I D E N T I A L STATE 113385
E.O. 11652: GDS
TAGS: PFOR, PO, U-S.
SUBJECT: CONVERSATION WITH PORTUGUESE AMBASSADOR TO U.S.
1. AMBASSADOR THEMIDO (JUST RETURNED FROM CONSULTATION IN
LISBON) CALLED ON ACTING ASSISTANT SECRETARY STABLER LATE
AFTERNOON MAY 28 TO DELIVER LETTER FROM FOREIGN MINISTER
SOARES TO SECRETARY THANKING HIM FOR HIS MESSAGE AND TO
CONVEY--UNDER INSTRUCTIONS--SOARES' STRONGLY EXPRESSED
DESIRE FOR STRENGTHENED PORTUGUESE RELATIONS WITH U.S.
COPY OF LETTER BEING POUCHED FOR POST INFO. MAJOR
ELEMENTS OF CONVERSATION ARE SUMMARIZED BELOW.
(...)
5. STABLER ASKED HOW THE PROVISIONAL GOVERNMENT OPERATES
VIS-A-VIS THE JUNTA. THEMIDO REPLIED THAT THE PG
IMPLEMENTS THE PROGRAM DEFINED BY THE JUNTA AND THE ARMED
FORCES MOVEMENT BUT THAT THE JUNTA CONCERNS ITSELF
PRINCIPALLY WITH BROAD GUIDELINES FOR SOLVING THE MAJOR
ECONOMIC AND POLITICAL PROBLEMS OF THE COUNTRY, E.G.
LABOR DIFFICULTIES AND THE OVERSEAS TERRITORIES. THEMIDO
EXPLAINED WHY COMMUNISTS ARE INCLUDED IN THE PROVISIONAL
GOVERNMENT, VOLUNTEERED HIS PERSONAL OPINION THAT CUNHAL
HAS BEEN "RESPONSIBLE" THUS FAR IN THE STATEMENTS HE
HAS MADE, AND SAID THAT ELECTIONS WILL CLEARLY SHOW WHERE
PORTUGAL IS GOING POLITICALLY (WHICH THEMIDO SEEMED TO
THINK WAS TOWARD THE CENTER).

Duas semanas antes, a embaixada norte-americana em Lisboa apresentava, em cinco linhas, Cunhal, então nomeado ministro sem pasta no Governo Provisório, como um comunista, “duro” e “disciplinado”, actualmente líder do PCP, e que nos últimos 14 anos viveu em Praga.
Ver o telegrama na íntegra aqui


CONFIDENTIAL
PAGE 01 LISBON 01949 01 OF 02 161602Z
43
ACTION EUR-25
INFO OCT-01 AF-10 ARA-16 NEA-14 ISO-00 EURE-00 SSO-00
NSCE-00 USIE-00 INRE-00 CIAE-00 PM-07 H-03 INR-10
L-03 NSAE-00 NSC-07 PA-04 RSC-01 PRS-01 SP-03 SS-20
SAM-01 OMB-01 NIC-01 SAJ-01 SSC-01 DRC-01 /131 W
--------------------- 044774
O R 161500Z MAY 74
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC IMMEDIATE 9610
INFO Z/AMEMBASSY BRASILIA 152
AMEMBASSY CONAKRY
AMEMBASSY DAKAR
AMCONSUL LOURENCO MARQUES
AMCONSUL LUANDA
AMEMBASSY LUSAKA
AMEMBASSY MADRID
AMCONSUL OPORTO UNN
AMCONSUL PONTA DELGADA UNN
AMEMBASSY RABAT
AMEMBASSY PRETORIA
USCINCEUR
CINCLANT
DIA
COMUSFORAZ
USMISSION NATO
C O N F I D E N T I A L SECTION 1 OF 2 LISBON 1949
E.O. 11652: GDS
TAGS: PINT, PGOV, PO
SUBJ: PROVISIONAL GOVERNMENT NAMED

(…)
3. MINISTER WITHOUT PORTFOLIO ALVARO CUNHAL, 50, IS A TOUGH,
DISCIPLINED LIFE-LONG COMMUNIST PRESENTLY SERVING
AS PCP SECRETARY GENERAL. FOR PAST FOURTEEN YEARS
HE HAS LIVED IN PRAGUE. HE HAS SPENT TWELVE YEARS IN
PORTUGUESE PRISONS.

Sunday, May 18, 2008

O que Kissinger dizia de Portugal em 1975



Esta é a transcrição de uma conversa telefónica entre o secretário de Estado, Henry Kissinger, e o subsecretário de Estado para os Assuntos Europeus, Art Hartman, em 17 de Julho de 1975. Por essa altura, há muito tinha terminado a fase do "wait and see" e do cepticismo do homem forte do Departamento de Estado. Kissinger quer acção e está muito bem informado do que se passava nas ruas e nos corredores do poder. O objectivo de pôr o camarada Vasco na rua é claro e explícito! O texto foi publicado no DN e também está no livro. A fonte deste documento é o FOIA do Departamento de Estado.

Hartman Temos uma reunião do gabinete marcada para as 12:30. Quer reunir antes disso?
Kissinger OK, pode ser às 12:30. Mas, entretanto, podemos enviar uma mensagem a Carlucci [embaixador em Lisboa]: se ele quer trazer de Portugal um prémio de boas maneiras democráticas? E Costa Gomes compreende que se ele tomar a iniciativa nós apoiamos?

H Bom, ah...
K Sim ou não?
H Não sei dizer...
K Estamos a fazer alguma coisa quanto a esta crise ou estamos a pensar...no que fazer.
H Não, estamos a pensar dar o nosso apoio público.
K Mas o que estamos realmente a fazer?
H Não sei o que estamos a fazer. Ele [Carlucci] está a conversar com eles.
K Mas o que está ele a dizer?
H Ele diz que os elementos democráticos deveriam ser apoiados.
K Isso significa o quê?
H Significa apoiar Soares e o PPD, dar o poder aos oficiais moderados [do MFA] e pôr [o primeiro-ministro, Vasco] Gonçalves na rua. Mas ele [Carlucci] está a fazer as coisas calmamente com as pessoas com quem tem falado.
K E com quem tem ele falado?
H Ele teve uma conversa com [Melo] Antunes e com algumas pessoas do seu gabinete e...
K Para mim, Soares e o PPD são uma dor de cabeça. Eu quero que os moderados... vençam. (...)
K Espero que ele [Carlucci] esteja a fazer tudo ao seu alcance para Costa Gomes e [Melo] Antunes entenderem que nós os apoiamos no seu esforço para que ganhe o grupo dos moderados. (...)
H Há um perigo - é se eles devem livrar-se já de Gonçalves. A situação económica é muito má.
K Nós vamos ajudar.
H Sim, mas a situação é muito má e...
K Art... Se nos livrarmos de Gonçalves, eu depois resolvo esse problema.
H OK.
K Isso não me preocupa muito. Se nos livrarmos de Gonçalves e da sua equipa, deixe-me ser eu a preocupar-me com a situação económica. (...)
H Depois haverá cada vez menos ligações com os comunistas.
K É verdade. E se conseguirmos que os comunistas avancem, podemos esmagá-los.
H Bom, eles andam todos nas ruas.
K Quem? Os comunistas?
H Tanto os comunistas como os socialistas. [Otelo Saraiva de] Carvalho distanciou-se agora um pouco de [Vasco] Gonçalves. O que pode acabar por ser uma ajuda para os moderados. Mas eu acho que, a certa altura, ele vai querer poder.

E agora o comunicado conjunto

Este foi o comunicado conjunto publicado depois das conversações em Washington, a que chamo de "missão impossível" para o general Costa Gomes.

Joint Communique Following Discussions With President Francisco da Costa Gomes of Portugal.
October 18th, 1974
AT THE INVITATION of President Ford, His Excellency Francisco da Costa Gomes, President of the Republic of Portugal, visited Washington on October 18. President Costa Gomes, who was accompanied by the Foreign Minister, Dr. Mario Soares, had meetings with President Ford and with Secretary of State Kissinger and was the guest of honor at a luncheon given by Secretary Kissinger.
President Costa Gomes outlined the achievements of the Portuguese Government in light of recent events in restoring civil and political liberties to Portugal and in creating the basis for a return to democracy. He reported on the negotiations which had led to the independence of Guinea-Bissau and explained his government's plans for the granting of self-determination and independence to the remaining overseas territories. He reaffirmed his government's commitment to the North Atlantic Treaty and its desire to develop even closer ties to the United States.
President Ford expressed his admiration for the statesmanship shown by Portuguese leaders in undertaking to restore democracy to Portugal by holding free elections soon and in making possible the enjoyment of the right of self-determination and independence by the peoples of Portugal's overseas territories. He noted with pleasure President Costa Gomes' reaffirmation of Portugal's commitment to NATO and expressed his confidence that ties between the United States and Portugal will become ever closer.
The two Presidents agreed that, as these developments proceed, it would be in our mutual interest to intensify the cooperation between the two countries to embrace new activities in a broad range of areas, such as education, health, energy, agriculture, transportation and communications, among others. They agreed that this expansion of their cooperation could begin with technical talks in the fields of agriculture, public health, education and financial and economic matters, as requested by the Portuguese authorities.
They also agreed that the two countries should continue and intensify negotiations relating to cooperation in the Azores.


John Woolley and Gerhard Peters, The American Presidency Project. Santa Barbara, CA: University of California
The American Presidency Project (americanpresidency.org)

As relações atribuladas de Costa Gomes com os EUA


Um dos capítulos sobre Costa Gomes teve a sua inspiração neste artigo, publicado no DN a 1 de Agosto de 2005, numa série de artigos sobre o "Verão Quente". Esta foi resumidamente a conversa de Costa Gomes com Ford e Kissinger, que no livro surge mais desenvolvida e circinstanciada. No "post" seguinte, publico o cinzento comunicado conjunto emitido depois da reunião...

Costa Gomes quis sossegar os EUA

O general Costa Gomes foi, no Verão Quente de 1975, um aliado tácito dos Estados Unidos, apesar das desconfianças, tanto do embaixador norte-americano em Lisboa Frank Carlucci como do próprio secretário de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, com quem o então Presidente se reuniu a 18 de Outubro de 1974. O memorando dessa conversa, na Sala Oval da Casa Branca, foi desclassificado este ano pela Gerald Ford Library, nos EUA, e revela como o general tentou convencer a administração norte-americana de que haveria poucos riscos da formação de um "governo predominantemente comunista" - tese que manteve durante anos a fio. E começou por apresentar-se como "admirador especial dos Estados Unidos", já que estivera colocado dois anos na base da NATO de Norfolk... Aproveitando para "clarificar" o que se passava então no País, o general explicou ao presidente Gerald Ford e a Henry Kissinger a "profunda e súbita" transformação de Portugal, que deixou de ser uma ditadura para "voltar a conquistar a liberdade". Garantindo o empenhamento "do Governo, das Forças Armadas" no estabelecimento de um regime "democrático, com liberdade para todos", a sua fidelidade aos compromissos internacionais e à NATO. A seguir, falou dos problemas do País. Da descolonização. Da crise económica, "um problema muito sério". "Se não for resolvido, pode levar à vitória da extrema-direita ou da extrema-esquerda", aler- tou Costa Gomes. E é depois que dá explicações sobre a influência dos comunistas em Portugal e no Governo. O encontro de Costa Gomes na Casa Branca, recorde-se, ocorreu depois do 28 de Setembro e da tentativa de "golpe" de Spínola, que renunciou ao cargo de Presidente da República com um discurso pessimista sobre o País. Na Sala Oval, o presidente tentou convencer Ford e Kissinger do "grande sentimento anticomunista dos portugueses". "A maior parte da população vive no Norte, onde a influência dos comunistas é nula", garantiu, descrente de eventuais hegemonias dos comunistas. O mesmo argumento, ironicamente, ouviu-o do líder soviético, Leonid Brejnev, na visita que fez, em 1975, a Moscovo, aconselhando-o a não "mudar de regime"... Gerald Ford interrompe, algumas vezes faz perguntas e diz que, para Washington, é importante que Portugal faça "reformas democráticas", a começar pelas eleições. Resposta do general "É muito importante para nós - um ponto de honra -- que as eleições vão para a frente." Antevendo, desde logo, que "os comunistas, nas urnas, não iriam ter a força que muitos receiam." [Nas eleições para a Constituinte tiveram 12,5% dos votos].A conversa com Gerald Ford estava quase no fim. Seguiu-se o famoso almoço em que Kissinger comparou Mário Soares a Kerensky. O diálogo entre o presidente português e Henry Kissinger foi tenso a propósito do papel dos militares na "revolução" portuguesa, como lembra Costa Gomes no livro "O Último Marechal". Apesar da tensão, os Estados Unidos da América consideravam o presidente um aliado, a quem confiavam, em exclusivo, o tratamento de assuntos sensíveis da NATO. A desconfiança era muita, a ponto de Gerald Ford, numa reunião do governo, a 4 de Junho de 1975, ter dito que os Estados Unidos receavam que Portugal quisesse continuar na Aliança Atlântica para "servir os interesses dos comunistas"...

Saturday, May 17, 2008

E agora no Contraditório, da Antena 1

Um obrigado à Ana Sá Lopes pela referência ao livro no Contraditório de sexta-feira, na Antena 1.


Foi numa sala como esta e com estes personagens à volta da mesa do gabinete de Gerald Ford ou do National Security Council, na Casa Branca, que se discutia a “revolução dos cravos” em Portugal, em 1974 e 1975.

Friday, May 16, 2008

Costa Gomes em Washington, em Outubro de 1974


Outro dos capítulos do livro - Costa Gomes- Missão a Washington de um aliado improvável" - aborda o encontro do general Costa Gomes, Presidente da República, em Outubro de 1974, com o presidente norte-americano, Gerald Ford e o secretário de Estado, Henry Kissinger. Mário Soares, líder do PS e ministro dos Negócios Estrangeiros, também esteve em Washington. Costa Gomes era presidente de um país que tinha como primeiro-ministro outro militar que, durante meses, foi uma verdadeira obsessão para os norte-americanos - o general Vasco Gonçalves. Um adversário que, curiosamente, o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Frank Carlucci, respeitava...

Um documento da Ford Library



Um exemplo de documento da Ford Library. No caso é um memorando de uma reunião do gabinete de Ford, na Casa Branca, a 4 de Junho de 1975, após uma visita do presidente norte-americano à Europa e uma cimeira da NATO, em Bruxelas, durante a qual se reuniu com o primeiro-ministro português, general Vasco Gonçalves.
Esta reunião de Ford, Kissinger com Vasco Gonçalves - cujo memorando não está "on-line" - serviu de base a um capítulo do livro: "Diálogo de surdos em Bruxelas – O frente-a-frente de Vasco Gonçalves com Ford e Kissinger".
De regresso a Washington, foi nesta reunião que Kissinger afirmou que o governo português poderia estar a fazer o jogo dos comunistas.

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DECLASSIFIED
E.O. 12958 Sec. 3.6
MR 95-83, #24, NSC ltr 6/25/96
By let, NARA, Date 1/16/97


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THE WHITE HOUSE
WASHINGTON


Notes of the Cabinet Meeting June 4th, 1975 - 2:00 p.m.

The President entered the Cabinet Room at 2:10 p.m.
The Press entered at 2:12 p.m.; departed at 2:15 p.m.

The President opened the meeting and thanked the members of the Cabinet and staff for the warm welcome. He indicated that a major vote had just taken place and that the Administration sustained the veto on the Jobs Bill by a vote of 277 to 145. He mentioned that one week to ten days ago, the Administration could not have sustained the veto. The message the President gave to the Republicans was that if Republicans could not hold the line on this one, it would open the flood gate. The President was generous in his praise for everyone, specifically naming (for their testimony) Weinberger, Morton, and Zarb; and for the Congressional effort, Jack Marsh and Max Friedersdorf. The President added that he believed this was a significant victory, a major victory, and perhaps the most important vote for the Administration since he has been President.

The President then began his discussion of foreign policy, indicating that he left with hopes and returned with no regrets. That in discussing that which had transpired in Europe on the return flight, the feeling was that they were very satisfied; it was a successful trip and they made all of the headway they had hoped to make. The President believed the meeting with NATO was important for several reasons: 1) To strengthen the Alliance, 2) To indicate his personal interest in and maintenance of European relationships; and 3) Also, to serve notice that the Alliance needs to recognize Spain as a part of NATO for the defense of Europe. The United States has an arrangement with Spain, which adds to the total defense of Europe.

Historically, the European Community has not welcomed Spain because of its dictatorship and support of the German Empire during World War II.

The President's discussion with the Prime Minister of Portugal was cordial. The United States was very firm and blunt in its discussion with him. The United States indicated to the Prime Minister that it sees many deficiencies in its present Government. In fact, the President asked him to de-

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scribe his system of Government and it took the Prime Minister some twenty minutes just to tell the President how his Government makes decisions. It was suggested that the system was a bit chaotic. The President indicated that he believed there could not be a double standard, one for Spain and one for Portugal, in the United States' relationship with the two countries. Therefore, it was important that the United States maintains an interest in, and be candid with Portugal.

In Spain the President's efforts concentrated on the military situation and the maintenance of the United States air bases there. It is important to Western Europe to have the Mediterranean area secure and United States bases in Spain add to that security. The President was warmly received in Spain and there were huge crowds on his motorcade route.

In Austria the President indicated he tumbled into Austria, but that he really felt that Betty had tripped him, then ran away and left him to get to his feet all by himself. He indicated that the meeting with Sadat was excellent and the personal rapport between the two leaders is very good. He did indicate to Sadat that the United States was continuing its reassessment of the Middle East and that the United States wants to explore all facts, options, and possibilities. The President feels there are three choices to be made: 1) Resume step-by step diplomacy, 2) Develop a comprehensive settlement, which would raise serious problems with final frontiers, and 3) Specific bilateral agreements within the parameters of the comprehensive plan. The President indicated to Sadat that all of those would be taken into consideration during the reassessment.

In Rome the President discussed the entire underside or belly of NATO, the Mediterranean area, Portugal, Turkey, Greece, Spain, and all of the problems related to that. He believes the Italians are making good progress on the economic front and while it is not decisive yet, there is a feeling that the Italians are doing a good job. The President said he was very impressed with the people he met in the Government, specifically citing Leone and Moro as being very sharp. He was cordially received and the discussions were very fruitful.

The President mentioned that he had a very impressive audience with the Pope. He had been told the Pope was very sick, however, he appeared to be well, giving the President a good handshake and speaking in a very strong voice. He covered a wide range of topics in a long meeting. He was impressed with the Pope and with the reception at the Vatican.

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The President in summing up his trip to Europe, said the total trip signifies the forward movement and momentum of American foreign policy. In spite of the problems with Vietnam and all of Southeast Asia, the United States will stand firmly by its Allies; it will maintain its commitments, and American foreign policy will be strong and bold in future years.

The President then asked Henry if he cared to make any comments.

Secretary Kissinger said that when the United States first proposed a NATO Meeting, the Allies were not enthusiastic about it. It came at a very difficult time for the United States and no one in NATO was particularly excited about having a meeting.

There was a discussion as to whether or not the United States should take new and creative measures, even some gimmickry in getting this group together. The final decision was made by the President, when he said he wanted to have a straight forward meeting with NATO with no ploy or gimmicks. Secretary Kissinger's belief was that the major point the President made at NATO is that the U. S. is back in business. The United States knew what it was doing, had a firm commitment, and showed clear direction in its discussion with other countries.

An example of the kind of impression left was best summed up by Prime Minister Trudeau of Canada. Trudeau told others at one of the closing sessions, that the meeting was so good and so beneficial, that it should be institutionalized. He indicated that NATO should cover the entire agenda of issues before world countries as opposed to just defense. Since Canada has been a rather reluctant partner in NATO from time to time, it is interesting that he should be so enthusiastic.

The Secretary noted that the framework was created at Brussels for a good discussion with regard to Turkey and Greece. The real cog seems to be who will put forth the first proposition, since it will then seem that party is making the concession. So the policy seems to be at a point where one country or the other will put forth a major proposal.

The Secretary said that the only political party in Portugal is the military. The others for all intents and purposes were dead. His basic question about Portugal is why do they stay in NATO, and there seems to be two answers: 1) Because the public is not ready to accept the fact that they might pull out, and 2) Perhaps they are staying in to serve the Communist purpose.

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The big problem in Spain, of course, is how influential can the United States be in keeping Spain from going like Portugal when Franco dies. Therefore, the President met with Franco, as well as Juan Carlos and Arias to be certain the United States was clearly identified with the transitional power and the succession of Franco. (...)


Cabinet Meeting Minutes, 6/4/75, Box 4, James E. Connor Files, Gerald R. Ford Library.

Tuesday, May 13, 2008

A opinião de Mário Soares no DN












Mário Soares é um dos personagens do meu livro, a par de Vasco Gonçalves, Costa Gomes, Henry Kissinger ou Frank Carlucci.
Num artigo publicado hoje no DN, Mário Soares faz uma referência ao meu livro. Assim:

"3.Dois livros importantes. No curto espaço de poucos meses, saíram, em Portugal, dois livros, extremamente interessantes, para o conhecimento da história contemporânea portuguesa após a Revolução dos Cravos: o que estava em jogo e as suas consequências possíveis. Ambos, com uma informação rigorosa, reflectindo as visões necessariamente opostas, soviética e americana, das duas superpotências rivais, nesse tempo, relativamente à Revolução portuguesa de 1974-1975. Curiosamente, a Revolução foi completamente inesperada - e constituiu mesmo uma surpresa - para ambas. Os livros editados por Temas e Debates e Alêtheia Editores têm por autores o russo Sergei Yastrzhembskiy, que esteve vários meses em Portugal, nesse período, e pelo jornalista português Nuno Simas, que teve acesso - e transcreve - aos documentos secretos americanos, agora desclassificados, desse período. Intitulam-se respectivamente: Mário Soares e a Democracia Portuguesa, Vistos da Rússia; e Portugal Classificado - Documentos Secretos Norte-Americanos (1974-1975).
Pelo seu rigor e novidade - e porque no fundo se completam, apesar de escritos de ângulos e perspectivas opostas - vale a pena lê-los, com atenção, para um melhor conhecimento do que foi a Revolução e o período conturbado do PREC, bem como do que esteve em jogo e dos riscos que então se correram...
"

Monday, May 12, 2008

Cunhal não gostou...

e chamou "mentiroso" a Brejnev. Mas essa é outra história.

Brejnev a Kissinger: “Nunca pus a vista em cima de Cunhal”…



A 21 de Janeiro de 1976, uma quarta-feira, o secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, encontra-se, no Kremlin, com o líder soviético, Leonid Brejnev. Das 11:00 da manhã às 13:50, conversaram à volta da mesa, com extensas delegações, de parte a parte. O diálogo chegou a ser tenso, especialmente sobre a situação em Angola e o apoio soviético à intervenção cubana em Angola e ao MPLA de Agostinho Neto, um tema que se atravessou nas conversações sobre o acordo de limitação de armas estratégicas (SALT).
Em Portugal, a “revolução” perdera força depois do 25 de Novembro. Dois meses após a independência, o MPLA já governava, sozinho, e Brejnev aumentara o apoio ao recém-fundada, a 11 de Novembro de 1975, República Popular de Angola, incluindo cedência de aviões de transporte para as forças cubanas, o que era considerado uma provocação em Washington. (1) É neste contexto que surge o desabafo de Leonid Brejnev a meio das conversações com Kissinger nessa manhã de 21 de Janeiro de 1976 sobre a situação portuguesa que entretanto acalmara após o 25 de Novembro de 1975.
Na conversa, Kissinger advertia Brejnev que seria “intolerável” um intervenção de uma país ocidental em África e que o apoio da União Soviética à intervenção cubana em Angola abria “um precedente” que os Estados Unidos tinha de analisar, podem originar uma “cadeia de reacções com potenciais resultados desastrosos”.

Leonid Brejnev: Está a falar, de alguma maneira, na ameaça de surgir uma guerra.
Henry Kissinger:. Não é uma ameaça de guerra, sr. secretário-geral. Mas se todos os países se comportarem assim, pode evoluir-se para uma situação muito perigosa.
Brejnev: Penso que temos de concentrar-nos primeiro na discussão do acordo SALT. Se continuarmos a falar de outros assuntos, não conseguimos nada.
Estava eu muito descansado quando de repente ouvimos falar dos acontecimentos em Portugal [o 25 de Abril], de que nada sabíamos. Depois, oiço dizer que [o presidente] Costa Gomes quer visitar a União Soviética. Recebi-o. Pode ler o comunicado conjunto. Prometemos-lhe comércio. E depois? Temos [acordos de] comércio com muitos países. E quanto ao líder do Partido Comunista – Álvaro Cunhal – nunca lhe pus a vista em cima em toda a minha vida.
Depois surge a situação em Angola, com a independência de Portugal. [Agostinho] Neto aproxima-se de Cuba (…), Cuba concorda ajudar [os angolanos]. Não há qualquer presença militar soviética em Angola.
(…)
Estamos aqui para discutir o acordo SALT? Ou Angola? (…) Nós não queremos nada de Angola. No entanto, o mundo inteiro lê na imprensa internacional que o Ocidente, a América, está a enviar armas e mercenários para Angola. O senhor dirige todas as atenções para aí. Eu nunca estive em Portugal; nós não somos responsáveis pelo que lá está a passar-se…” (2)


As referências a Portugal acabam aqui. Das palavras de Brejnev há algumas interpretações a tirar. A primeira, é que os soviéticos queriam tudo menos ser associados à experiência portuguesa, que poderia tornar-se num empecilho para a détente. E, sendo certo que não conhecia Cunhal, o facto é que as relações do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) com os partidos comunistas ocidentais estavam a cargo de Mikhail Suslov, ideólogo e membro do Politburo e velho conhecido de Cunhal desde os anos 50, após o reatamento das relações do PCP com Moscovo.
Já quanto à questão do acordo de comércio entre Portugal e a União Soviética, levantada pelo líder soviético, essa era uma preocupação dos diplomatas, como o embaixador norte-americano em Moscovo, Walter Stoessel. Face ao cenário de “vazio económico” em Portugal, não seria de “afastar essa hipótese de a União Soviética vir a prestar apoio económico a Portugal”, concluiu o diplomata norte-americano num telegrama para o Departamento de Estado, após um encontro, a 01 de Abril de 1975, com o embaixador português na capital soviética, Mário Neves. (3)

(1) BURR, William, “The Kissinger Transcripts – The Top-Secret Talks with Beijing and Moscow”, The New Press, New York, 1998.
(2) Memorandum of conversation, January 21, 1976, Brezhnev, Kissinger, “SALT, Angola”, State Department Freedom of Information Release (copy at National Security Archive)
(3) Telegram 04445, 01 Apr, 1975, American Embassy Moscow to Department of State, “Talk with Portuguese Ambassador to Moscow”, State Department, National Archives,

Uma história com Brejnev e Cunhal (I)

No post seguinte, vou colocar uma das "pequenas histórias" incluídas no livro.

Friday, May 09, 2008

O livro na rádio

A entrevista foi na RDP, a 05 de Maio, mas só hoje tenho o "link". Ouvir no "podcast" da Antena 1. Mas a estreia radiofónica do autor foi a 23 de Abril numa rádio da concorrência, a Rádio Clube, numa conversa que durou quase uma hora com o Alexandre Honrado, no programa "Estado do Dia" (pena não ter "podcast"...). Uma conversa que passou pela situação do PSD, uma análise ao estado do dia noticioso, e pelo livro, claro

A apresentação

A apresentação do livro foi no auditório da sede da Alêtheia, em Lisboa. A notícia é da Lusa, mas o “link” é do Diário Digital.

Thursday, May 08, 2008

O livro, a notícia no Parlamento Global e na SIC-N

O livro e a estória da história em video. Aqui, no Parlamento Global, projecto da SIC/RR/Expresso. Depois, foi exibido na SIC-Notícias.

Saturday, May 03, 2008

Os Açores e a independência

Post no blog mautemponojornal.

Antes morrer livres que em paz sujeitos

“Como reagiriam os europeus se os Açores se separassem de Portugal e declarassem a independência?”, pergunta Gerald Ford, presidente dos EUA, a Helmut Schmidt, chanceler da República Federal Alemã. Resposta: “A independência dos Açores não seria justificada aos olhos da Europa ocidental.” Contexto: início do Verão quente, Maio de 1975. O diálogo está reproduzido no capítulo “Açores, Lajes e independência” do livro Portugal Classificado: Documentos Secretos Norte Americanos 1974-1975, da autoria do jornalista Nuno Simas. As centenas de documentos divulgados pela CIA permitem traçar um retrato interessantíssimo sobre o processo “independentista” dos Açores. E desmontar alguns mitos insulares, como o de que os EUA apoiariam os golpistas açorianos na eventualidade do continente enveredar por caminhos totalitários. Ao que parece, havia o receio da administração americana que qualquer conotação com a Frente de Libertação dos Açores (FLA) enfurecesse a esquerda e extrema-esquerda portuguesa, o que poria em risco a manutenção da base das Lajes. Passados trinta anos, a organização “separatista” subsiste apenas no imaginário de meia-dúzia de românticos. Faltou-lhe um ícone para sobreviver, nunca com os objectivos de 1975, mas como ideologia utópica. E faltou, também, a recuperação histórica e literária da aventura (ensaiada por Daniel de Sá, no seu blogue). Este livro poderá ser o primeiro passo para que algum dia se escreva a verdadeira história da FLA.

O "post" de Pedro Barros Costa coloca uma questão interessante. Estariam os EUA mesmo interessados em dar apoio aos independentistas? Acredito que não. Estariam apenas interessados em dar oxigénio. A diferença? Não apoiar directamente, mas acompanhar e conhecer suficientemente a estrutura da FLA para o caso de dela necessitarem. Numa emergência.
É essa posição difusa, penso, que ainda hoje leva muita gente, em Lisboa e nos Açores, a ter olhares tão diferentes sobre este capítulo por escrever da nossa História recente. Ou a ilusão da promessa de apoio…
Em caso de guerra civil, utilizariam os EUA as pistolas e as caçadeiras da FLA e as espingardas do MDLP, de Spínola, e do ELP?… Essa é a grande dúvida, apesar de todos os documentos desclassificados. Mas em 1975, e para a estratégia do sr. Carlucci e de parte do Departamento de Estado, uma coisa parece certa: a FLA eram má companhia!!!

Thursday, May 01, 2008

A apresentação é na quinta-feira, às 18:30...


... no auditório da editora, a Alêtheia, em Lisboa.

O apresentador é o dr. Pacheco Pereira.

O convite, de Paulo Sousa, é simples e elegante, como se pode ver...

Câmara de Comuns e debate

No Camara de Comuns, Paulo Ferreira faz uma referência ao livro, que logo mereceu o comentário de um leitor, tric: "é o que se chama uma visão parcial!! para enquadrar melhor o contexto o dito jornaista deveria tambem mencionar as manobras secretas dos comunas de Moscovo , e assim talvez se percebesse melhor esse tempo..."

Paulo Ferreira respondeu, e bem: "Totalmente de acordo, o problema é que os serviços secretos americanos ainda vão desclassificando documentos desta indole, os serviços secretos da ex URSS, e não só o KGB, tem de certeza muita documentação a "sugerir" financiamento e formação a quadros de um determinado partido politico, mas ´dos muitos documentos que de lá sairam ´na fase pós perestroika, não me lembro de nada sobre Portugal.
Devem estar guardados juntamente com alguns documentos que, se calhar, até provam o envolvimento de empresas portuguesas na "circulação" de verbas para apoio de um partido e quiça até dum movimento terrorista....
Com todos os seus defeitos a democracia norte americana ainda tem alguns mecanismos de auto-vigilância e auto-controle que se não impedem muitos abusos, mais tarde ou mais cedo acabam por denunciá-los e expô-los.
Ao contrário , por exemlo, de "regimes" como o actual de Moscovo e mesmo de jovens democracias como a nossa."


Este é o meu comentário:
Paulo Ferreira respondeu bem a tric... Os arquivos da ex-URSS são virtualmente inacessíveis, a começar pela língua, o obstáculo que, ainda assim, deve ser o mais fácil de transpor. Contudo, com o tempo vários ex-responsáveis do PCP vão contando o seu lado da história, como Raimundo Narciso, por exemplo, sobre o 25 de Novembro. Mas a investigação vai continuando e - felizmente - não serei o único. Algum dia irão ser desclassificados documentos da CIA, e do Comité dos 40, por exemplo. Muita gente, testemunha e personagens da História, está viva e isso é um obstáculo à desclassificação de documentos, por exemplo. Uma das coisas curiosas em alguns documentos da CIA são os indícios de que estavam bem informados, pelo menos a partir de Moscovo, sobre as estratégias dos "comunas" em Portugal, para usar a terminologia de tric...