Sunday, January 06, 2013
Callaghan evitou envolver soviéticos na crise de março
Tuesday, January 01, 2013
… a “dr Soares” em 24 de julho de 1975
Passa mais de um ano sobre a primeira análise ao golpe em Lisboa. À mesma mesa de Downing Street, a 24 de julho de 1975, voltam a sentar-se Harold Wilson, James Callaghan. Portugal está na agenda. Em Londres e não só; também em Paris, Washington, Pequim, Moscovo. O cenário era muito diferente de maio de 1974. Há uma revolução vermelha nas ruas de Lisboa.
Os britânicos olhavam a situação “confusa” de Portugal, com Soares a querer derrubar o Governo de Vasco Gonçalves; havia o risco de um golpe de Estado da parte do PCP e da esquerda militar, concluíam eles.
A poucos dias da Cimeira de Helsínquia, Wilson planeava falar, juntamente com o presidente da França, Giscard d’Estaing, ao líder soviético, Leonid Brejnev, sobre Portugal e os riscos, para a política de “detente”, de um envolvimento da URSS nos acontecimentos em Portugal.
“Não havia dúvidas de que a União Soviética estava a fornecer fundos substanciais ao Partido Comunista Português, então o sr. Brejnev tem o poder, ainda que parcialmente, para controlar a situação, como prova de empenhamento na ‘detente ‘”, lê-se na ata da reunião de ministros britânicos*.
Nos arquivos norte-americanos há, também, documentos a atestar este plano de Wilson e Giscard. E até um telegrama do Departamento de Estado norte-americano a relatar que Brezhnev terá dito que ia analisar o pedido…
Harold Wilson era um dos líderes europeus que tinha planeado estar presente num encontro de solidariedade da Internacional Socialista com Portugal, em Estocolmo. Mário Soares era agora uma das figuras centrais da política portuguesa contra o avanço “vermelho” em Portugal. Em Estocolmo, lá estiveram Willy Brandt, Olof Palme, François Miterrand e Yitzak Rabin.
Na ata, Soares já não era o “senhor Soares”, mas sim “dr. Soares”…
Londres, 02 de maio de 1974: De “Senhor Soares”…
No texto da ata (ver página oito do documento na página dos National Archives*) são curiosas as informações relatadas: sobre a visita de Soares a Londres, como “emissário de Spinola”, e o desejo dos comunistas de participarem no Governo saído do 25 de abril.
Pode não parecer novidade, mas Mário Soares também tem uma confissão, no relato feito por Callaghan: a ambição de ser primeiro-ministro.
Apesar dos “grandes problemas” que Portugal vai enfrentar na transição de um “Estado totalitário para uma democracia”, Callaghan dizia acreditar que estava criada “uma oportunidade” para os portugueses.
Problemático era o dossier da descolonização – primeiro tema de fricção entre os militares do MFA e Spínola. Pela ata percebe-se que “o novo regime” acolheria de bom grado conselhos sobre o tema vindos de Londres...
Curiosa é a forma como Soares, secretário-geral do PS, era tratado na ata: “Senhor Soares”. Assim mesmo, com “n” e “h”. Um ano depois, já seria diferente.
Monday, December 31, 2012
Thatcher Papers: Um português nos "papéis" de 1981 e 1982
E há um português... claro. Não se sabe é quem num documento sobre alegada vigilância pela URSS com aviões civis. Quem fez um pouco de investigação sobre o assunto sabe das alegações sobre as preocupações das autoridades aeronáuticas portugueses com os aviões da aeroflot depois do 25 de abril de 1974.
Ao tratar a "papelada" de Thatcher, o Express alega isso mesmo, que havia aviões civis a fazer atividades de espionagem. Um espião soviético foi detido 1981, em Londres, num "encontro clandestino com um cidadão português".
Ler a notícia completa aqui:
http://www.express.co.uk/posts/view/367354/USSR-used-civilian-planes-to-spy-
Sunday, October 10, 2010
Sunday, June 20, 2010
Spínola: a conversa que deixou Nixon proecupado com Portugal
O presidente da Junta de Salvação Nacional (JSN) apostou forte nesse breve encontro durante uma escala pelos Açores de Nixon e comitiva no regresso a Wasington, após uma visita ao Médio Oriente. Queria o apoio dos Estados Unidos ao seu modelo de descolonização a duas velocidades, bem diferente do que queriam Soares e os militares, cansados de 13 anos de guerra colonial. Em vão.
Nixon não quis comprometer-se. Numa fase em que a administração norte-americana ainda olhava a revolução portuguesa com expectativa, limitou-se a umas promessas mais ou menos genéricas de apoio.
Mas o frente-a-frente nessa manhã de 19 de Junho não foi tão inconsequente quanto isso. A verdade é que o conteúdo da conversa continua classificada nos arquivos norte-americanos – apesar de Spínola ter feito o seu relato no livro País sem Rumo. Passados 36 anos, das sete páginas do dossier sobre a cimeira apenas uma foi desclassificada. É um memorando de Brent Scowcroft. Mas, mesmo assim, há partes "apagadas".
Scowcroft, num memorando datado de 11 de Julho para Henry Kissinger, o todo-poderoso secretário de Estado, escrevia que em anexo apresentava o que julgava ser uma "pobre versão" da reunião entre os presidente norte-americano e português. A pedido de Spínola, o conselheiro de segurança lembrava que fora a dois, "dado que não confiava em ninguém que o acompanhava". O presidente da Junta fora aos Açores acompanhado pelo ministro Sá Carneiro.
Mas nessa altura, apesar de a revolução dos Cravos estugar o passo e Spínola ainda era visto pelo velho aliado como um homem de confiança à frente do Governo, ao contrário do que aconteceu no Verão Quente de 1975, quando o velho general tinha caído em desgraça aos olhos de Washington. Provas de alguma confiança deu - pelo menos formalmente - o presidente norte-americana numa reunião, a 30 de Julho, poucos dias antes de resignar, com o secretário do Tesouro, Kenneth Rush, conselheiro do Presidente, e Brent Scowcroft. Uma ideia corroborada por Witney Schneidman, no seu livro Confronto em África: Washington e a Queda do Império Colonial Português. Os Estados Unidos ainda tinham o seu general de confiança...
"Spínola é bom... O problema é que os comunistas são as únicas forças organizadas em Portugal", comentou Nixon quando falava da situação política na Europa. Franco, em Espanha, estava a morrer. "E depois? Quem sabe?". Se a Espanha "cair" fora do controlo do Ocidente (e tiver um Governo “comunista”, entenda-se), depois é a Itália, antevia ele, lembrando a posição da Grécia e do Turquia no chamado Flanco Sul, onde os EUA até tinham bases militares que serviam a NATO.
Saturday, December 05, 2009
O recado a Mitterrand

Na conversa com Deng, a estratégia anti-comunista era mais uma vez repetida. Henry Kissinger contou ter sido ele a receber, em Washington, François Mitterrand, líder do PSF, e não Gerald Ford, “para ele não fazer propaganda”. E disse-lhe que a administração Ford só manteria relações com ele se Mitterrand rompesse com o “grupo de [George] Marchais”, líder do PCF. Algo de muito idêntico disse Kissinger ao embaixador em Lisboa, Stuart Nash Scott, em 1974. Por causa da participação de Álvaro Cunhal, secretário-geral do PCP, no Governo Provisório.
(…)
The President: We have no objection to the reunification of Germany,
and as a matter of fact consider it inevitable.
(…)
Vice Premier Teng: During Chancellor Schmidt’s visit he said that
they are making efforts to strengthen their tank and anti-tank weapons,
and their surface-to-air missiles. But I told him to be careful as the Soviet
Union might not try to break through the center. It might attempt
the tactic of outflanking Europe. There are not only problems in the
northern wing, but also in the southern wing, and these are more complicated
and important. We have learned from you that recently the
situation in Portugal has improved, but it is possible there might be reversals
and trials of strength again.
The President: We are working closely with various governments
in West Europe, urging them to take strong action in Portugal; and
we ourselves, as I indicated yesterday, are helping to strengthen the
anti-Communist forces in Portugal. I recognize that the situation is not
yet stable, but the progress has been significant in the past several
weeks.
As I told you yesterday, the United States is working with the government
forces against the Communists in Italy and France. And we
think these problems must be recognized by the governments themselves;
and they must be able to take action against the elements in
their own countries. For example, when Mitterrand came to the United
States, we had no contact with him under any circumstances.
Secretary Kissinger: When he came I saw him, not the President,
and only in the presence of the French Ambassador so that he could
make no propaganda. And we told him we would not deal with him
unless he broke with the Marchais group.
Friday, December 04, 2009
Pequim, Dezembro 1975 - Mao: “Portugal parece estar mais estável”
O documento é recente, foi desclassificado em 2008 e publicado nesse ano no XVIII volume do dossier Foreign Relations of the United States (Foreign Relations, 1969–1976, Volume XVIII) , editado pelo Office of the Historian do Departamento de Estado norte-americano. Parte dos memorandos desse volume recebi-os da Ford Library durante a investigação para o “Portugal Classificado”. Mas memorando da conversa de Ford, Kissinger com Mao só me chegou às depois de o livro ser editado, em Abril de 2008. Daí que tenha escrito, erradamente, que a revolução não chegou à mesa das negociações de Kissinger e Mao. Chegou. A discussão não foi profunda e aconteceu em Pequim dias depois do desfecho, com a vitória dos “moderados”, do 25 de Novembro. Ford alerta que os soviéticos estavam a tentar explorar “algumas fraquezas” em Portugal e na Itália, onde a situação política era mais volátil e existiam partidos comunistas com força.
O comentário de Mao é curto. Perante o resultado do 25 de Novembro em Lisboa e a afirmação de Ford sobre as tentações soviéticas, o líder chinês parece concordar com o presidente norte-americano e diz apenas: “Sim, e agora Portugal parece mais estável. Parece estar melhor.”
(…)
President Ford: How are your relations with Western European
countries, Mr. Chairman?
Chairman Mao: They are better, better than our relations with
President Ford: It’s important that our relations with
as well as yours be good to meet the challenge of any Soviet expansion
in
Chairman Mao: Yes. Yes, and on this we have a common point
there with you. We have no conflict of interests in
President Ford: As a matter of fact, Mr. Chairman, some of us believe
that
strengthening of NATO than some of those countries do for themselves.
Chairman Mao: They are too scattered.
President Ford: Some of them are not as strong and forthright as
they should be.
Chairman Mao: As I see it,
not bad.
bit behind.
President Ford: That’s correct. And the
exploit some weaknesses in
we are trying to do so.
Chairman Mao: Yes, and now
seems to be better.
President Ford: Yes, in the last forty-eight hours it has gotten very
encouraging. The forces we support have moved with great strength
and taken the action that is needed to stabilize the situation.
We agree with you that
its resistance against the
what might happen after Tito.
(…)
Ford leva a conversa para Tito e a Jugoslávia, impressionando uma confissão que fez e o elogio à “força e independência” de Ceausescu na Roménia…
Há meses que Kissinger insistia em explicar a política “forte” dos Estados Unidos quanto à União Soviética. Fê-lo com Qiao Guanhua, ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, num encontro sem Setembro, em Nova Iorque. “Onde os soviéticos dão sinais de querer expandir-se, nós resistimos.” Mesmo quando enfrenta as críticas tanto interna como externamente. E é o que repete, já em Outubro, em Pequim, quando se encontra com Deng Xiaoping: Evitar “a expansão soviética” mesmo quando os Estados Unidos estão sozinhos a fazê-lo
(…)
Secretary Kissinger: Let me say one thing. Our assessment of Soviet
tendencies does not differ from yours, but our strategic problem
is different than yours.
Your strategic problem is to call the attention to the dangers of this
tendency. Our strategic problem is to be in a position to resist these
tendencies when they occur. To do this we have to demonstrate for our
domestic situation that no other alternative is available.
Therefore we must use language [descriptive] of our relations
[with the
policies in the
the
or foreign criticism.
(…)
Voltemos a 2 de Dezembro. Gerald Ford explica a importância de manter unida e forte o Flanco Sul da Europa (Portugal, Espanha, Grécia, até a Jugoslávia) para conter “quaisquer esforços expansionistas” da União Soviética. De Portugal volta a falar para perguntar por que não aceita a CEE a adesão de Portugal e Espanha. Foi ainda preciso esperar 11 anos e a democratização plena dos dois países ibérios.
(…)
President Ford: We are very concerned about the situation in
as well, Mr. Chairman. The King we do support. We hope he will be
able to handle the elements that would undermine his regime. And we
will work with him in trying to have the necessary control of the situation
during this period of transition.
Chairman Mao: Yes. And anyway we think it would be good if the
European Common Market accepted them. Why doesn’t the EEC want
President Ford: Mr. Chairman, we urged the NATO alliance to be
more friendly to
King that
we feel that the EEC ought to be responsive to movement by the
Spanish Government toward unity with
We will work in both directions as much as we can.
Secretary Kissinger: They are not radical enough for the Europeans.
Chairman Mao: Is that so? Yes, in the past they had fought each
other. Yes, and in the past you did not curse Franco.
President Ford: No. And we support the new King because
the whole southern belly of
strengthened if we are to meet any expansionist efforts by the Soviet
Chairman Mao: Good. Yes, and we think
President Ford: Yes, they went through a difficult time, but the
new government we feel is moving in the right direction and we
will help them. And we hope they will come back as a full partner in
NATO.
(…)
A conversa avança e evolui para os receios de alguns países europeus quanto ao diálogo entre EUA e URSS. O assunto é levantado por Deng. E é nesta parte da conversa que Kissinger interrompe Ford para dizer que os aliados tinham conversações secretas para “coordenar planos” quanto a Espanha, Portugal, Itália e Jugoslávia. O próximo encontro seria na semana seguinte, em Bruxelas, com os ministros dos Negócios Estrangeiros de França, Alemanha, Reino Unido e Itália. Deng dissera o quanto conveniente seria, para a URSS, a “finlandização”. [Definição de José Cutileiro: “durante a Guerra Fria a independência da Finlândia estava limitada por obrigação tácita de defender os interesses de Moscovo”, Expresso, 29 de Dezembro de 2008].
Vice Premier Teng: (…) As I have said to you just
now, the Europeans have worries on two things: that the United
States and the
détente; and they worry they may start deals over their heads.
Second are the domestic problems, and I presume you know there
are the so-called leftist forces. They worry about the strength of the left.
The President: That, of course, was one of the primary reasons for
meeting at Rambouillet. The six countries—four from
our economic plans because if our economic recoveries are not coordinated
or are not moving ahead at a reasonable rate, there is the possibility
that the leftist forces might increase their strength. But it is our
overall view in the
ahead very well, and I believe at Rambouillet there was a consensus—
many of the economic plans were coordinated.
Vice Premier Teng: The problem I have raised just now, perhaps I
can also by way of suggestion say that if the
with the
worried, and if the European countries are under the impression that
they are not in an important position, then the role they may play in
détente with the
will do too much with their relations with the
and these tactics you have mentioned will affect
for the
the European countries one-by-one, to so-called “Finlandize” the countries
of
The President: Mr. Vice Premier, you should have no apprehension
as to our attitude and feeling toward the
of State is meeting regularly with Ministers of four Western European
countries to coordinate our diplomatic and other matters so that
we are working together and we are not, through détente with the Soviet
Secretary Kissinger (interrupting): We meet secretly once a month
to coordinate plans for
we are even making joint plans, for your information, for common
action regarding
spare the feelings of the others. We will meet again next week in
Vice Premier Teng: We are of the view that the top priority is that
the
problem is relatively difficult, because the European countries are many
and their problems are different, and they are not all in agreement.
We have disagreement on the point that the focus of the Soviet
breaks out in
countries in
and
friends from the West, he told them the unification of the two Germanies
is nothing to be feared.
first homeland.
Documentos citados:
Ford Library, National Security Adviser, Kissinger Reports on USSR,
China, and Middle East Discussions, Box 2, China Memcons and Reports, September 28,
1975, Kissinger’s Meeting with PRC Officials. Top Secret; Sensitive; Eyes Only.
Ford Library, National Security Adviser, Kissinger Reports on USSR,
China, and Middle East Discussions, Box 2, China Memcons and Reports, October 19–23,
1975, Kissinger’s Trip. Top Secret; Nodis.
Ford Library, National Security Adviser, Kissinger Reports on USSR,
China, and Middle East Discussions, Box 2, China Memcons and Reports, December 1–5,
1975, President Ford’s Visit to Peking. Secret; Nodis.
Foto: Gerald R. Ford Library.
Consultas:
Volume completo Foreign Relations, 1969–1976, Volume XVIII:
http://www.state.gov/documents/organization/100316.pdf
Capítulo sobre cimeira de Pequim: "The Summit in Beijing, August–December 1975"
China/1975: Kissinger com Portugal na agenda

Parte das conversações preparatórias de Kissinger em Pequim, em Outubro, para a cimeira de Dezembro de 1975 aparecem descritas no capítulo 6 do livro, “À volta do Mundo” – a diplomacia “passeava” a sua preocupação com Portugal nos encontros, em 1974 e 1975, com os líderes mundiais. Ao contrário do que escrevi no livro, Kissinger e Ford levaram Portugal para a mesa das conversações com Mao, a 2 de Dezembro. E é sobre isso o meu próximo post.
(reproduzo a parte do capítulo sobre essas conversações, incluindo as notas na numeração original. A foto é de Abril de 1974, durante uma visita de Deng a Nova Iorque - Colecção Bettman, Corbis Images)
Kissinger avisa China que Estados Unidos não permitiriam golpe comunista
Henry Kissinger tem, em 1975, uma agenda carregada e reúne-se por diversas vezes com dirigentes políticos da China, incluindo o próprio Mao Tse Tung, em Pequim. Afinal, a China era arqui-rival da União Soviética e, como brincava Kissinger, o “melhor aliado da NATO”… (21)
Em 1974 e 1975, há pelo menos três encontros de Kissinger com líderes chineses em que a revolução portuguesa é abordada. Um, a 27 de Novembro de 1974, juntou Kissinger e o vice-primeiro-ministro Deng Xiaoping em Pequim. Outro foi ao jantar, a 28 de Setembro de 1975, com Qiao Guanhua, ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, nas Torres Waldorf, que estava em Nova Iorque para uma reunião da ONU. Por último, um mês depois, a 21 de Outubro de 1975, Kissinger voltou a encontrar-se com Deng, no Grande Palácio do Povo, em Pequim, pouco antes de um frente-a-frente com o líder chinês, Mao Tse Tung. Com Mao, porém, Portugal é ignorado.
O chefe da diplomacia norte-americana reúne-se a 28 de Setembro de 1974 com Deng Xiaoping. Além da preparação da visita de Gerald Ford, dos perigos de uma guerra nuclear da Jugoslávia e das negociações com a União Soviética para o desarmamento, os dois políticos analisam o eurocomunismo. O secretário de Estado norte-americano está preocupado com o facto de os comunistas italianos e franceses seguirem uma estratégia de se apresentarem como “moderados e muitos responsáveis”. É Kissinger que explica a Deng a estratégia de Washington: “Quando se analisa a nossa política externa tem que compreender que fazemos certas coisas e dizemos certas coisas para paralisar não só a nossa esquerda mas também a esquerda europeia. Por isso, nós opomo-nos, e resistiremos, à entrada da esquerda em governos europeus. Faremos isso em Portugal porque não queremos que seja um modelo para outros países. Faremos o mesmo em Itália. E, claro, em França.
Kissinger dramatiza a determinação da administração norte-americana a “resistir” a uma vitória comunista em eleições na Itália e na França pelo “sério impacto” que teriam na NATO e na conjuntura política da República Federal da Alemanha. Deng Xiaoping responde a Kissinger com uma visão menos dramática quanto ao fenómeno do eurocomunismo e prevê que “eles [os eurocomunistas] são professores pela negativa”.
Do outro lado do mundo, os chineses pouco poderia fazer para ajudar os Estados Unidos a resistir às ameaça vermelha no sul da Europa, como Deng afirmou a Kissinger, para tentar impedir que os aliados dos soviéticos dominassem a situação em Portugal. Mas em ambos os encontros, o secretário de Estado norte-americano parece resoluto em explicar ao governo de Pequim a estratégia de Washington contra o inimigo comum – a União Soviética. É isso que faz com o ministro dos Negócios Estrangeiros no jantar nas Torres Waldorf, em Nova Iorque.
Qiao: Como vê a situação em Portugal?
Kissinger: (…) Como uma superpotência [a URSS] tem estado activa, nós não podíamos ficar atrás. Basicamente pensamos que se trata de uma questão interna portuguesa. E, devido à nossa situação interna [o escândalo Watergate em 1974, no ano do golpe do 25 de Abril, as alegações de apoio ao golpe de direita de Pinochet, no Chile, e a demissão de Richard Nixon], não pudemos fazer muito.
Estamos a trabalhar com os nossos aliados europeus para impedir que os grupos apoiados por Moscovo venham a dominar [o país]. Registaram-se alguns progressos tácticos – um grande avanço táctico [a demissão de Vasco Gonçalves e sua substituição por Pinheiro de Azevedo à frente do Governo] – na situação. O problema agora é saber se os nossos aliados europeus vão celebrar a vitória ou se percebem que esses grupos pró-Moscovo têm de ver sistematicamente reduzida a sua influência.
Qiao: Essa será uma luta a longo prazo. Independentemente do que diga aos seus aliados europeus, nós vamos dizer aos nossos amigos europeus para não sobrevalorizarem a força dos partidos comunistas. Nós conhecemos melhor os partidos comunistas do que vocês. Uma vez, dissemos aos nossos amigos europeus para darem poder aos pretensos partidos comunistas. Deixarem-nos tomar o poder e revelarem-se. Eles responderam-nos que jamais aceitariam isso.
Kissinger: Nem vocês aceitariam. Quer dizer, deixá-los tomar o poder em Portugal ou em qualquer outra parte?
Qiao: Portugal... No caso de Portugal, o Partido Comunista não controla as Forças Armadas.
Kissinger: Nós não sobrestimamos a força do Partido Comunista em Portugal. Temos de deixar a situação amadurecer até um certo ponto. Primeiro, não tivemos uma situação interna favorável; em segundo lugar, tivemos de levar a Europa Ocidental a entender a situação; em terceiro lugar, tínhamos que ter a certeza de que [Mário] Soares não era um Kerensky [líder social-democrata russo derrotado pelos comunistas na revolução bolchevique de 1917].
Em todo o caso, a situação em Portugal está numa fase em que pode evoluir nos dois sentidos [democracia pluralista ou domínio comunista].
Qiao: Bom, penso que se os nossos amigos europeus, apoiados pelos nossos amigos americanos, seguirem uma estratégia com habilidade, os soviéticos não vão conseguir dominar [Portugal]. (22)
Passa um mês e Henry Kissinger está agora em Pequim. A 21 de Outubro de 1975 encontra-se com Deng Xiaoping. É uma quarta-feira e o encontro dá-se numa residência dos convidados estrangeiros, na capital chinesa. Deng ouviu a exposição de Kissinger sobre a estratégia de Washington quanto à Europa do Sul, inclusivamente a promessa norte-americana de resistir às tentativas de tomada do poder pelos grupos apoiados pela URSS. Ainda que isso levasse a uma guerra civil em Portugal. E, nesse cenário, a intervenção americana ganhava peso.
Deng Xiaoping avisa Kissinger que Pequim pouco pode fazer para ajudar além de adiar o estabelecimento das relações diplomáticas com Lisboa. E alerta que apesar de a situação portuguesa estar a melhorar – após a demissão do “vermelho” primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, e a sua substituição pelo almirante Pinheiro de Azevedo, um “moderado” –, poderem ainda registar-se “muitas reviravoltas”.
Deng: (…) Se estiver interessado, podemos falar do flanco sul da Europa.
Kissinger: (…) No sul da Europa, temos Portugal, Espanha, Itália, Grécia e Turquia. Cada um com uma situação diferente.
No caso de Portugal, encontramos uma situação em que, resultado de 40 anos de um regime autoritário, as forças democráticos não estão organizadas e as estruturas políticas democráticas são muito fracas. Os militares adoptaram, em parte, a filosofia dos movimentos de libertação africanos, que combateram durante 25 anos. E o Partido Comunista de [Álvaro] Cunhal, que passou parte do seu exílio na Checoslováquia – curiosa escolha para exílio – está, e muito, sob a influência da União Soviética. [Deng inclina-se e cospe para uma escarradeira ao lado da cadeira].
Perante o vazio, o Partido Comunista conseguiu uma influência desproporcionada e, por algum tempo, parecia estar à beira de dominar a situação. Acho que esta tendência foi travada. E estamos a trabalhar com os nossos aliados da Europa Ocidental para reforçar e a apoiar as forças que se opõem a Cunhal. Infelizmente, algumas dessas forças são melhores na retórica do que na organização, mas achamos que a situação melhorou e vai continuar a melhorar.
Deng: Ouvimos nas notícias que alguns oficiais que estavam sob o comando de…
Qiao:… [Vasco] Gonçalves.
Deng: … estão a preparar um golpe.
Kissinger: Sim. Tivemos a informação esta manhã que numa unidade [Tancos] eles se recusaram a entregar armas.
Deng: Segundo as notícias, esses oficiais estarão a preparar alguma coisa para 11 de Novembro, que é a data da independência de Angola. Informações assim tão precisas não podem ser fidedignas, seguras.
Kissinger: Não, nós também não acreditamos. Temos um relatório segundo o qual uma unidade militar se recusa a entregar as armas. E não há dúvidas de que [Vasco] Gonçalves está do lado da União Soviética. Mas esperamos… Nós estamos em contacto com um número razoável de líderes militares que estão contra o golpe e que vão opor-se a ele.
Deng: Mas nós achamos que Portugal ainda pode sofrer muitas reviravoltas.
Kissinger: Concordo.
Deng: E muitas provas de força. Não estamos em condições de fazer o quer que seja nessa parte do Mundo, Mas há uma coisa que podemos fazer. Portugal tentou já muitas vezes estabelecer relações diplomáticas connosco, e nós recusámos. O nosso ponto de partida é muito simples: nós não queremos fazer nada que ajude os soviéticos a ganhar controlo da situação.
Kissinger: Creio que essa é uma opção sensata. Nós apoiamos [Melo] Antunes e [Mário] Soares. [Deng inclina-se outra vez e cospe de novo.] Antunes esteve em Washington há poucas semanas e estamos a cooperar com ele. Mas concordo que vai haver ainda muitas provas de força. E a dificuldade com os nossos aliados ocidentais é que eles baixam os braços depois de alguns sucessos passageiros.
Quando voltarmos a encontrar-nos em Dezembro, já a situação estará muito mais clara. Mas nós estamos determinados a resistir a qualquer tentativa de tomada de poder pelos soviéticos, ainda que isso leve a um conflito armado. Não vamos facilitar. Não será fácil para eles, e quero sublinhar isso, se eles estiverem a planear um golpe, não será nada fácil para eles.
Agora em Espanha, a situação é mais complicada. Temos, por um lado, um regime nos seus derradeiros dias, porque Franco está muito velho. Por outro lado, não queremos que a situação de Portugal se repita em Espanha. (23)
(21) BURR, William, “The Kissinger Transcripts – The Top-Secret Talks with Beijing and Moscow”, The New Press, New York, 1998.
(22) Memorandum, September 28, 1975, Kissinger, Qiao, box 16, National Security Adviser, Memoranda of Conversation, Gerald Ford Library.
(23) Memorandum, October 21, 1975, Kissinger, Deng Xiaoping, box 16, National Security Adviser, Memoranda of Conversation, Gerald Ford Library


