Monday, November 17, 2014

EUA/Portugal: Norte-americanos aprovaram primeiro plano de operações clandestinas em 1974

EUA/Portugal: Norte-americanos aprovaram primeiro plano de operações clandestinas em 1974


O Departamento de Estado e os serviços secretos norte-americanos aprovaram o seu primeiro plano de operações clandestinas para Portugal a 27 de setembro de 1974, para “evitar a tomada do poder pelos comunistas”.
Esta é a primeira vez que, 40 anos depois da revolução portuguesa, o Departamento de Estado norte-americano revelou, ainda que parcialmente, documentos e parte dos debates “on the record” no Comité dos 40, organismo que supervisionava operações clandestinas e incluía os serviços secretos, a CIA.
Grande parte de nomes de personalidades políticas, partidos e organizações portuguesas envolvidas nas operações, que nunca são descritas ao pormenor, continuam a ser segredo por questões de segurança e foram apagados na versão agora “desclassificada”.
O lote de documentos é grande e foi publicado no volume do departamento histórico do Departamento de Estado sobre a política externa norte-americana, referente aos anos de 1969-1977 (Foreign Relations of the United States – Volume E-15, part II).
A primeira proposta de “operações políticas” do Comité dos 40 tem a data de 27 de setembro, um dia antes da frustrada manifestação da maioria silenciosa de 28 de setembro, inspirada por António de Spínola, primeiro presidente após o golpe do Movimento das Forças Armadas (MFA), e que antecipou a sua demissão, a 30 de setembro.
Esta proposta inicial incluía planos específicos, não revelados ainda hoje, para a campanha das primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte, mas também ações para influenciar os militares do MFA.
A demissão de Spínola, em que alertou para novas formas de totalitarismo, e o ascendente das forças de esquerda levou Kissinger a concluir que havia agora uma “coordenação estreita” entre o MFA e os comunistas.
Num memorando de outubro de 1974 destinado a Kissinger, fala-se em “fortalecer o PS” e em ajudar a “desenvolver um partido centrista que atuasse em coligação com os socialistas para derrotar o PCP”.
Mas é a 20 de janeiro de 1975 que a administração de Gerald Ford, numa reunião, decidiu avançar com um renovado plano de operações clandestinas para Portugal - “quer haja ou não fugas de informação”, nas palavras do presidente Gerald Ford.
Henry Kissinger chegou a defender que a CIA devia “infiltrar” o MFA e lembrou que ter defendido um “plano de ações clandestinas massivo” desde há meses.
Em março, um memorando de ações do Comité dos 40 foi chumbado pelo Departamento de Estado pelo risco de fugas de informação para os jornais.
Uma das ações passava por canalizar fundos para os partidos “não comunistas” portugueses por parte dos aliados europeus, incluindo verbas da CIA, mas também “expor as atividades subversivas” do PCP.
E é já depois das eleições para a Constituinte de 25 de abril de 1975, ganhas pelo PS e em que o PCP recolheu 12% dos votos, que o Comité dos 40 faz mais um documento a propor “proteger os ganhos dos moderados” nas eleições.

São recomendados mais apoios aos partidos, cooperação com “os europeus” para canalizar fundos para Portugal, influenciar o MFA a “tomar decisões democráticas”. A CIA sugeria que se organizasse uma “campanha mediática para mostrar a desaprovação internacional da eliminação dos processos democráticos”.

(Texto publicado na Lusa, a 23 de agosto de 2014)

Sunday, November 16, 2014

EUA/Portugal: Kissinger achava que comunistas iam matar Mário Soares em 1975

EUA/Portugal: Kissinger achava que comunistas iam matar Mário Soares em 1975

Henry Kissinger, ex-secretário de Estado norte-americano, previu e errou que “os comunistas” iam matar, em 1975, Mário Soares, líder histórico do PS e ministro dos Negócios Estrangeiros.
“Os comunistas vão arrastar Soares para a esquerda até ele perder apoio e depois vão matá-lo. As forças armadas vão fazer um golpe de estado sob liderança dos comunistas”, afirmou Kissinger numa reunião, a 04 de fevereiro de 1975, do Comité dos 40, organismo para supervisionar operações clandestinas e que incluía os serviços secretos, a CIA.
Henry Kissinger era um crítico de Mário Soares, considerando-o fraco e, em outubro de 1974, chegou a dizer-lhe que seria o “Kerensky português”, o dirigente socialista russo derrotado por Lenine na revolução russa de 1917.
Anos mais tarde, já depois do fim do período revolucionário, em finais de 1975, também numa reunião em Washington, admitiu o erro quanto a Mário Soares, que, na democracia portuguesa, foi primeiro-ministro de vários governos e Presidente da República (1986-1996).

Esta revelação é feita, 40 anos após o 25 de Abril de 1974, em documentos do Departamento de Estado até agora considerados “secretos” e publicados no volume do departamento histórico do Departamento de Estado sobre a política externa norte-americana, referente aos anos de 1969-1977 (Foreign Relations of the United States – Volume E-15, part II).

(Foto da Ford Library, com Costa Gomes e Geral Ford em primeiro plano, seguidos por Kissinger e Soares, em outubro de 1974)

(Texto publicado na Lusa, a 23 de agosto de 2014)

Thursday, May 30, 2013

E os americanos “vigiavam” Cunhal (reeditado)


São dezenas de telegramas: sempre que Cunhal dá uma entrevista, seja em França, Brasil, Checoslováquia, havia uma embaixada ou consulado norte-americano a fazer um telegrama.
Um mês antes do 11 de Março, tentativa “putchista” de Spínola e seus apoiantes, Cunhal alertava para os riscos de golpe num país em que “rumores de golpe” andavam de boca em boca, de manchete em manchete.
Veja-se este telegrama, do embaixador norte-americano em Lisboa Frank Carlucci, sobre uma entrevista do líder comunista à revista brasileiro “Veja”: Cunhal, segundo Carlucci, falava em risco de golpe da direita, e de guerra civil, para tentar “arrefecer” os rumores de que o PCP estaria a preparar a tomada do poder.
(Ler o telegrama na íntegra aqui)

CONFIDENTIAL
PAGE 01 LISBON 00880 141927Z
20
ACTION EUR-12
INFO OCT-01 AF-06 ARA-06 ISO-00 CIAE-00 DODE-00 PM-03 H-01
INR-07 L-02 NSAE-00 NSC-05 PA-01 PRS-01 SP-02 SS-15
USIA-06 ACDA-05 SAJ-01 /074 W
--------------------- 039717
R 141635Z FEB 75
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC 1755
INFO AMEMBASSY BONN
AMEMBASSY BRASILIA
AMEMBASSY LONDON
AMCONSUL LOURENCO MARQUES
AMCONSUL LUANDA
AMEMBASSY MADRID
AMEMBASSY PARIS
AMCONSUL RIO DE JANEIRO
USMISSION NATO
DIA WASHDC
USCINCEUR VAIHINGEN GER
AMCONSUL OPORTO
AMCONSUL PONTA DELGADA
C O N F I D E N T I A L LISBON 880
EO 11652: GDS
TAGS: PINT, PO
SUBJ: ALVARO CUNHAL ON "LOCKED GATE" AND POSSIBILITY OF CIVIL WAR
1. SECRETARY GENERAL OF PORTUGUESE COMMUNIST PARTY (PCP)
ALVARO CUNHAL GRANTED INTERVIEW TO BRAZILIAN MAGAZINE "VEJA"
IN WHICH HE STATED THAT THERE WAS NOTHING EXTRAORDINARY ABOUT
NATO "LOCKED GATE" EXERCISE SINCE PORTUGAL IS MEMBR OF NATO.
CUNHAL WENT ON TO STATE THAT TIMING OF EXERCISE POORLY CHOSEN,
BUT IT NOT NECESSARY TO "DRAMATIZE" THAT FACT.
2. REGARDING POSSIBILITY OF CIVIL WAR IN PORTUGAL, CUNHAL
STATED THAT CIVIL WAR NOT LIKELY, BUT THAT IT COULD ARISE IF
CONFIDENTIAL

CONFIDENTIAL
PAGE 02 LISBON 00880 141927Z
"COUNTE-REVOLUTIONARY FORCES" MADE ARMED COUP ATTEMPT.
3. COMMENT: IT APPARENT THAT CUNHAL IS MAKING ATTEMPT IN
"VEJA" INTERVIEW TO COOL ALARMIST RUMORS CONNECTED WITH RECENT
ISSUES SUCH AS "LOCKED GATE" AND DRAFT LABOR LAW, ESPECIALLY
REGARDING PCP ATTEMPTS TO TAKE OVER GOVT.
STATEMENTS MADE IN "VEJA" SIMILAR TO PREVIOUS STATEMENTS MADE
BY CUNHAL ON THESE TOPICS.
CARLUCCI
CONFIDENTIAL
NNNN

Cunhal nos arquivos norte-americanos (reeditado)


Este é um excerto de um telegrama enviado pelo Departamento de Estado (não citado no meu livro) em que o embaixador João Hall Themido, diploma português em Washington que resistiu ao 25 de Abril e ficou em funções, apesar da queda da ditadura. Ele foi uma “peça”, pela continuidade, na tentativa de acalmar o aliado americano face às mudanças de regime em Portugal. A 30 de Maio de 1974, Themido estivera em Lisboa e regressou a Washington com uma mensagem de amizade aos Estados Unidos, nessa altura ainda na fase de “wait and see”, mas já com os olhos postos em Álvaro Cunhal , líder do “único partido organizado”, como não se cansava de dizer Kissinger. Conciliador, João Hall Themido dizer que, até ao momento, fizera declarações muito “responsáveis”. Nos meses, anos seguintes o embaixador teve posições bem mais alarmadas sobre "os comunistas" em Portugal...
(Telegrama retirado dos National Archives)
Ver o telegrama na íntegra aqui


CONFIDENTIAL
PAGE 01 STATE 113385
63
ORIGIN EUR-25
INFO OCT-01 ISO-00 CIAE-00 DODE-00 PM-07 H-03 INR-10 L-03
NSAE-00 NSC-07 PA-04 RSC-01 PRS-01 SP-03 SS-20
USIA-15 IO-14 AF-10 SAM-01 EB-11 /136 R
DRAFTED BY EUR/IB:WPKELLY:MS
APPROVED BY EUR - WELLS STABLER
--------------------- 091061
P 301929Z MAY 74
FM SECSTATE WASHDC
TO AMEMBASSY LISBON PRIORITY
C O N F I D E N T I A L STATE 113385
E.O. 11652: GDS
TAGS: PFOR, PO, U-S.
SUBJECT: CONVERSATION WITH PORTUGUESE AMBASSADOR TO U.S.
1. AMBASSADOR THEMIDO (JUST RETURNED FROM CONSULTATION IN
LISBON) CALLED ON ACTING ASSISTANT SECRETARY STABLER LATE
AFTERNOON MAY 28 TO DELIVER LETTER FROM FOREIGN MINISTER
SOARES TO SECRETARY THANKING HIM FOR HIS MESSAGE AND TO
CONVEY--UNDER INSTRUCTIONS--SOARES' STRONGLY EXPRESSED
DESIRE FOR STRENGTHENED PORTUGUESE RELATIONS WITH U.S.
COPY OF LETTER BEING POUCHED FOR POST INFO. MAJOR
ELEMENTS OF CONVERSATION ARE SUMMARIZED BELOW.
(...)
5. STABLER ASKED HOW THE PROVISIONAL GOVERNMENT OPERATES
VIS-A-VIS THE JUNTA. THEMIDO REPLIED THAT THE PG
IMPLEMENTS THE PROGRAM DEFINED BY THE JUNTA AND THE ARMED
FORCES MOVEMENT BUT THAT THE JUNTA CONCERNS ITSELF
PRINCIPALLY WITH BROAD GUIDELINES FOR SOLVING THE MAJOR
ECONOMIC AND POLITICAL PROBLEMS OF THE COUNTRY, E.G.
LABOR DIFFICULTIES AND THE OVERSEAS TERRITORIES. THEMIDO
EXPLAINED WHY COMMUNISTS ARE INCLUDED IN THE PROVISIONAL
GOVERNMENT, VOLUNTEERED HIS PERSONAL OPINION THAT CUNHAL
HAS BEEN "RESPONSIBLE" THUS FAR IN THE STATEMENTS HE
HAS MADE, AND SAID THAT ELECTIONS WILL CLEARLY SHOW WHERE
PORTUGAL IS GOING POLITICALLY (WHICH THEMIDO SEEMED TO
THINK WAS TOWARD THE CENTER).

Duas semanas antes, a embaixada norte-americana em Lisboa apresentava, em cinco linhas, Cunhal, então nomeado ministro sem pasta no Governo Provisório, como um comunista, “duro” e “disciplinado”, actualmente líder do PCP, e que nos últimos 14 anos viveu em Praga.
Ver o telegrama na íntegra aqui


CONFIDENTIAL
PAGE 01 LISBON 01949 01 OF 02 161602Z
43
ACTION EUR-25
INFO OCT-01 AF-10 ARA-16 NEA-14 ISO-00 EURE-00 SSO-00
NSCE-00 USIE-00 INRE-00 CIAE-00 PM-07 H-03 INR-10
L-03 NSAE-00 NSC-07 PA-04 RSC-01 PRS-01 SP-03 SS-20
SAM-01 OMB-01 NIC-01 SAJ-01 SSC-01 DRC-01 /131 W
--------------------- 044774
O R 161500Z MAY 74
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC IMMEDIATE 9610
INFO Z/AMEMBASSY BRASILIA 152
AMEMBASSY CONAKRY
AMEMBASSY DAKAR
AMCONSUL LOURENCO MARQUES
AMCONSUL LUANDA
AMEMBASSY LUSAKA
AMEMBASSY MADRID
AMCONSUL OPORTO UNN
AMCONSUL PONTA DELGADA UNN
AMEMBASSY RABAT
AMEMBASSY PRETORIA
USCINCEUR
CINCLANT
DIA
COMUSFORAZ
USMISSION NATO
C O N F I D E N T I A L SECTION 1 OF 2 LISBON 1949
E.O. 11652: GDS
TAGS: PINT, PGOV, PO
SUBJ: PROVISIONAL GOVERNMENT NAMED

(…)
3. MINISTER WITHOUT PORTFOLIO ALVARO CUNHAL, 50, IS A TOUGH,
DISCIPLINED LIFE-LONG COMMUNIST PRESENTLY SERVING
AS PCP SECRETARY GENERAL. FOR PAST FOURTEEN YEARS
HE HAS LIVED IN PRAGUE. HE HAS SPENT TWELVE YEARS IN
PORTUGUESE PRISONS.

Monday, May 20, 2013

Cunhal


Em breve, Álvaro Cunhal nos arquivos norte-americanos.
(A foto é do Alfredo Cunha)

Saturday, May 11, 2013

Até os telefones dos americanos falharam...




http://www.tvi24.iol.pt/503/politica/25-abril-revolucao-golpe-eua-telefones-tvi24/1442997-4072.html

25 de Abril: o dia em que os telefones americanos falharam

Embaixada dos EUA não percebeu logo o que se estava a passar com o golpe, com o obstáculo adicional das comunicações para Washington não funcionarem

Por: tvi24 / AR    |   2013-04-25 08:00
A Embaixada dos EUA teve dificuldades em perceber o que se estava a passar com o golpe de 25 de abril de 1974 em Portugal e teve um obstáculo adicional: os telefones não funcionaram de Lisboa para Washington.

De acordo com a Lusa, das comunicações entre a representação diplomática norte-americana em Lisboa e o Departamento de Estado, depositadas nos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos, percebe-se a cautela com que a diplomacia encarou o golpe de Estado do Movimento das Forças Armadas (MFA). Mas fica, também, um registo insólito: os telefones falharam no dia em que caiu a ditadura em Portugal, precisamente ao fim da tarde, à hora a que o chefe do Governo, Marcelo Caetano, se rendeu no Largo do Carmo, em Lisboa, entre as 18:00 e as 19:00.

Falhadas as ligações telefónicas, restavam o telégrafo e os telegramas. Desde Lisboa, os diplomatas enviaram pelo menos dois telegramas, pedindo que lhes telefonassem «imediatamente» desde Washington. E até davam os números da embaixada (555141 ou 555149).

Logo pela manhã, quando o desfecho do golpe era desconhecido, o registo dos diplomatas norte-americanos em Lisboa, mas também nos Açores, onde dos EUA têm uma base, nas Lajes, era cauteloso.

«Está tudo tranquilo», lia-se num telegrama do Consulado em Ponta Delgada enviado para Washington às primeiras horas do dia em que o Movimento das Forças Armadas derrubou a ditadura, e que está depositado nos Arquivos Nacionais .

De Lisboa, o primeiro telegrama, com o mesmo título, «Distúrbios em Portugal», surge pelas 09:50. A mensagem fazia uma mera descrição do que estava a passar-se: tanques nas ruas de Lisboa, sedes de ministérios cercadas pelos militares, o relato dos apelos à calma, feitos pelo MFA através da rádio.

De acordo com vários ensaios históricos, a diplomacia norte-americana desconhecia, em profundidade, as movimentações dos militares para derrubar o Governo de Caetano e pôr fim à guerra colonial em África, fazer eleições livres e democratizar o país.

Os analistas norte-americanos chegaram a atribuir o golpe de Estado a militares ligados ao general António de Spínola e não ao Movimento das Forças Armadas (MFA). Pelo que os primeiros telegramas são vagos quanto à autoria do golpe.

Às 14:37, a preocupação da representação diplomática era comunicar a Washington que não havia motivos para crer que o golpe iria colocar em perigo «vidas e propriedades» de norte-americanos em Portugal.

Ainda assim, a embaixada estava a aconselhar os turistas norte-americanos em Lisboa a permanecerem nos hotéis «até que a situação se clarifique».

No final do dia do golpe, e numa altura em que Caetano já se rendera ao MFA, o Departamento de Estado dos EUA enviou então às representações a primeira posição formal de Washington quanto ao golpe, instruindo os embaixadores sobre o que poderiam dizer.

E o que poderiam dizer era muito pouco: a embaixada em Lisboa estava a acompanhar a situação, os turistas norte-americanos foram aconselhados a não ir para as ruas e que a base das Lajes, nos Açores, não fora afetada.

Num mundo ainda dividido em dois blocos, Estados Unidos e União Soviética, e a viver uma Guerra Fria, a diplomacia norte-americana, apesar das dúvidas iniciais, apoiou depois ativamente o PS de Mário Soares e o grupo dos «moderados» dentro do MFA, contra a ala esquerdista e o PCP de Álvaro Cunhal.

O secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, chegou a dar Portugal como um caso perdido para os comunistas, em 1975. Mas depois Kissinger acabou por apoiar os «moderados» e contribuir ativamente para a queda do Governo de Vasco Gonçalves, apoiado pelo PCP.

Monday, January 28, 2013

25 de Abril e a ilusão da esquerda (EDIÇÃO REVISTA E AUMENTADA)


Imagem do regresso de Cunhal a Portugal em 1974, o tal momento que para uns foi encenado, a exemplo de Lenine, e para outros um mero acaso. Um deles é Jaime Neves, militar que enfileirou na direita, e explicou, numa entrevista ao António Ribeiro Ferreira, no CM, que ele próprio sugeriu a Cunhal que subisse ao blindado para melhor ser ouvido. Na foto, vêem-se Mário Soares, Dias Lourenço.

(Foi o que escrevi em 2008. Jaime Neves pode ser identificado no canto superior direito. Ironia das ironias: ele, que combateu sem quartéis o PCP e Cunhal, foi ele a fazer a "escolta" no regresso do velho senhor a Portugal após o 25 de Abril) 

Friday, January 18, 2013

Fotos do "companheiro Vasco" com o "inimigo" em 1975 (3)

Ainda mais fotos de Vasco Gonçalves com Gerald Ford. Agora em versão sorridente!


Podem ser consultadas na Gerald Ford Library

Fotos do "companheiro Vasco" com o "inimigo" em 1975 (2)

Mais fotos de Vasco Gonçalves com o Gerald Ford e Henry Kissinger, em 1975.


Podem ser consultadas na Gerald Ford Library

Saturday, January 12, 2013

O interesse da URSS por Portugal pelos "óculos" dos EUA


A avaliação é da Embaixada dos Estados Unidos em Moscovo sobre o(s) interesse(s) dos soviéticos em Portugal e na revolução e na Espanha de Franco. Por outras palavras, o interesse da URSS por Portugal visto pelos óculos dos EUA.

O telegrama, confidencial, é de 25 de outubro de 1975. Por essa altura, já tinha caído Vasco Gonçalves, o primeiro-ministro que Washington ajudou ativamente a apear do poder, e Pinheiro de Azevedo era o novo inquilino de São Bento. O outono tinha chegado, mas a temperatura política em Portugal continuava alta. A revolução estava na rua. 
Jack Matlock, número dois da embaixada dos EUA em Moscovo e um especialista em assuntos soviéticos, começa por dizer que Portugal, na “perspetiva tradicional dos soviéticos”, é “pouco mais do que um apêndice” da Espanha na Península Ibérica… E diz que os soviéticos não acreditavam que os comunistas conquistassem o poder em Lisboa.
Matlock acreditava, isso sim, que o líder soviético, Leonid Brejnev, olharia uma vitória dos comunistas em Lisboa como uma fonte de problemas da União Soviética com o Ocidente em tempo de Guerra Fria e “deténte”. E que um Governo comunista em Portugal duraria pouco tempo. A começar pelo facto de o país não ser “uma ilha”, como Cuba, e estar rodeado “por três lados” pela Espanha, governada pelo ditador Francisco Franco. Além do mais, segundo o diplomata, os soviéticos duvidavam da capacidade do PCP de Álvaro Cunhal conquistar o poder em Lisboa.
E o Kremlin também não acreditava que o Ocidente, e em especial os EUA, deixasse que Portugal “se juntasse ao campo soviético”. “É inconcebível para a liderança soviética” que esse cenário se concretizasse, concluiu o diplomata.
Mais ainda. Em termos estratégicos, um Governo “vermelho” em Lisboa levaria Espanha – ainda governada por Franco – a “virar à direita”(!) e a afastar-se da Europa.
Do ponto de vista soviético, “seria muito pior ganhar [Portugal] e depois perder, ‘à la Chile´, do que ser derrotado”.
Na avaliação de Matlock, os soviéticos achavam que “Cunhal exagerou”: “Teve a vantagem de ter um partido disciplinado, um primeiro-ministro maleável, e uma situação política confusa, mas pressionou demais e perdeu uma parte essencial dos militares e dos socialistas.”
Por outras palavras, e com base numa análise de imprensa sobre a situação portuguesa, a embaixada dos EUA acreditava que “o conselho do Kremlin a Cunhal tenha sido” manter-se na retaguarda e cultivar as relações com os militares do MFA. Objetivo? “Que o erro de Allende não se repita em Lisboa”. Ou seja, evitar o esmagamento de um Governo comunista por um movimento militar de direita, como Pinochet fez com Allende.
Com os comunistas no Governo – mesmo num executivo “unitário” – os soviéticos podiam “por e dispor”, na leitura de Matlock.  “Podem recuperar da ‘lição do Chile’, continuar em Portugal a espiar um Governo da NATO com participação portuguesa: tudo sem prejudicar a ‘detente’ e, por isso, a ‘europeização’ de Espanha. Brejnev terá dito Costa Gomes: “não conheço esse cavalheiro”. Apesar da atitude hipócrita, acreditamos que os soviéticos estão confortáveis com a situação [em Portugal]: vão ajudando clandestinamente o PCP com dinheiro, enquanto alegam que estão “limpos” e têm uma política de não-ingerência”.

Cunhal visto por Alfredo Cunha






Há fotos geniais. Esta é do Alfredo Cunha, ex-camarada de redação.





Thursday, January 10, 2013

Fotos do "companheiro Vasco" com o "inimigo" em 1975



Em 2004, na altura em que publiquei no DN um trabalho sobre a primeira e única reunião entre o primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, e o presidente norte-americano, Gerald Ford, à margem de uma reunião da NATO, na Bélgica, em Maio de 1975, eu e o editor, o João Morgado Fernandes, só conseguimos uma foto do encontro. Foi essa que "entrou em página".
Passados quase dez anos, encontrei na Ford Library "contact sheets" de fotos desse encontro. São momentos históricos.
Há fotos de Ford e Henry Kissinger, o secretário de Estado norte-americano, de pé, à espera do "companheiro Vasco". Depois, vê-se Rosa Coutinho, o "almirante vermelho", com um sorriso (!), a cumprimentar Ford. Um fotograma à frente está um menos sorridente Vasco a saudar Ford.
No fotograma 14, vê-se Kissinger com a mão na cabeça. Ele que se queixou de ter levado uma lição sobre governação do Vasco Gonçalves. O homem forte da diplomacia norte-americana diria mais tarde que Gonçalves era comunista. A única dúvida que tinha era se o senhor pagava ou não as quota ao PCP...

(a foto pode ser encontrada no arquivo on-line da Ford Library)


A 16 de maio de 2008, publiquei o seguinte neste blogue:


Um documento da Ford Library


Um exemplo de documento da Ford Library. No caso é um memorando de uma reunião do gabinete de Ford, na Casa Branca, a 4 de Junho de 1975, após uma visita do presidente norte-americano à Europa e uma cimeira da NATO, em Bruxelas, durante a qual se reuniu com o primeiro-ministro português, general Vasco Gonçalves.
Esta reunião de Ford, Kissinger com Vasco Gonçalves - cujo memorando não está "on-line" - serviu de base a um capítulo do livro: "Diálogo de surdos em Bruxelas – O frente-a-frente de Vasco Gonçalves com Ford e Kissinger".
De regresso a Washington, foi nesta reunião que Kissinger afirmou que o governo português poderia estar a fazer o jogo dos soviéticos.



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DECLASSIFIED
E.O. 12958 Sec. 3.6
MR 95-83, #24, NSC ltr 6/25/96
By let, NARA, Date 1/16/97


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THE WHITE HOUSE
WASHINGTON


Notes of the Cabinet Meeting June 4th, 1975 - 2:00 p.m.

The President entered the Cabinet Room at 2:10 p.m.
The Press entered at 2:12 p.m.; departed at 2:15 p.m.

The President opened the meeting and thanked the members of the Cabinet and staff for the warm welcome. He indicated that a major vote had just taken place and that the Administration sustained the veto on the Jobs Bill by a vote of 277 to 145. He mentioned that one week to ten days ago, the Administration could not have sustained the veto. The message the President gave to the Republicans was that if Republicans could not hold the line on this one, it would open the flood gate. The President was generous in his praise for everyone, specifically naming (for their testimony) Weinberger, Morton, and Zarb; and for the Congressional effort, Jack Marsh and Max Friedersdorf. The President added that he believed this was a significant victory, a major victory, and perhaps the most important vote for the Administration since he has been President.

The President then began his discussion of foreign policy, indicating that he left with hopes and returned with no regrets. That in discussing that which had transpired in Europe on the return flight, the feeling was that they were very satisfied; it was a successful trip and they made all of the headway they had hoped to make. The President believed the meeting with NATO was important for several reasons: 1) To strengthen the Alliance, 2) To indicate his personal interest in and maintenance of European relationships; and 3) Also, to serve notice that the Alliance needs to recognize Spain as a part of NATO for the defense of Europe. The United States has an arrangement with Spain, which adds to the total defense of Europe.

Historically, the European Community has not welcomed Spain because of its dictatorship and support of the German Empire during World War II.

The President's discussion with the Prime Minister of Portugal was cordial. The United States was very firm and blunt in its discussion with him. The United States indicated to the Prime Minister that it sees many deficiencies in its present Government. In fact, the President asked him to de-

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scribe his system of Government and it took the Prime Minister some twenty minutes just to tell the President how his Government makes decisions. It was suggested that the system was a bit chaotic. The President indicated that he believed there could not be a double standard, one for Spain and one for Portugal, in the United States' relationship with the two countries. Therefore, it was important that the United States maintains an interest in, and be candid with Portugal.

In Spain the President's efforts concentrated on the military situation and the maintenance of the United States air bases there. It is important to Western Europe to have the Mediterranean area secure and United States bases in Spain add to that security. The President was warmly received in Spain and there were huge crowds on his motorcade route.

In Austria the President indicated he tumbled into Austria, but that he really felt that Betty had tripped him, then ran away and left him to get to his feet all by himself. He indicated that the meeting with Sadat was excellent and the personal rapport between the two leaders is very good. He did indicate to Sadat that the United States was continuing its reassessment of the Middle East and that the United States wants to explore all facts, options, and possibilities. The President feels there are three choices to be made: 1) Resume step-by step diplomacy, 2) Develop a comprehensive settlement, which would raise serious problems with final frontiers, and 3) Specific bilateral agreements within the parameters of the comprehensive plan. The President indicated to Sadat that all of those would be taken into consideration during the reassessment.

In Rome the President discussed the entire underside or belly of NATO, the Mediterranean area, Portugal, Turkey, Greece, Spain, and all of the problems related to that. He believes the Italians are making good progress on the economic front and while it is not decisive yet, there is a feeling that the Italians are doing a good job. The President said he was very impressed with the people he met in the Government, specifically citing Leone and Moro as being very sharp. He was cordially received and the discussions were very fruitful.

The President mentioned that he had a very impressive audience with the Pope. He had been told the Pope was very sick, however, he appeared to be well, giving the President a good handshake and speaking in a very strong voice. He covered a wide range of topics in a long meeting. He was impressed with the Pope and with the reception at the Vatican.

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The President in summing up his trip to Europe, said the total trip signifies the forward movement and momentum of American foreign policy. In spite of the problems with Vietnam and all of Southeast Asia, the United States will stand firmly by its Allies; it will maintain its commitments, and American foreign policy will be strong and bold in future years.

The President then asked Henry if he cared to make any comments.

Secretary Kissinger said that when the United States first proposed a NATO Meeting, the Allies were not enthusiastic about it. It came at a very difficult time for the United States and no one in NATO was particularly excited about having a meeting.

There was a discussion as to whether or not the United States should take new and creative measures, even some gimmickry in getting this group together. The final decision was made by the President, when he said he wanted to have a straight forward meeting with NATO with no ploy or gimmicks. Secretary Kissinger's belief was that the major point the President made at NATO is that the U. S. is back in business. The United States knew what it was doing, had a firm commitment, and showed clear direction in its discussion with other countries.

An example of the kind of impression left was best summed up by Prime Minister Trudeau of Canada. Trudeau told others at one of the closing sessions, that the meeting was so good and so beneficial, that it should be institutionalized. He indicated that NATO should cover the entire agenda of issues before world countries as opposed to just defense. Since Canada has been a rather reluctant partner in NATO from time to time, it is interesting that he should be so enthusiastic.

The Secretary noted that the framework was created at Brussels for a good discussion with regard to Turkey and Greece. The real cog seems to be who will put forth the first proposition, since it will then seem that party is making the concession. So the policy seems to be at a point where one country or the other will put forth a major proposal.

The Secretary said that the only political party in Portugal is the military. The others for all intents and purposes were dead. His basic question about Portugal is why do they stay in NATO, and there seems to be two answers: 1) Because the public is not ready to accept the fact that they might pull out, and 2) Perhaps they are staying in to serve the Communist purpose.

PAGE 4

The big problem in Spain, of course, is how influential can the United States be in keeping Spain from going like Portugal when Franco dies. Therefore, the President met with Franco, as well as Juan Carlos and Arias to be certain the United States was clearly identified with the transitional power and the succession of Franco. (...)


Cabinet Meeting Minutes, 6/4/75, Box 4, James E. Connor Files, Gerald R. Ford Library.

Sunday, January 06, 2013

Callaghan evitou envolver soviéticos na crise de março




Mais um “papel” dos arquivos britânicos. São as conclusões de mais uma reunião do conselho de ministros que começou às 09:30 de 25 de março de 1975, no n.º 10 de Downing Street, em Londres. Por essa altura, andava Portugal às voltas com uma revolução, já passara o “11 de março”, as ruas estavam tomadas por militares barbudos e esquerdistas.
O chefe da diplomacia britânico, James Callaghan, alertava que a situação portuguesa era “confusa e potencialmente perigosa”. O MFA é “imprevisível” e os acontecimentos dos “últimos dias” - o golpe de 11 de março - significam “mais um passo no estabelecimento de um regime totalitário controlado pelos comunistas”, com o eventual apoio dos soviéticos.
A inquietação - ou será pânico? - parece ter tomado conta dos países aliados da NATO. Londres opusera-se a que os embaixadores da URSS nas capitais dos países da Aliança Atlântica fossem “chamados de imediato” para audiências, presumivelmente pelos responsáveis da diplomacia. Callaghan receava que esse ato fosse entendido como “uma ingerência” na formação do Governo em Lisboa e em que os aliados não queriam comunistas.
A decisão de Londres foi dar instruções ao embaixador em Lisboa para transmitir ao Presidente Costa Gomes a importância de o novo regime manter as eleições para a Assembleia Constituinte, a 25 de abril, dando garantias de serem disputadas numa “atmosfera de estabilidade e equilíbrio”.


(Foto Central Press/Getty Images)
 



Tuesday, January 01, 2013

… a “dr Soares” em 24 de julho de 1975


Passa mais de um ano sobre a primeira análise ao golpe em Lisboa. À mesma mesa de Downing Street, a 24 de julho de 1975, voltam a sentar-se Harold Wilson, James Callaghan. Portugal está na agenda. Em Londres e não só; também em Paris, Washington, Pequim, Moscovo. O cenário era muito diferente de maio de 1974. Há uma revolução vermelha nas ruas de Lisboa.
Os britânicos olhavam a situação “confusa” de Portugal, com Soares a querer derrubar o Governo de Vasco Gonçalves; havia o risco de um golpe de Estado da parte do PCP e da esquerda militar, concluíam eles.
A poucos dias da Cimeira de Helsínquia, Wilson planeava falar, juntamente com o presidente da França, Giscard d’Estaing, ao líder soviético, Leonid Brejnev, sobre Portugal e os riscos, para a política de “detente”, de um envolvimento da URSS nos acontecimentos em Portugal.
“Não havia dúvidas de que a União Soviética estava a fornecer fundos substanciais ao Partido Comunista Português, então o sr. Brejnev tem o poder, ainda que parcialmente, para controlar a situação, como prova de empenhamento na ‘detente ‘”, lê-se na ata da reunião de ministros britânicos*.
Nos arquivos norte-americanos há, também, documentos a atestar este plano de Wilson e Giscard. E até um telegrama do Departamento de Estado norte-americano a relatar que Brezhnev terá dito que ia analisar o pedido…
Harold Wilson era um dos líderes europeus que tinha planeado estar presente num encontro de solidariedade da Internacional Socialista com Portugal, em Estocolmo. Mário Soares era agora uma das figuras centrais da política portuguesa contra o avanço “vermelho” em Portugal. Em Estocolmo, lá estiveram Willy Brandt, Olof Palme, François Miterrand e Yitzak Rabin.
Na ata, Soares já não era o “senhor Soares”, mas sim “dr. Soares”…

*Consultar este link; para descarregar o documento, faça duplo click em “download full document”:
http://discovery.nationalarchives.gov.uk/SearchUI/image/Index/C9298631?isFullDescription=False

(Foto da Conferência de Helsínquia, Jean Gaumy, 1975, Magnum)
 
 


 

Londres, 02 de maio de 1974: De “Senhor Soares”…


Tinha passado apenas uma semana desde a queda da ditadura de Marcelo Caetano, a 25 de abril de 1974. Harold Wilson era primeiro-ministro no Reino Unido. No número 10 de Downing Street, em Londres, é feita uma primeira análise do golpe (para já era um golpe). Há dois nomes que aparecem na ata da reunião desse dia: o “senhor Soares” e o “general Spínola”.
A ata da reunião do governo britânico é de 02 de maio de 1974 e a posição sobre Portugal é descrita pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, James Callaghan, mais tarde um aliado de Soares nos meses loucos da revolução. Para já, Londres ia reconhecer o “novo regime”. António de Spínola, presidente da Junta de Salvação Nacional, era tido como alguém que conseguiu manter a situação estável em Lisboa.
No texto da ata (ver página oito do documento na página dos National Archives*) são curiosas as informações relatadas: sobre a visita de Soares a Londres, como “emissário de Spinola”, e o desejo dos comunistas de participarem no Governo saído do 25 de abril.
Pode não parecer novidade, mas Mário Soares também tem uma confissão, no relato feito por Callaghan:  a ambição de ser primeiro-ministro.
Apesar dos “grandes problemas” que Portugal vai enfrentar na transição de um “Estado totalitário para uma democracia”, Callaghan dizia acreditar que estava criada “uma oportunidade” para os portugueses.
Problemático era o dossier da descolonização – primeiro tema de fricção entre os militares do MFA e Spínola. Pela ata percebe-se que “o novo regime” acolheria de bom grado conselhos sobre o tema vindos de Londres...
Curiosa é a forma como Soares, secretário-geral do PS, era tratado na ata: “Senhor Soares”. Assim mesmo, com “n” e “h”. Um ano depois, já seria diferente.
 

*Consultar este link; para descarregar o documento, faça duplo click em “download full document”:

 
(Foto: Fundação Mário Soares)

Novos posts

Hoje terei novos posts. Ainda dos arquivos britânicos.
O dr. Soares é o protagonista.

Monday, December 31, 2012

Thatcher Papers: Um português nos "papéis" de 1981 e 1982

Na semana passada, os National Archives britânicos "desclassificaram" papéis de 1982 do gabinete de Margaret Thatcher, passados 30 anos de proteção. Há papéis sobre a guerra das Malvinas, confissões sobre o pior momento da sua vida...
E há um português... claro. Não se sabe é quem num documento sobre alegada vigilância pela URSS com aviões civis. Quem fez um pouco de investigação sobre o assunto sabe das alegações sobre as preocupações das autoridades aeronáuticas portugueses com os aviões da aeroflot depois do 25 de abril de 1974.

Ao tratar a "papelada" de Thatcher, o Express alega isso mesmo, que havia aviões civis a fazer atividades de espionagem. Um espião soviético foi detido 1981, em Londres, num "encontro clandestino com um cidadão português".

Ler a notícia completa aqui:

http://www.express.co.uk/posts/view/367354/USSR-used-civilian-planes-to-spy-

Sunday, October 10, 2010

Sunday, June 20, 2010

Spínola: a conversa que deixou Nixon proecupado com Portugal

Foi um encontro entre dois presidentes caídos em desgraça. A expressão é do ex-embaixador de Portugal em Washington João Hall Themido. E “Inútil”, acrescenta o diplomata nas suas memórias sobre essa cimeira na base das Lajes, a 18 de Junho de 1974, a que não faltou um incidente, com um banquete que não chegou a acontecer.


Um era Richard Nixon. Vivia os dias do fim da sua Presidência, devastada pelo escândalo do Watergate. Outro, António de Spínola, estava há escassas seis semanas no poder num país à beira da revolução e em guerra mais ou menos surda com o Movimento das Forças Armadas (MFA) e Mário Soares por causa a descolonização, um dos três D prometidos pelos oficiais que derrubaram a ditadura de Salazar e Caetano a 25 de Abril.
O presidente da Junta de Salvação Nacional (JSN) apostou forte nesse breve encontro durante uma escala pelos Açores de Nixon e comitiva no regresso a Wasington, após uma visita ao Médio Oriente. Queria o apoio dos Estados Unidos ao seu modelo de descolonização a duas velocidades, bem diferente do que queriam Soares e os militares, cansados de 13 anos de guerra colonial. Em vão.
Nixon não quis comprometer-se. Numa fase em que a administração norte-americana ainda olhava a revolução portuguesa com expectativa, limitou-se a umas promessas mais ou menos genéricas de apoio.
Mas o frente-a-frente nessa manhã de 19 de Junho não foi tão inconsequente quanto isso. A verdade é que o conteúdo da conversa continua classificada nos arquivos norte-americanos – apesar de Spínola ter feito o seu relato no livro País sem Rumo. Passados 36 anos, das sete páginas do dossier sobre a cimeira apenas uma foi desclassificada. É um memorando de Brent Scowcroft. Mas, mesmo assim, há partes "apagadas".
Scowcroft, num memorando datado de 11 de Julho para Henry Kissinger, o todo-poderoso secretário de Estado, escrevia que em anexo apresentava o que julgava ser uma "pobre versão" da reunião entre os presidente norte-americano e português. A pedido de Spínola, o conselheiro de segurança lembrava que fora a dois, "dado que não confiava em ninguém que o acompanhava". O presidente da Junta fora aos Açores acompanhado pelo ministro Sá Carneiro.

"O Presidente [Nixon] ficou preocupado com o que Spínola lhe disse". Daí ter pedido que "apenas fosse enviado apenas a si, a [Alexander] Haig e a mim". Além disso, ordenou duas "acções", em dois pontos. A primeira não se sabe qual (foi "apagado"). A segunda é sobre os receios com "os comunistas" em Portugal e em África, para o qual o ex-comandante da Guiné alertou o presidente dos Estados Unidos. Daí que Nixon tenha pedido ao embaixador Tasca, que esteve colocado em Atenas e "aparentemente o Presidente considerava um especialista mundial em subversão" para fazer uma análise sobre "a actual ameaça da subversão comunista".

Numa frase: Richard Nixon foi sensível à versão da ameaça vermelha feita por Spínola. Não se podendo relacionar directamente, a verdade é que em Julho surgiram as primeiras declarações mais preocupadas de Kissinger sobre a revolução portuguesa. Quando disse, a 12 de Julho, que "Portugal está a ser a preocupação da América".

Afinal, desde Maio, do I Governo Provisório, que o país tinha dois ministros comunistas, o líder histórico do PCP Álvaro Cunhal e Avelino Gonçalves - uma "ameaça" que Washington não se cansou de combater nos meses seguintes até ao 25 de Novembro.
Mas nessa altura, apesar de a revolução dos Cravos estugar o passo e Spínola ainda era visto pelo velho aliado como um homem de confiança à frente do Governo, ao contrário do que aconteceu no Verão Quente de 1975, quando o velho general tinha caído em desgraça aos olhos de Washington. Provas de alguma confiança deu - pelo menos formalmente - o presidente norte-americana numa reunião, a 30 de Julho, poucos dias antes de resignar, com o secretário do Tesouro, Kenneth Rush, conselheiro do Presidente, e Brent Scowcroft. Uma ideia corroborada por Witney Schneidman, no seu livro Confronto em África: Washington e a Queda do Império Colonial Português. Os Estados Unidos ainda tinham o seu general de confiança...
"Spínola é bom... O problema é que os comunistas são as únicas forças organizadas em Portugal", comentou Nixon quando falava da situação política na Europa. Franco, em Espanha, estava a morrer. "E depois? Quem sabe?". Se a Espanha "cair" fora do controlo do Ocidente (e tiver um Governo “comunista”, entenda-se), depois é a Itália, antevia ele, lembrando a posição da Grécia e do Turquia no chamado Flanco Sul, onde os EUA até tinham bases militares que serviam a NATO.

Saturday, December 05, 2009

O recado a Mitterrand


Na conversa em, 1975, há outro dado curioso - visto à distância do tempo da Guerra Fria e da queda do Muro de Berlim, há 20 anos.

O presidente norte-americano admitiu que os Estados Unidos não tinham qualquer objecção à reunificação da Alemanha. E achava, aliás, que seria um processo inevitável.
Na conversa com Deng, a estratégia anti-comunista era mais uma vez repetida. Henry Kissinger contou ter sido ele a receber, em Washington, François Mitterrand, líder do PSF, e não Gerald Ford, “para ele não fazer propaganda”. E disse-lhe que a administração Ford só manteria relações com ele se Mitterrand rompesse com o “grupo de [George] Marchais”, líder do PCF. Algo de muito idêntico disse Kissinger ao embaixador em Lisboa, Stuart Nash Scott, em 1974. Por causa da participação de Álvaro Cunhal, secretário-geral do PCP, no Governo Provisório.

(…)
The President: We have no objection to the reunification of Germany,
and as a matter of fact consider it inevitable.
(…)
Vice Premier Teng: During Chancellor Schmidt’s visit he said that
they are making efforts to strengthen their tank and anti-tank weapons,
and their surface-to-air missiles. But I told him to be careful as the Soviet
Union might not try to break through the center. It might attempt
the tactic of outflanking Europe. There are not only problems in the
northern wing, but also in the southern wing, and these are more complicated
and important. We have learned from you that recently the
situation in Portugal has improved, but it is possible there might be reversals
and trials of strength again.
The President: We are working closely with various governments
in West Europe, urging them to take strong action in Portugal; and
we ourselves, as I indicated yesterday, are helping to strengthen the
anti-Communist forces in Portugal. I recognize that the situation is not
yet stable, but the progress has been significant in the past several
weeks.
As I told you yesterday, the United States is working with the government
forces against the Communists in Italy and France. And we
think these problems must be recognized by the governments themselves;
and they must be able to take action against the elements in
their own countries. For example, when Mitterrand came to the United
States, we had no contact with him under any circumstances.
Secretary Kissinger: When he came I saw him, not the President,
and only in the presence of the French Ambassador so that he could
make no propaganda. And we told him we would not deal with him
unless he broke with the Marchais group.