Tuesday, December 30, 2008

A história de Pedro Rodriguez Peralta

Pedro Rodriguez Peralta era um capitão das forças armadas de Cuba quando, em 1969, foi caputado pelos militares portugueses na Guiné-Bissau. Foi capturado, ferido, e transportado para Portugal, onde ficou detido até Setembro de 1974. "Viu" a revolução dos cravos das janelas da cadeia e foi trocado por um cidadão norte-americano preso em Cuba, alegadamente agente da CIA, Lawrence Lunt. É uma história marginal dos primeiros dias da revolução portuguesa e que vale a pena recordar nos 50 anos da revolução cubana.

(A foto é de José Manuel Saraiva e foi publicada em 2002 pelo semanário Expresso. Na foto, aparece Pedro Peralta ladeado pelos dois militares portugueses que o detiveram, em 1969)




Thursday, November 13, 2008

Colóquio na Fundação Soares (ii): a notícia do DN

Frank Carlucci parecia "um típico mafioso italiano"
JOÃO PEDRO HENRIQUES
Debate. Mário Soares voltou a elogiar ex-embaixador dos EUA"O PREC visto da América" discutido ontem na fundação do ex-presidente

O pretexto foi o livro Portugal Classificado - Documentos Secretos Norte-Americanos 1974 -1975 (editora Alêtheia), do jornalista Nuno Simas, da Agência Lusa. Na sua fundação, Mário Soares moderou um debate sobre "O PREC visto da América", convidando José Medeiros Ferreira (ex-ministro dos Negócios Estrangeiros) e Carlos Brito (dissidente do PCP mas em 1974/1975 um dos principais dirigentes comunistas).Com exemplos concretos da pequena história do período revolucionário, Mário Soares voltou a demonstrar a sua empatia por Frank Carlucci, que no Outono de 1974 chegou a Portugal como embaixador dos EUA. "Um tipo pequenino, vivo. Um típico mafioso italiano!", contou, recordando o momento em que se conheceram. Carlucci chegou a Portugal com Otelo Saraiva de Carvalho (na altura um importante chefe militar e figura de topo na extrema-esquerda castrense) dizendo publicamente que não lhe podia garantir a segurança dada a fúria popular contra o "imperialismo" norte-americano. Costa Gomes, então Presidente da República, pediu a Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros, que assegurasse a Carlucci que nada lhe aconteceria. E aí a supresa: quando Carlucci chegou ao MNE e Soares lhe falou de Otelo, o embaixador revelou que já tinham almoçado com o militar. "Já o tinha metido no bolso! E acabaram a jogar ténis!", contou o fundador do PS, fascinado com a desenvoltura diplomática de Carlucci.Soares disse que os EUA "não tiveram tanta importância como se julga" no o processo revolucionário português. Os países que "ajudaram" à democratização foram a Alemanha, os nórdicos, os italianos e "sobretudo os ingleses". Medeiros Ferreira de certa forma corroborou esta tese afirmando que nos EUA havia "vários centros de poder" e "várias formas de pensar", destacando, por exemplo, que a descolonização "nunca teve no centro das preocupações norte-americanas". E até Carlos Brito admitiu que, apesar das "interferências" dos EUA e da sua "grande arrogância", "não foram os americanos a derrotar a aliança Povo-MFA" (entre o PCP, sectores das Forças Armadas, sindicatos e protagonistas da Reforma Agrária). "Foram os moderados das Forças Armadas, o PS, a Igreja Católica, toda a direita."Mário Soares reafirmou que "havia um projecto do PCP para tomar o poder". Medeiros Ferreira sublinhou, pelo seu lado, um aspecto "admirável" do 25 de Abril: "Portugal dotou-se de um regime democrático sozinho." Ou seja, fora de qualquer processo de democratização na Europa, como os que ocorreram logo após a II Guerra ou, nos anos 90, com a queda do Muro de Berlim.

Colóquio na Fundação Soares (i): a notícia da Lusa

A notícia da Lusa retirada do sapo.pt:

PREC: Ex-PCP Carlos Brito responsabiliza EUA por "derrota" de Aliança Povo-MFA
12 de Novembro de 2008, 23:38
Lisboa, 12 Nov (Lusa) - O ex-militante comunista Carlos Brito responsabilizou hoje os Estados Unidos pela "derrota" do "projecto de Aliança Povo-Movimento das Forças Armadas (MFA)" durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC), apontando a "obsessão" dos norte-americanos contra os comunistas.
Carlos Brito falava, na Fundação Mário Soares, em Lisboa, no colóquio "O PREC visto da América", a partir do livro "Portugal Classificado - Documentos Secretos Norte-Americanos 1974-1975", da autoria do jornalista da Agência Lusa Nuno Simas.
O ex-dirigente do PCP defendeu que - a par, em Portugal, da Esquerda "moderada", incluindo o Partido Socialista, da Direita e da Igreja - a "ingerência americana derrotou o projecto de Aliança Povo-MFA", que preconizava uma "economia largamente estatizada" e era sustentado pela "Esquerda Unitária, Partido Comunista, movimento sindical".
Carlos Brito apontou a "obsessão" e a "cruzada" dos Estados Unidos "contra os comunistas", alegando que os norte-americanos temiam que o regime comunista se estendesse a outros países europeus, como Espanha, Itália e Grécia, e pudesse causar "fragilidade na NATO".
O ex-comunista invocou também a "grande arrogância, por vezes insultuosa", dos dirigentes norte-americanos para com "os seus interlocutores" portugueses, nomeadamente com os então Presidente da República Costa Gomes, primeiro-ministro Vasco Gonçalves e ministro dos Negócios Estrangeiros Mário Soares.
"Estivemos em vários momentos à beira de um precipício", declarou Carlos Brito, defendendo que os norte-americanos chegaram a instar Espanha a invadir Portugal ou que houvesse uma Guerra Civil no País.
Hoje, o antigo militante do PCP reconhece que "todos", comunistas e socialistas, são responsáveis pela "sobreposição do poder económico ao poder político" e pelas "desigualdades sociais" em Portugal.
"Fomos todos culpados: os vencidos do 25 de Novembro [de 1975, numa referência aos comunistas]... que puxámos demasido a corda e os vencedores [socialistas]... que a têm deixado encurtar tanto", afirmou.
Por outro lado, para Carlos Brito, a Cimeira dos Açores, que levou à Guerra no Iraque, e a polémica dos voos de prisioneiros da CIA são uma "exuberante demonstração" de como os Estados Unidos continuam a influenciar Portugal.
Também presente no colóquio, o deputado do PS e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo Constitucional (1976-78) Medeiros Ferreira sustentou, contrariando a intromissão norte-americana aludida por Carlos Brito, que "os novos apoios" do Exterior, incluindo dos EUA, "não foram necessários" ao País, que, "pelos seus próprios meios", impôs, em 1974-75, uma "democracia pluralista".
Medeiros Ferreira afiançou, inclusive, que Henry Kissinger, secretário de Estado do presidente norte-americano Ricard Nixon, "esteve à espera", até Setembro de 1975, "que os militares resolvessem a situação" de instabilidade que se viveu em Portugal durante o PREC (sobretudo entre Março e Novembro de 1975).
Mário Soares, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre Maio de 1974 e Março de 1975, reforçou, em declarações aos jornalistas no final do colóquio, que nem os Estados Unidos nem a União Soviética sabiam do Processo Revolucionário em Curso, tendo a "ingerência" manifestado-se "a posteriori" quando ambos os países quiseram obter informações.
Referindo-se ao "projecto de Aliança Povo-MFA", o histórico socialista manifestou a sua convicção, à época, de que se tratava de "um projecto para o Partido Comunista tomar conta do Poder".
"Quem nos ajudou [Portugal, no período revolucionário] realmente foram os alemães, italianos, nórdicos e, sobretudo, os ingleses", defendeu no colóquio, sublinhando aos jornalistas que alguns norte-americanos "pensavam que era possível impedir os comunistas pela via militar".
"Mas os americanos não tiveram a importância que se pensava que tivessem tido ou que pudessem vir a ter", defendeu Mário Soares na sua intervenção enquanto moderador.
O jornalista Nuno Simas revelou-se surpreendido com a "crueza da linguagem" da troca de correspondência entre Portugal e Estados Unidos e com o "olhar distorcido" dos norte-americanos, que viam Portugal como "um país à beira de uma nova revolução russa", imagem que, invocou, Mário Soares e o antigo embaixador dos EUA em Lisboa Frank Carlucci procuraram inverter.
O autor de "Portugal Classificado - Documentos Secretos Norte-Americanos 1974-1975", cuja pesquisa durou sete anos, considerou "arrepiante quão perto" o País esteve do "abismo", no período revolucionário, ao ponto de os Estados Unidos quererem, em Setembro de 1975, distribuir armas ao PS, o que foi "travado" pelo então secretário de Estado Henry Kissinger.
ER.
Lusa/Fim

Tuesday, November 11, 2008

Thursday, November 06, 2008

Chefe do Governo de Franco admitiu intervenção militar em Portugal em 1975
04.11.2008, Alexandra Prado Coelho
A revelação feita ontem pelo diário espanhol El País baseia-se em documentos do Departamento de Estado norte-americano recentemente desclassificados

Documentos do Departamento de Estado norte-americano, recentemente desclassificados, revelam que Carlos Arias Navarro, último chefe do Governo de Franco, declarou aos norte-americanos que a Espanha estava disponível para uma intervenção armada em Portugal, em 1975, para travar o comunismo, revelou ontem o El País. Segundo os documentos a que o diário espanhol teve acesso através dos Arquivos Nacionais dos EUA, Arias manifestou as suas preocupações ao então vice-secretário de Estado norte-americano, Robert Ingersoll, durante um encontro em Jerusalém em Março de 1975. Ingersoll escreveu então ao secretário de Estado Henry Kissinger, fazendo eco das palavras do político espanhol: "Portugal é uma séria ameaça para Espanha, não só pelo desenvolvimento que está a ter a situação, como pelo apoio exterior que podia obter e que seria hostil a Es-panha". E acrescenta: "Espanha estaria disposta a travar o combate anticomunista, sozinha se necessário. É um país forte e próspero. Não quer pedir ajuda. Mas acredita que terá a cooperação e a compreensão dos seus amigos [...]". Ou seja, Arias esperava que os Estados Unidos manifestassem de forma clara o seu apoio a uma eventual intervenção, de acordo com as revelações feitas pelo El País, num artigo intitulado Arias queria ir para a guerra com Portugal. Estes papéis constituem "o primei-ro registo documental dessa intenção", diz Nuno Simas, autor do recentemente editado Portugal Classificado - Documentos Secretos Norte-Americanos 1974-1975. "Havia indicações nesse sentido de Paradela de Abreu [o editor de Portugal e o Futuro, o livro do general Spínola] e do antigo embaixador português em Madrid, Fernando Reino. Mas provas documentais não existiam". Em declarações aos jornalistas em Madrid em 1994, reproduzidas pela agência noticiosa Lusa, Fernando Reino contou uma versão um pouco diferente da história, dizendo que foram os EUA que sugeriram a Espanha a hipótese de invadir Portugal durante a crise provocada pelo assalto à embaixada espanhola em 1975. Segundo o antigo embaixador, "nessa altura houve um conselho de ministros em Espanha em que se discutiu o assunto e havia duas alas, uma que defendia a intervenção e a outra não". "Precauções apropriadas"Fernando Reino acrescentou ainda que, de acordo com as informações de que dispunha, teria sido o próprio Franco a decidir pela não intervenção em Portugal. Questionado pela agência Lusa sobre as fontes em que se baseava, explicou apenas que se tratava de "testemunhos vivos". Tiago Moreira de Sá que, juntamente com Bernardino Gomes, acaba de lançar Carlucci vs. Kissinger - Os EUA e a Revolução Portuguesa, também cita as declarações de Fernando Reino (que optou por não usar no seu livro por não terem confirmação de outras fontes), mas, de resto, diz que "todas as indicações apontavam no sentido inverso, para uma grande moderação da posição espanhola". Refere, em especial, uma conversa que o general Francisco Franco manteve com o Presidente norte-americano Gerald Ford (ver caixa) e com Kissinger, na qual Ford pergunta "Os moderados podem triunfar em Portugal?", e Franco responde: "Temos que deixar a revolução seguir o seu curso. A situação ainda não é muito clara. A situação económica vai seguramente deteriorar-se. Qualquer intervenção estrangeira seria prejudicial para os moderados, porque uniria os portugueses contra quem os atacasse". Os documentos citados pelo El País adiantam mais sobre o encontro entre Arias e Ingersoll, que aconteceu em Março, o mês do golpe militar falhado lançado por Spínola. O chefe do Governo espanhol terá dito ao "número dois" do Departamento de Estado que estavam a ser tomadas "precauções apropriadas" para impedir que "o que está a suceder em Portugal se estenda para o outro lado da fronteira espanhola". No seu telegrama para Kissinger, Ingersoll explica que Arias "está convencido de que a Espanha deve democratizar-se e abrir as suas portas a uma maior participação política popular", mas a experiência do general Spínola convenceu-o de que "não devemos subir nem descer uma colina demasiado depressa".Campainhas de alarmeO historiador Luís Nuno Rodrigues, especialista nas relações luso-americanas, confirma que estes documentos não eram conhecidos até agora, mas aconselha prudência na leitura do seu conteúdo. As declarações de Arias "são proferidas num contexto de negociações para a continuação das bases norte-americanas em Espanha e são momentos geralmente tensos, em que pode haver uma certa radicalização da linguagem". Sublinhando que não pode tirar con-clusões a partir daqueles excertos, considera, no entanto, "compreensível que a Espanha quisesse fazer soar as campainhas de alarme" relativamente à situação em Portugal, sobretudo depois do 11 de Março e do golpe falhado de Spínola. Mas lembra que "o combate anticomunista" podia ser feito por outros meios que não a intervenção militar - nomeadamente o apoio a estruturas de extrema-direita como o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP, de Spínola) e o Exército de Libertação Português (ELP), que "beneficiaram de algumas facilidades de organização de circulação em território espanhol".Prudente é também a leitura feita pelo historiador António Costa Pin-to, especialista no Estado Novo: "Em 1975, Portugal já está sob grande escrutínio da Administração norte-americana, e seria impensável qualquer acção unilateral da parte de Espanha". Admite, por isso, que uma mensagem como a de Arias "não seja para tomar à letra", mas constitua um alerta aos EUA. Até porque, a poucos meses da morte de Franco (em Dezembro de 1975) "a ditadura espanhola não estava para aventureirismos desse género". O secretário de Estado Henry Kissinger terá participado num encontro com Franco sobre a situação em Portugal em 1975.

A notícia do DN

Espanha admitiu declarar guerra a Portugal depois do 25 de Abril
SUSETE FRANCISCO
Verão Quente. Transcrição de conversas com diplomatas americanos revela ameaça

O último líder do governo de Franco, Carlos Arias Navarro, admitiu entrar em guerra com Portugal, em 1975, para travar o avanço do comunismo. A revelação consta de documentos, ontem divulgados pelo jornal El País, nos quais são relatadas conversas entre o chefe do governo franquista e diplomatas norte-americanos. Os relatórios integram os Arquivos Nacionais, em Washington. É a primeira vez que a hipótese de um ataque de Espanha a Portugal, na sequência da revolução de 74, surge citada num documento.De acordo com o diário espanhol, Carlos Arias Navarro informou em privado os Estados Unidos de que Espanha estava disposta a avançar para uma guerra. Segundo o relato escrito pelos diplomatas norte-americanos, o líder do governo de Franco manifestava uma "profunda preocupação" com os acontecimentos em Portugal, e pretendia que os EUA garantissem o apoio a Madrid em caso de conflito armado na Península.Estava-se então em Março de 1975, já após a tentativa do golpe spinolista do 11 de Março em Portugal - ao qual Arias se terá referido como o "último acto insensato de Spínola". Neste mesmo mês, a evolução política portuguesa foi discutida num encontro entre Arias e Robert Ingersoll (à data vice-secretário de Estado norte-americano) que decorreu em Jerusalém. Num relatório deste encontro dirigido ao secretário de Estado Henry Kissinger, Ingersoll escreve que "Portugal é uma séria ameaça a Espanha, não só pelo desenvolvimento da situação [política], mas sobretudo pelo apoio exterior que poderia obter e que seria hostil a Espanha". Afirmando que Arias estava "profundamente inquieto" com o que se passava, Ingersoll traduz assim o pensamento do político espanhol: "Espanha estaria disposta a travar o combate anticomunista sozinha, se necessário. É um país forte e próspero. Não quer pedir ajuda. Mas confia que terá a cooperação e a comprensão dos seus amigos, não só no interesse de Espanha, mas de todos os que pensam da mesma forma."No mesmo encontro, Arias garantiu ter tomado as "precauções apropriadas" para impedir que o que se passava em Portugal se estendesse ao outro lado da fronteira. Um mês depois, já num encontro com o senador Hugh Scott, o chefe do governo espanhol voltava a afastar esse cenário, argumentando que Espanha tinha mais liberdade, mais crescimento económico e que as forças armadas não tinham sofrido a "tensão de uma guerra colonial". A 28 de Maio é a vez do embaixador Wells Stabler informar: "Com a larga fronteira com Portugal, seria difícil a Espanha proteger-se de uma acção subversiva portuguesa." As conversas entre Carlos Arias Navarro e os responsáveis norte- -americanos decorrem num contexto de tensão nas relações entre os dois países - os Estados Unidos queriam renegociar a continuidade de várias bases militares em território espanhol, enquanto a Espanha de Franco procurava apoio internacional para entrar na NATO. É neste âmbito que Arias se queixa dos países europeus, apontando a incongruência da sua atitude face à "total anarquia que impera em Portugal, a cair num domínio completo dos comunistas, e a que têm face a Espanha, um bastião contra a expansão comunista".

Monday, November 03, 2008

Espanha preparou a guerra contra Portugal em 1975










Aquilo que era uma tese, por exemplo, de Paradela de Abreu, teve hoje confirmação oficial~.
O El Pais revela documentos dos arquivos norte-americanos em que Árias Navarro garantia que Espanha invadiria Portugal para evitar que o país se tornasse comunista.

Ler tudo aqui

Ler aqui um texto da Lusa

Espanha disse aos EUA em 1975 estar preparada para atacar Portugal

O último presidente do Governo franquista, Carlos Árias Navarro, afirmou em 1975 aos EUA que Espanha estava preparada para entrar em guerra com Portugal «para evitar que o comunismo se espalhasse», revela o jornal El Pais.
Na sua edição de hoje, o jornal refere que essa ameaça está nos registos de conversas entre diplomatas e governantes de Espanha e dos Estados Unidos, a seguir à tentativa do golpe spinolista de 11 de Março em Portugal.
El Pais refere que Árias «exprimia a sua profunda preocupação» pela transição para a democracia em Portugal e que queria o apoio de Washington caso ocorresse um conflito bélico.
«Tratava-se de um momento crucial nas relações entre os dois países, porque os Estados Unidos desejavam renegociar o aluguer das bases militares e Árias queria que Washington apoiasse a entrada de Espanha na NATO», escreve o jornal.
A análise feita pelo diário espanhol baseia-se em documentos obtidos nos Arquivos Nacionais em Washington que reproduzem as observações dos Estados Unidos nos últimos anos antes da morte de Franco.
Segundo esses documentos, a situação em Portugal foi um dos temas dominantes da reunião que Árias Navarro manteve com o vice-secretário de Estado norte-americano, Robert Ingersolll, em Jerusalém, em Março de 1975.
Nesse encontro, Árias manifestou a sua preocupação sobre os acontecimentos em Portugal devido ao que o presidente do Governo classificou como «o último acto insensato de Spínola».
«Portugal é uma séria ameaça para Espanha, não apenas pelo desenvolvimento que está a ter a situação, mas pelo apoio exterior que poderia ter e que seria hostil a Espanha», escreveu Ingersoll a 18 de Março, numa mensagem para Henry Kissinger, então secretário de Estado.
«A Espanha estaria disposta a travar o combate anticomunista sozinha, se for necessário. É um país forte e próspero. Não quer pedir ajuda. Mas confia que terá a cooperação e a compreensão dos seus amigos, não apenas no interesse de Espanha, mas no interesse de todos os que pensam assim», escreveu.
Árias terá explicado aos americanos estar a tomar «as precauções devidas» para que «os acontecimentos de Portugal não se estendam ao outro lado da fronteira».
«Está convencido de que a Espanha deve democratizar-se e abrir as suas portas a uma maior participação política popular. Mas a experiência de Spínola convenceu-o de uma coisa: não há que subir e descer uma colina demasiado depressa», escreve.
A preocupação de Árias voltou a ser repetida num encontro a 07 de Abril de 1975 com o senador republicano Hugh Scott, a quem prometeu que a Espanha não repetiria o que aconteceu em Portugal.
Como argumentos para justificar essa posição explicava que em Espanha há «mais liberdades», mais crescimento económico e maior distribuição da riqueza, além de que as forças armadas espanholas não tinham «sofrido a tensão da uma guerra colonial».
«Árias disse que o exército espanhol conhece os perigos do comunismo pela experiência da Guerra Civil e está totalmente unido», dizia o embaixador norte-americano, Wells Stable, numa mensagem enviada para Washington a 09 de Abril de 1975.

Monday, October 20, 2008

Ogivas nucleares nos Açores


Guerra-fria
Ogivas nucleares

sobre o arquipélago


Reportagem: Rui Messias / Fotografia: António Araújo

Antigos trabalhadores recordam ter visto indivíduos com fardas semelhantes às dos apicultores dentro dos paióis no Cabrito. Documentos norte-americanos desclassificados colocam as Lajes na rota das aeronaves com armamento nuclear em trânsito no Atlântico. Indícios de que as bombas atómicas andaram por cá? Cientistas defendem que se estude o assunto.

Nos últimos anos têm surgido novas investigações que reforçam a tese de que os Estados Unidos mantiveram – ou, pelo menos, fizeram passar – armamento nuclear na ilha Terceira.Os vários estudos assumem que essa eventual presença não seria permanente, mas são vários os indicadores que dão sustento a essa teoria, nem confirmada nem desmentida oficialmente, nem por Portugal nem pelos Estados Unidos da América.Um dos últimos documentos a admitir essa possibilidade é o livro do jornalista português Nuno Simas, que revela documentos oficiais americanos, entretanto desclassificados.“A 29 de Julho de 1957, um avião C-124 carregado com duas bombas nucleares «em rota para os Açores» teve problemas mecânicos e a tripulação optou por lançar a carga ao mar, ao largo de New Jersey. «As implicações são óbvias: se não tivessem havido problemas, o avião teria aterrado nos Açores com as duas bombas nucleares», afirma Hans Kristensen [director do projecto de informação nuclear da Federação dos Cientistas Nucleares, autor de várias investigações académicas sobre o arsenal nuclear dos Estados Unidos e da NATO ao longo da Guerra-fria, e que, em 2007, recebeu um documento desclassificado intitulado “Broken Arrow”, o nome de código dos acidentes com material atómico], admitindo que as Lajes tenham sido utilizadas, ao longo dos anos da Guerra-fria, para trânsito de aviões com carga idêntica”, escreve o jornalista Nuno Simas, autor do livro “Portugal Classificado - documentos secretos norte-americanos, 1974-1975” (2008).Admite, contudo, segundo a mesma fonte, que “as bombas teriam como destino final, para armazenamento permanente, bases norte-americanas no Norte de África e não os Açores”.O investigador afirma que Portugal autorizou nos anos cinquenta o depósito de armas nucleares na ilha Terceira, pelos norte-americanos, em caso de necessidade, o que, em seu entender, significa que a Base das Lajes terá sido, pelo menos, preparada para receber tais armamentos.Adianta também que estudos independentes norte-americanos permitem concluir pela presença na ilha Terceira de cargas nucleares de luta anti-submarina utilizadas pelos aviões P3-Orion que patrulhavam o Atlântico a partir das Lajes até ao início dos anos noventa.«Os Açores estavam reservados a ser uma base de armamento nuclear em situação de crise, emergência ou guerra. Autorizações foram válidas desde os anos 60 até à década de 80», refere William Arkin, ex-analista do exército norte-americano, citado por Nuno Simas.
O responsável, aliás, segundo a mesma fonte, revelou, em 1985, que a “base açoriana estava nos planos norte-americanos para «instalação condicional» de armamento nuclear, o que causou manifesto mal-estar no Governo português.Da parte governamental portuguesa, qualquer um destes dados nunca foi confirmado. Quando, em 1985, três investigadores (ver abaixo) revelaram que os Açores estavam incluídos nas localizações onde os norte-americanos poderiam manter ou fazer passar material nuclear, responsáveis portugueses alegaram que “tudo não passava de especulações”, logo não merecedoras de comentários.“Um antigo chefe das Forças Armadas portuguesas” – escreve Nuno Simas – afirma que «não há registo de terem passado pelas Lajes armas nucleares». Os acordos entre os Estados Unidos e Portugal não são, de todo, exaustivos nessa matéria, mas o mesmo ex-chefe militar, com funções na hierarquia das Forças Armadas nas décadas de 70 e 80, afirma que a tese prevalecente, entre os militares, era que «preferencialmente por lá não passassem». Um comandante português da base açoriana descreveu as preocupações dos militares portugueses: «Colocámos a questão da existência das armas nucleares na base. A resposta: montadas não há. Se calhar os americanos têm os componentes. Mas é preciso notar que os Estados Unidos colocam [na base] todo o material necessário em 12 horas”, afirma Nuno Simas, na página 205 do “Portugal Classificado - documentos secretos norte-americanos, 1974-1975”.
Revelações

William Arkin, Robert Norris e William Burr, autores de um artigo sobre o uso de armas atómicas por parte dos militares americanos, publicado, em 1999, no Bulletin of the Atomic Scientists, revelaram, baseando-se em autorizações presidenciais, que armamento nuclear norte-americano “deveria ser depositado em Espanha, Filipinas, Açores, e na ilha de Diego Garcia, no Oceano Índico.“Robert Norris, perito em armamento nuclear, é da opinião de que «nada aponta para a existência, na Base das Lajes, de armazenamento permanente» de armas nucleares. Mas significa isto que, ao longo dos anos da Guerra-fria, as Lajes nunca armazenaram armamento nuclear?”, pergunta Nuno Simas.“Não” – responde de seguida – “William Arkin admite que armas deste tipo tenham sido depositadas nos paióis da Base da ilha Terceira, «ainda que temporariamente», devido à avaria de um avião, por exemplo, ou a uma situação de emergência.Certa era a utilização da base terceirense no “Chrome Dome Program”, o programa americano de utilização de armamento nuclear para um contra-ataque contra a União Soviética, em que uma das rotas passava a 300 quilómetros a Norte dos Açores.O “Chrome Dome Program” envolvia 12 super-bombadeiros B-52, que levavam nos seus porões bombas termo-nucleares, que seriam atiradas sobre alvos soviéticos ou países integrados no Pacto de Varsóvia, caso a URSS ataca-se os Estados Unidos.Estas aeronaves permaneceram no ar constantemente nas décadas 50, 60 e 70.“Neste programa “Chrome Dome”, a base das Lajes (…) ao serviço dos Estados Unidos e da NATO, serviria como ponto de apoio, em caso de avaria ou acidente”, revela Nuno Simas, citando a investigação de Hans Kristensen.
Episódios
Há poucos anos, um antigo trabalhador português ao serviço dos militares na base das Lajes, em declarações ao DI, embora pedindo o anonimato, revelou ter visto “homens vestindo fatos semelhantes aos que se usa para retirar o mel das colmeias nos paióis do Cabrito”, envoltos em enorme secretismo e grandes cuidados de segurança.“Quando esses homens ali estavam, os seguranças portugueses eram mandados sair do local, e eram substituídos por militares armados”, recorda, embora desconhecendo se se tratava de armamento nuclear.Nessa zona da ilha, os militares norte-americanos mantiveram, durante vários anos, um vasto campo de paióis, hoje abandonado.Entre esse campo e um outro, hoje propriedade da Força Aérea Portuguesa, situa-se o “Pico Careca”, uma pequena elevação sem vegetação no seu cimo.Foi nessa área, aliás, rezam as descrições populares, que, em Janeiro de 1968, um segurança português – Serafim Viera Sebastião – terá avistado um Objecto Voador Não Identificado (OVNI).Vários académicos assumem que a inexistência de vegetação no topo do “Pico Careca” indicia a presença de substâncias que poderão resultar de radioactividade, ou outra qualquer actividade “secreta” que tenha destruído a vida vegetal ali existente.O professor Félix Rodrigues, do Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores, confirma – em declarações recentes ao DI - a presença na Terceira de vestígios de urânio, tório e água com níveis de trítio ligeiramente superiores aos níveis ambientais, que não indiciam uma origem geológica, mas não confirmam nem desmentem a hipótese de armas nucleares na ilha. Preconiza, por isso, mais investigações de pormenor e em larga escala.
Investigações
No início deste mês, uma notícia publicada pelo DI dava conta de que, nos anos 90, uma comissão do Senado norte-americano investigou uma queixa de militares americanos, à altura doentes com cancro, onde alegavam terem estado expostos a radiações nucleares na Base das Lajes.A informação foi confirmada ao jornalista Armando Mendes por Orlando Lima, hoje empresário na ilha Terceira e à altura um dos responsáveis pela segurança ambiental das Feusaçores (era funcionário dos norte-americanos nas Lajes).
Segundo esta fonte, a comissão do Senado deslocou-se à Terceira com secretismo, mas a sua presença nas Lajes foi bem notória. Na altura soube-se que a deslocação teve a ver com a alegada exposição de militares a radiação.O próprio Orlando Lima adiantou que o dossier foi considerado secreto, informação confirmada por altas patentes militares portuguesas que pediram o anonimato e garantiram nunca ter tido conhecimento dos resultados da investigação.Os documentos relativos a esta visita, segundo as mesmas fontes, estarão classificados por um período de trinta anos.Todos estes indícios têm servido para vários investigadores e comentadores da presença americana na ilha Terceira advogarem a necessidade de um estudo aprofundado desta situação. Nem que seja para sossegar as populações, argumentam.
Para ler no site do Diário Insular vá aqui; para ler em PDF na revista do DI, vá aqui

Sunday, October 19, 2008

Incertezas do Xá da Pérsia na base das Lajes



De leitura obrigatória: o texto de Margarida Santos Lopes sobre as horas de incerteza do Xá da Pérsia e a mulher, em 1980, numa pista da base das Lajes, nos Açores, na edição de hoje da revista Pública.

A última imperatriz da Pérsia
Farah Diba Pahlavi: Os EUA retiveram o Xá nos Açores para o entregar a Khomeini

Há quase três décadas no exílio e Farah Diba Pahlavi, que este mês (dia 14) completou 70 anos de vida, ainda não consegue esquecer-se da noite de 23 de Março de 1980 quando um DC9 das Evergreen Air Lines em que viajava fez escala nos Açores. O avião aterrara, oficialmente, para reabastecimento, mas ficou retido várias horas na pista sem autorização para descolar. “Foi um momento de angústia”, conta a última imperatriz da Pérsia, numa rara entrevista por e-mail.
(…)
Dos Açores ao Cairo

O Xá e a Xabanu partiram para o Cairo, às 14h00 locais, no domingo 23 de Março. À noite, o DC9 das Evergreen Air Lines, usado para voos fretados, fez escala nas Lajes, nos Açores, para reabastecimento. Ao fim de uma hora de espera, Farah Diba começou a temer o pior: “Não seria uma tentativa de nos impedir de chegar ao Egipto? Estávamos numa base americana, num avião americano, portanto, tudo era possível.” Inquiridos os responsáveis, a explicação foi a de que o aparelho “precisava de autorização para sobrevoar determinados territórios”.

“Pedi que me deixassem usar um telefone para contactar um amigo em Paris”, recorda Farah Diba na entrevista à Pública. “Informei-o da nossa situação: que Sua Majestade sofria de febre alta, que estava muito frio no avião e que ele notificasse toda a gente se não mais o contactasse. Muitos anos depois, terá sido na década de 1990, encontrei um ministro português dos Negócios Estrangeiros, o senhor André Gonçalves Pereira. Disse-me que a Embaixada dos EUA [em Lisboa] havia sido questionada sobre a nossa retenção na pista, durante mais de quatro horas, e que a resposta foi ‘não podemos dizer-vos’ [mais adiante o ex-ministro dará a sua diferente versão]. No dia seguinte [a 24 de Março de 1980], o embaixador português em Washington fez a mesma pergunta ao Departamento de Estado e, mais uma vez, a resposta foi ‘não podemos dar-lhe nenhuma justificação’.”

Posteriormente, Farah Diba encontrou a explicação para a interminável escala. Quando estava prestes a depositar um pedido de extradição, um dos advogados enviados por Teerão ao Panamá pediu aos EUA que interceptassem o avião em que seguia o casal imperial, porque Saedegh Ghotbzadeh se declarara convicto de conseguir a libertação dos reféns americanos assim que fosse anunciada a detenção do monarca.

A decisão de bloquear o avião nas Lajes terá sido de Hamilton Jordan, chefe de gabinete da Casa Branca e confidente de Carter, embora este não tenha sido avisado. Como não chegava de Teerão qualquer notícia encorajadora, o aparelho foi autorizado a descolar, após quatro horas imobilizado. A 24 de Março, quando o pedido de extradição foi entregue, os Pahlavi chegavam ao Cairo.

Torrijos “não teria hesitado em colocar o Xá em residência vigiada”, convenceu-se Farah Diba. Mas chegaria isso para aplacar a ira dos iranianos? Seja como for, Mohammad Reza Pahlavi não viveria muito mais tempo para restaurar o seu reino. Morreu a 27 de Julho. Sadat, que o instalara no palácio Kubbeh, ofereceu-lhe um imponente funeral de Estado. O corpo jaz na Mesquita de El Rifai, onde Farah Diba vai todos os anos prestar homenagem.

Encontro no Algarve

“Sim fui eu”, confirma André Gonçalves Pereira à Pública. “Fiquei curioso com o que se passara em 1980 e, no ano seguinte, já ministro, procurei averiguar o que se tinha passado nas Lajes. O avião chegou à meia-noite e partiu às oito da manhã. Tenho a certeza de que não foram apenas quatro horas [como disse Farah Diba]. Era estranho. A paragem só deveria ser de meia hora. A tripulação do aparelho alegara falha técnica.” No entanto, confrontadas com um pedido oficial de esclarecimento, responsáveis americanos apenas retorquiram que “não sabiam”. Não podiam, acrescenta Gonçalves Perreira, ter respondido a um Estado soberano “não podemos dizer-vos”, como alega a imperatriz na entrevista.

O ex-chefe da diplomacia foi remexer nos diários onde vai “anotando umas coisas”, e lá estava registado o momento em que deu conta à Xabanu do seu interesse pelo episódio nos Açores. “Ela veio jantar a minha casa no Algarve, em Julho de 1996, e foi então que conversámos sobre este assunto.” A informação que ele tinha era a de que os americanos estavam a negociar com os iranianos, através da Argélia, a entrega do Xá aos mullahs, em troca da libertação dos seus reféns em Teerão. Supostamente, a exigência da República Islâmica era a de que o avião que transportava o soberano deveria deixá-lo na capital iraniana. Os EUA só aceitavam depositá-lo em Argel. E as negociações falharam.”

A versão que Farah Diba relata em Memórias identifica o Panamá e não a Argélia. O antigo ministro salienta: “Nestas coisas de diplomacia ultra-secreta nunca podemos ter certezas”, excepto a de que “não houve razões técnicas mas razões políticas” para o avião ficar retido, e a de que Washington “estava mesmo a negociar a extradição do Xá”.

“Farah Diba escreveu-me depois uma carta a agradecer. Ela é uma mulher muito inteligente e bem informada. Tem um porte imperial. Ainda mantemos contactos esporádicos. Lembro-me de um jantar em Paris. Pedi ao embaixador português que a convidasse.”

Sobre o que se passou nas Lajes, Gonçalves Pereira destaca “o contraste” no tratamento que o Xá teve por parte dos Estados Unidos e do Egipto. “A Administração Carter, que até era relativamente séria, estava disposta a entregar o Xá, que foi aliado fundamental dos Estados Unidos no Médio Oriente, enquanto o Presidente Sadat, numa atitude quase quixotesca, aceitou recebê-lo, ainda que ameaçadíssimo pelo fundamentalismo islâmico, que no ano seguinte viria a assassiná-lo. Era um homem notável.”


Ler na íntegra aqui

Also in english

Thursday, October 09, 2008

Na ressaca da revolução



A CIA não lhe dava muito crédito, mas pelo sim pelo não, a informação seguiu para a “Situation Room”, da Casa Branca, em Washington, a 09 de Março de 1976, a poucas semanas das primeiras eleições legislativas livres e democráticas em Portugal.
Os “rumores” da tentativa de assassínio do Presidente da República, Costa Gomes, durante um encontro com o Josep Broz Tito, presidente da Jusgoslávia, era vista como “um cenário pouco credível”, explicada por uma alegada tentativa dos comunistas de desacreditar o PSD e o CDS no arquipélago.
Mesmo assim, a CIA acha “possível, mas pouco provável”, que a Frente de Libertação dos Açores, com ligações” ao PSD e CDS, estivessem a planear uma tentativa de assassínio e que estaria a criar uma “manobra de diversão” com os “rumores” quanto a Costa Gomes.
O telegrama, que pode ser lido na íntegra aqui, “apagou” todas as referências às “fontes e informação” ou “métodos de recolha”.
Em 1976, ainda vivia a ressaca da revolução...
(Foto semanário Expresso - "O general Costa Gomes preside a uma das primeiras reuniões do Conselho da Revolução")

Monday, September 29, 2008

Kissinger irónico: E se Portugal pertencer à NATO e ao Pacto de Varsóvia?




Henry Kissinger era conhecido pela sua ironia, exercitada em público e em privado em reuniões com dirigentes e líderes mundiais enquanto esteve à frente da diplomacia norte-americana, com Richard Nixon e Gerald Ford.
“Bonne chance, Europe”, desejou Kissinger um dia aos europeus no apoio aos “moderados”, durante o Verão Quente, ele que, durante algum tempo, considerou Portugal “perdido” para os comunistas. De outra vez, ironizou que talvez fosse necessário “atacar” Portugal para expulsar os esquerdistas. Irónico foi também com Frank Carlucci, o embaixador dos Estados Unidos em Portugal, ao questionar se o diploma andava em Lisboa a dar cursos de ciência política em vez de andar “em acção”.
Em Outubro de 1974, cinco meses depois da revolução do 25 de Abril, Kissinger recebeu, num “almoço de trabalho”, em Washington, Edward Gierek, líder do partido comunista polaco. Fala-se na cimeira, em preparação, da CSCE, em Helsínquia, no ano seguinte. Com ele estão o vice-primeiro-ministro Mieczylaw Jagielski e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Stefan Olszowski. A certa altura da conversa, Kissinger pergunta a Gierek se já tinha ido ao México.
O polaco diz que não; que viajou muito pela Ásia e que era a primeira vez que estava naquele hemisfério; esperava, por exemplo, visitar Portugal em breve (o que veio, de facto a acontecer em Janeiro de 1975).
O secretário de Estado norte-americano - que durante o período revolucionário dos governo de Vasco Gonçalves receava pela segurança dos segredos militares da NATO por Portugal ter ministros comunistas - atira a frase: “Acha que eles [portugueses] vão aderir em breve ao Pacto de Varsóvia?”.~
Gierek dá uma resposta diplomática, dizendo que uma proposta nesse sentido “certamente seria considerada seriamente”, que os Estados-membros do Pacto de Varsóvia tinham “privilégios e deveres” a ser aceites e ainda que União Soviética era apenas um dos membros da Aliança.
Ironicamente, o ministro dos Negócios Estrangeiros polaco “sugere”, quanto a Portugal, que “o melhor talvez fosse melhor começar por aderir à COMECON” – a comunidade económica dos países da esfera da URSS.
Kissinger afirma então: “Ainda podemos ter uma situação em que Portugal é simultaneamente membro da NATO e do Pacto de Varsóvia. Acha que isso seria um avanço para a segurança na Europa?”.
A resposta de Stefan Olszowski é que isso abriria uma nova fase de debate na conferência da CSCE (Basket IV).
“Isso seria certamente uma nova experiência”, comentou o vice-primeiro-ministro Mieczylaw Jagielski.
O memorando desta conversa está incluído em mais um volume do "Foreign Relations of the United States", editado este ano pelo Office of the Historian, do Departamento de Estado norte-americano "Foreign Relations, 1969-1976, Volume E-15, Documents on Eastern Europe, 1973-1976". E pode ser consultado, na íntegra, aqui.

DEPARTMENT OF STATE
Memorandum of ConversationDATE: Oct. 8, 1974
TIME: 1:15 p.m.
PLACE: Secretary's Dining Room
PARTICIPANTS:
POLISH:Edward Gierek, First Secretary of Central Committee of Polish United Workers' Party
Mieczyslaw Jagielski, Vice Premier and Chairman of State Planning Commission
Stefan Olszowski, Minister of Foreign Affairs
Richard Frelek, Member of Secretariat of Central Committee of Polish United Workers' Party
Dr. Witold Trampczynski, Polish Ambassador
Jerzy Waszczuk, Director, First Secretary's Office, Central Committee of Polish United Workers' Party
Marian Kruczkowski, First Deputy Director of the Press, Propaganda and Publications, Department of the Central Committee
Romuald Spasowski, Vice Minister, Ministry of. Foreign Affairs
U.S.:
The Secretary
The Deputy Secretary
Ambassador Richard T. Davies
Helmut Sonnenfeldt, Counselor
Arthur A. Hartman, Assistant Secretary for European Affairs
Senator H. H. Humphrey
Senator Charles Percy
Representative Clement Zablocki

SECRETARY: The First Secretary and the President had an interesting meeting in which they reviewed the state of our relations in a constructive and positive spirit. These discussions will continue before and after dinner this evening. We attach great importance to this visit. We recognize the state of your existing relations and we know the realities of geography and history and what they meant to the Poles and Poland. We do not believe, however, that there is anything inconsistent between these realities and an improvement in relations between Poland and the United States. It is in this spirit that we approach your visit, Mr. First Secretary.
GIEREK: I can only add that all the things I have said conform with our vital interests and our sincere intent to develop friendly relations with the United States. We know our place and we know what our situation is. It is precisely because we do know these things that we feel we can contribute more to developing co-existence and to the lasting friendship we have with the United States.
(…)
GIEREK: This is the first time I have visited this hemisphere. I have traveled widely in Asia.
SECRETARY: To China?
GIEREK: Yes, and I have been to Viet-Nam, Cambodia, Laos, Indonesia--all over Asia. In Europe I have been to every country with the exception of Portugal and I hope soon to go there.
SECRETARY: Do you think they will join the Warsaw Pact soon?
GIEREK: We would certainly give serious consideration to that but, as you know, in the Warsaw Pact there are both privileges and duties that must be accepted. So far, however, there has been no such development. The Soviet Union is only one of the members. We would all have our own opinion.
ZABLOCKI: Do all the members of the Warsaw Pact have an equal voice?
GIEREK: Yes.
OLSZOWSKI: As concerns Portugal, it might be better for them to start with COMECON.
FRELEK: Yes, the Portuguese have an economic problem.
SECRETARY: We may yet have a situation in which Portugal is a member both of NATO and the Warsaw Pact. Do you think that would advance European security?
OLSZOWSKI: That could be Basket IV.
JAGIELSKI: That would certainly be a new experience.

Monday, September 22, 2008

Kissinger, Carlucci e a revolução





História: Livro revela que Carlucci comandou actividades da CIA em Portugal em 1975

Lisboa, 22 Set (Lusa) - Frank Carlucci, embaixador dos Estados Unidos em Portugal durante a revolução, admitiu que todas as actividades da CIA no país no Verão Quente de 1975 foram coordenadas directamente por ele.
A revelação é feita no livro "Carlucci vs. Kissinger - Os EUA e a Revolução Portuguesa", de Bernardino Gomes e Tiago Moreira de Sá (Ed. D. Quixote) que, com recurso a documentos desclassificados dos arquivos norte-americanos, reconstitui em cerca de 500 páginas a forma como os Estados Unidos acompanharam a situação em Portugal de 1974 a 1976.
"Tudo o que a CIA fez foi sob o meu comando. Qualquer acção que possa ter desenvolvido destinava-se a executar a política dos EUA, que era apoiar as forças democráticas em Portugal. A CIA era parte da equipa [da embaixada] e eles faziam o que lhes mandava", afirma o ex-diplomata na obra.
Carlucci foi sempre um alvo do PCP e da extrema-esquerda. Chegou a Portugal no início de 1975, meses depois do 25 de Abril, em pleno ambiente revolucionário, e tinha palavras de ordem contra ele pintadas nas paredes de Lisboa.
A declaração do ex-diplomata é feita a propósito da importância que dava às "informações" e para explicar o primeiro diferendo que teve com o secretário de Estado, Henry Kissinger, sobre a revolução portuguesa e a resposta a dar pelos Estados Unidos.
Carlucci estava a favor dos "moderados" e Kissinger, durante algum tempo, alimentou a teoria da vacina - que Portugal estava perdido para os comunistas e que, por isso, serviria de "vacina" para outros países em transição, como Espanha e Grécia, ou onde os comunistas tinham crescente influência, Itália.
Sem seu conhecimento prévio, em finais de Janeiro de 1975, o Departamento de Estado envia a informação, tendo como base os serviços de informações, de que "o PCP e elementos de esquerda do MFA" estariam a "planear um golpe" contra os moderados - informações que Carlucci desvalorizou, pedindo que, de futuro, pudesse ter "acesso a toda a informação de 'intelligence' e uma hipótese de a comentar antes de ela ser distribuída".
No livro, os dois autores apresentam "a visão e a acção política dos Estados Unidos em Portugal durante a transição democrática", em que Washington receou que Portugal se tornasse um país comunista.
E concluem: "A acção da América acabou mesmo por contribuir para a vitória das forças democráticas".
Outra das conclusões é que, apesar de Washington ter sido surpreendida pelo golpe do Movimento das Forças Armadas (MFA), a 25 de Abril de 1974, que derrubou uma ditadura de 48 anos, foi recebendo muitas informações sobre a eventualidade de um golpe dos jovens oficiais.
Um exemplo: a 23 de Abril de 1974, um diplomata norte-americano de passagem por Lisboa, Bob Bentley, encontrou-se com um "colaborador próximo" do presidente do conselho a um dia de ser deposto, Marcello Caetano, que lhe falou da iminência de um golpe.
Bentley dirigiu-se à sua embaixada em Lisboa, onde o número dois, Richard Post (em substituição do embaixador Stuart Nash Scott, ausente a caminho dos Estados Unidos), dizendo-lhe o que apurara.
Richard Post, com quem Bentley tinha más relações, "respondeu-lhe que não tinha nada a ver com o assunto e expulsou-o do seu gabinete".
Este trabalho resulta de quatro anos de investigação nos Estados Unidos e em Portugal, através da consulta de arquivos e de muitos documentos norte-americanos desclassificados, e aborda todas as fases da revolução portuguesa - o 28 de Setembro, o golpe de 11 de Março, o Verão Quente e o 25 de Novembro.
Com um Governo em que participavam ministros comunistas, os Estados Unidos receavam pela segurança dos segredos militares da NATO, tendo equacionado o cenário de expulsão ou "quarentena" da Aliança Atlântica.
Num país à beira da guerra civil, no Verão Quente, os autores consideram que o PS, liderado por Mário Soares, chegou mesmo a "pedir ajuda militar" - pedido esse recusado - e que só terá chegado passado o 25 de Novembro, com a entrega de material para a tropa de choque.
A apresentação está marcada para dia 30 de Setembro na Fundação Luso-Americana, em Lisboa, numa cerimónia em que estarão presentes o presidente da Assembleia da República, Jaime Gama.
Bernardino Gomes é licenciado em Ciências Políticas pela Universidade de Lovaina (Bélgica), foi chefe de gabinete de Mário Soares quando este era primeiro-ministro, é assessor do Ministério dos Negócios Estrangeiros e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais.
Tiago Moreira de Sá foi jornalista (1995-2003), é historiador, autor do livro "Os Americanos na Revolução Portuguesa" (Ed. Notícias) e actualmente é investigador do IPRI - Universidade Nova.


NS.
Lusa/fim


A foto é deste ano, de Ron Edmonds, da AP. A legenda, em inglês, é: "Former Secretary of States Henry Kissinger, left, Madeleine Albright, second from left, along with current Secretary of State Condoleezza Rice, second from right, and former Defense Secretary Frank Carlucci, right, listen as President Bush speaks during a ceremonial groundbreaking ceremony for the United States Institute of Peace at Navy Hill, Thursday, June 5, 2008, in Washington.

O texto é meu e foi publicado hoje na Agência Lusa.

Um livro importante

Há um livro novo e importante sobre a revolução portuguesa e como ela foi vista dos Estados Unidos.
O título é "Carlucci vs. Kissinger - Os EUA e a Revolução Portuguesa", escrito por Bernardino Gomes e Tiago Moreira de Sá.

(voltarei ao assunto)

Sunday, September 14, 2008

Um desejo

Um dia, se pudesse e tivesse tempo, gostava de escrever as biografias de dois homens: Palma Inácio e Camilo Mortágua.

Mais revelações sobre as armas nucleares nas Lajes


O trabalho do Armando Mendes, jornalista e autor do livro “Os Açores e a Projecção de Força nos Cenários pós-Guerra Fria” (ed. Universidade dos Açores), é um importante contributo para o árduo trabalho de perceber o papel das Lajes na estratégia militar norte-americana, incluindo a estratégia e planeamento nuclear.
Um importante contributo por Armando Mendes ter conseguido o testemunho de quem teve conhecimento, por dentro, do que se passava: o “on” sobre a presença, na Base das Lajes, na década de 90, de uma comissão do Senado e, mais, a notícia do processo de um militar num tribunal norte-americano com a alegação de ter estado exposto a materiais nucleares. Mais e ainda: o “on” sobre os níveis de urânio e trítio na ilha e a opinião de um cientista que não afasta o cenário de armas nucleares.
Estes dois “pormenores” – tratando-se do assunto que é, sempre rodeado de muros de silêncio, da parte de governo, de generais e militares – são tudo menos “pormenores”. Por isso, as notícias desta semana da Antena1-Açores serem importantes para somar a todos os indícios que ao longo dos anos foram sendo relevados, mais do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, do que em Portugal.

Numa conversa telefónica com Armando Mendes disse-lhe que já era tempo de as autoridades portuguesas revelarem dados históricos sobre a participação de Portugal na estratégia nuclear dos Estados Unidos. E refiro-me a História, não a segredos militares.
Não faz muito sentido os Estados Unidos revelarem parte (ínfima) do acordo com Portugal – a que permitiu, desde a década de 50, a passagem e armazenamento temporário de armas nucleares – e os arquivos do MNE continuarem fechados a sete chaves.
Nos arquivos norte-americanos há muitos documentos com muitas páginas apagadas, nomeadamente quanto a questões e missões militares das Lajes.

Friday, September 12, 2008

Lajes e as armas nucleares norte-americanas


É uma notícia importante, desta semana, na Antena1-Açores.
Ouvir toda a notícias no site da Antena1-Açores.
(Voltarei ao assunto)


Notícias/Sociedade
Armas nucleares na Base das Lajes

Uma comissão do Senado dos Estados Unidos terá estado nos anos noventa na Base das Lajes a investigar a passagem pelos Açores de armas nucleares.
A vinda da comissão foi despoleta por militares americanos doentes que se queixaram de terem sido expostos a radiações.

Não foi possível encontrar documentos sobre o assunto, mas fontes militares portuguesas, que preferiram manter o anonimato, e antigos trabalhadores civis da base confirmam os factos.
É normal que se trate de um dossier classificado por trinta anos, conforme as normas americanas.
No livro "Portugal Classificado - documentos secretos norteamericanos, 1974-1975", o investigador Nuno Simas revela que o governo português autorizou a passagem de armas nucleares pelos Açores nos anos cinquenta.
Estudos americanos independentes confirmam, por outro lado, que alguns aviões P3 Orion, de luta anti-submarina estavam equipados com armas nucleares.
A Base das Lajes foi, até ao fim da guerra fria, um ponto de apoio a esses aviões que vigiavam a presença de submarinos soviéticos no Atlântico.
O investigador Félix Rodrigues, da Universidade dos Açores, confirma a presença na Terceira de materiais como urânio e tritio, sobretudo no interior, o que pode indiciar terem existido depósitos nucleares em locais isolados da ilha.

Notícia: Armando Mendes, Antena 1-Açores.

Sunday, August 24, 2008

A propaganda soviética e a revolução portuguesa (v)







No livro de Ignatiev, claro, não podia faltar o ataque do MRPP (p.151-156). O autor descreve (?) uma reunião na embaixada norte-americana em Lisboa (novamente com citações e tudo) em que tenta provar que o MRPP tinha as boas graças do Tio Sam e, na prática, eram aliados. Apesar de Arnaldo Matos ser considerado "um dirigente que não vale nada e, politicamente, é pivete que nunca terá peso real no cenário político português". PCPT/MRPP e EUA estavam unidos pelo objectivo comum de "destruir o PCP" e o MFA.
Lá dizem os italianos: "Si non è vero è ben trovato"...

Friday, August 22, 2008

A propaganda soviética e a revolução portuguesa (iv)



Recomenda-se - além da leitura do livro, claro - uma atenção especial à página 245.
Outra ao pedido "Ao leitor", duas páginas à frente.

Thursday, August 21, 2008

A propaganda soviética e a revolução portuguesa (iii)


O jornalista e autor de "O «Apollo» parte para águas alheias" Oleg Ignatiev, nascido em 1924 e formado em Relações Internacionais, é apresentado na contracapa como jornalista do Pravda, autor de "mais de 600 artigos sobre Portugal com a assinatura O. Ignatiev". [Sempre achei este tipo de contabilidade uma obsessão muito comunista].
Não discuto a questão das empresas de fachada da CIA nem os seus estratagemas, como seria o caso do iate "Apollo".
Há informações cruzadas e incontroversas no livro que é apresentado como "narração documental completa". O que não apresenta são as fontes utilizadas - a não ser uma ou outra referência ao relatório da Comissão Pike, que analisou o falhanço dos serviços de informação norte-americanos na década de 70...
E os erros são clamorosos. Um dos que salta à vista é logo nas páginas 8 e 9 (ler "post" anterior) em que descreve - com citações e tudo... - a discussão na embaixada norte-americana em Lisboa sobre o 25 de Abril logo na manhã do dia do golpe dos oficiais do MFA. Numa sala estão John Morgan, um "homem da CIA", e o embaixador em Lisboa, Stuart Nash Scott. Escrevi estão a negrito e itálico porque Nash Scott estava nessa manhã nos Açores, na base das Lajes. A dormir!... O embaixador seguiu depois viagem para Nova Iorque e só voltou no final do mês. O próprio Scott o escreveu nas memórias e há registos da sua passagem pelas Lajes.
Mais intrigante é saber como terá Ignatiev obtido as actas de uma reunião do Comité dos 40, liderada por Henry Kissinger, secretário de Estado e conselho nacional de segurança, sobre "operações secretas" da "companhia" em Portugal.
Tanto ou ainda mais intrigante foi o jornalista do "Pravda" ter conseguido o teor - com citações e tudo... - das conversações entre um director da CIA, Vernon Walters, com o sucessor de Scott na embaixada de Lisboa, Frank Carlucci, nos meses da brasa em 1975.
E que dizer de Ignatiev ter posto na mesa das conversações dos presidentes de Portugal, António de Spínola, e dos Estados Unidos, Richard Nixon, num encontro na base das Lajes, em Junho de 1974, o líder do então PPD e ministro sem pasta, Francisco Sá Carneiro, além de outros membros da delegação de Nixon? Ora, a conversa foi a dois, Spínola-Nixon, apenas com a presença de um tradutor...
Enfim, a ser tudo verdade, como é contado, era um bom enredo para um livro de Le Carré. Ou então a KGB era verdadeiramente uma "máquina" mais terrível que o Echelon!

A propaganda soviética e a revolução portuguesa (ii)







A propaganda soviética e a revolução portuguesa (i)




O livro de Oleg Ignatiev, correspondente do Pravda em Lisboa, de 1979 a 1984, é um exemplo - com alguns pormenores desarmantes, da propaganda soviética no tempo da Guerra Fria. No caso, sobre Portugal. É das Edições Progresso, "Impresso na URSS", em 1985.


Era a verdade a que eles tinham direito.

Tuesday, August 19, 2008

Pedradas do MRPP custaram 8 a 10 mil dólares à Mobil em 1973


Em 1973, o PCTP/MRPP já era citado nos telegramas da embaixada norte-americana em Lisboa. O autor do telegrama 04643, de 19 de Dezembro de 1973, é Richard Post, “número dois” da embaixada. Activistas do MRPP atacaram, à pedrada, o principal escritório da empresa Móbil, em Lisboa. “Os danos estimados pela empresa são de oito a 10 mil dólares.” As sedes de outras empresas americanas – Readers Digest e Ford – “também foram apedrejadas, provavelmente pelo mesmo grupo”.
Richard Post apresenta o MRPP como “uma pequena facção maoista de extrema-esquerda que no passado tem distribuído panfletos, mas sem causar danos”.


LIMITED OFFICIAL USE
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15
ACTION EUR-25
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--------------------- 052871
R 191554Z DEC 73
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC 8912
INFO AMCONSUL LOURENCO MARQUES
AMCONSUL LUANDA
AMCONSUL OPORTO
AMCONSUL PONTA DELGADA
USMISSION GENEVA
LIMITED OFFICIAL USE LISBON 4643
GENEVA FOR SECRETARY'S PARTY
EO 11652: N/A
TAGS: PINS, PO
SUBJ: US FIRMS STONED BY COMMUNIST YOUTHS
1. MAIN OFFICE OF MOBIL PORTUGUESA WAS STONED ABOUT
8:00 P.M., DECEMBER 18 BY 15-20 YOUTHS. DAMAGE ESTIMATED
BY COMPANY AT $8-10,000.
2. LEAFLETS AT SCENE IDENTIFIED PERPETRATORS
AS MRPP (RE-ORGANIZED MOVEMENT OF PORTUGUESE PROLETARIAT),
A SMALL MAOIST FAR LEFT FACTION WHICH HAS IN PAST
DISTRIBUTED LEAFLETS BUT NOT CAUSED DAMAGE.
3. ONE LEAFLET, DATED DECEMBER 17, HEADLINED "KISSINGER
OUT OF PORTUGAL." STRIKING AT US AND PORTUGAL ON USUAL
COMMUNIST THEMES, LEAFLET TOOK GOP TO TASK FOR SELLING

PAGE 02 LISBON 04643 200711Z
NATION TO US AND CLAIMED GOP ADVANCED DATE OF
SECRETARY'S VISIT TO PORTUGAL FROM DEC. 20 TO DEC. 17
BECAUSE OF POPULAR OPPOSITION TO VISIT.
4. LEAFLET WENT ON TO DECRYUS DOMINATION OF
PORTUGUESE ECONOMY, US AIR BASES IN PORTUGAL AND AZORES,
ATOMIC BOMBS STORED IN PORTUGAL AND POLARIS
SUBMARINE BASE AT PRAIA. (SMALL PORT ON TERCEIRA ISLAND FOR
LAJES FIELD.)
5. DOWNTOWN OFFICES OF READER'S DIGEST AND FORD WERE
ALSO STONED, PERHAPS BY SAME GROUP.
POST
LIMITED OFFICIAL USE
NNN

(o símbolo e a história do PCTP/MRPP foi retirado do “site” Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra, e o telegrama consultado no “site” dos National Archives)

Monday, August 18, 2008

EUA recusaram apoio a Spínola cinco dias antes do 25 de Abril *


Nuno Simas
Agência Lusa

Os Estados Unidos recusaram apoiar um apelo da Holanda e do ministro português da Educação em 1974, Veiga Simão, para pressionarem Marcelo Caetano a aceitar as teses de Spínola para uma solução política na guerra colonial em África.
"Uma aproximação nesse sentido pelo Governo [norte-americano], de apoio às teses de Spínola não contribuiria para uma política mais flexível de Portugal em África", afirma Henry Kissinger, secretário de Estado norte-americano, num telegrama enviado ao embaixador em Lisboa, Stuart Nash Scott, datado de 20 de Abril de 1974, a cinco dias do golpe que derrubou a ditadura.
Os telegramas trocados entre a representação americana em Lisboa e o Departamento de Estado nos meses de Março e Abril, antes do golpe do 25 de Abril - desclassificados em 2003 e consultáveis na página dos Arquivos Nacionais norte-americanos www.archives.gov - revelam as derradeiras tentativas de influenciar Marcelo Caetano a resolver o problema colonial - a guerra prolongava-se há 14 anos e já fizera milhares de mortos.
E houve várias nesse período em que Portugal assistiu a mais uma tentativa (falhada), a 16 de Março de 1974, para derrubar a ditadura - o golpe das Caldas - e em que o Movimento das Forças Armadas (MFA) conspirava activamente para derrubar o sucessor de Salazar.
Em Fevereiro, fora António de Spínola, antigo comandante militar da Guiné e ex-vice-Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, a dar mais um abalo ao regime com a publicação de "Portugal e o Futuro", o livro que propunha uma saída política para a guerra colonial e uma solução federal para as "colónias".
A 27 de Março, a Holanda apresentou um memorando intitulado "Descolonização dos territórios de Portugal em África", entregue no Departamento de Estado norte-americano e nas chancelarias de outros países europeus, e em que propunha o início de negociações - "enquanto é tempo" - com os movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
Dois dias depois, Henry Kissinger assinou um telegrama em que informa a embaixada em Lisboa, e as restantes representações diplomáticas na Europa e África, do rotundo "não" americano explicado em três pontos.
Primeiro, afirma a "simpatia" dos Estados Unidos pela proposta holandesa, mas lembra os resultados "nada produtivos" dos contactos com Portugal a favor da autodeterminação das "possessões africanas portuguesas".
Em segundo lugar, Washington afirma o seu cepticismo quanto a esta iniciativa, ainda mais tendo em conta "a crise política interna" criada com o livro de Spínola, que poderia ser interpretada pelo Governo português "como uma interferência nos assuntos internos".
Por fim, o Governo norte-americano não podia associar-se a uma iniciativa deste tipo face às "delicadas e difíceis negociações" para renovação da Base das Lajes, nos Açores, que os Estados Unidos utilizavam desde a II Guerra Mundial.
A nível interno, uma das últimas tentativas de ajudar a "abrir" o regime partiu de um ministro da Educação do próprio Marcelo Caetano.
A 2 de Abril de 1974 - a 23 dias do golpe dos capitães -, Veiga Simão tentou convencer o embaixador Stuart Nash Scott a pressionar o presidente do conselho a aderir às teses que Spínola expusera em "Portugal e o Futuro", o livro que pôs Washington de sobreaviso para a crise profunda em que vivia a ditadura, velha de 48 anos.
Veiga Simão foi almoçar com o "número dois" da embaixada para explicar a Richard Post que uma aproximação a Caetano reforçaria as posições do professor de direito, numa altura em que estava a braços com a pressão da ala mais à direita do regime, como o general Kaulza de Arriaga, em aliança com o Presidente Américo Tomás.
"Veiga Simão indicou que algumas coisas levavam o seu tempo e que ele achava que Caetano era favorável a uma maior liberalização e que uma aproximação deste tipo pelos EUA poderia ajudar Caetano a resolver os problemas no seu tempo", conclui Scott num telegrama para o Departamento de Estado.
Após a conversa, o diplomata escreveu que a iniciativa do ministro, no Governo de Marcelo Caetano desde 1970, poder ser interpretada como uma tentativa de "fazer frente" aos "ultras" do regime.
E concluiu que seria "contraproducente" uma iniciativa deste tipo por parte dos Estados Unidos face "à situação política tensa" em Portugal e também face relacionamento distante do diplomata americano, que chegara a Lisboa há pouco meses, tanto com Marcelo Caetano como com Rui Patrício, ministro dos Negócios Estrangeiros.
Enquanto a diplomacia ia falhando e a situação militar no Ultramar se complicava para Portugal, os oficiais do MFA já tinham concluído, por esses dias, os planos do golpe militar para derrubar o regime que já fora de Salazar e era agora de Caetano.
António de Spínola, em quem os Estados Unidos não confiaram para derrubar o regime, foi o general escolhido para receber o poder de Marcelo Caetano, na tarde de 25 de Abril, e tornou-se Presidente da República. Por escassos cinco meses, até 30 de Setembro.

* Uma peça minha de 09 de Serembro de 2006 encontrada "algures" na Internet.

Thursday, August 14, 2008

Maoístas na pátria de Mao


O telegrama de Carlucci, embaixador norte-americano em Lisboa, não é sequer classificado. Foi enviado – "unclassified" - a 11 de Abril de 1975 para o Departamento de Estado. O assunto é desenvolvido em apenas dois parágrafos e explica que dois grupos maoístas rivais tinham enviado delegações à China - uma da Associação de Amizade Portugal-China, apoiada pelo MRPP, e outra da Associação Democrática de Amizade Portugal-China, apoiada pelo PCP-ML e da AOC.
De cada uma, é descrita a delegação de "camaradas" portugueses seguidores de Mao. Do MRPP foi Francisco Baptista e Afonso Albuquerque (na foto) e a segunda delegação era composta pelo secretário-geral do PCP-ML, José Manuel Pires de Carvalho Vilar, e por Carlos José Guinote, do Comité Central da AOC.
O texto do diplomata norte-americano ilustra as divisões entre os grupos maoístas: "Numa entrevista, a 08 de Abril, um porta-voz da AOC afirmou que Vilar e Guinote estavam na China a convite do país, demonstrando o apoio ‘do Partido Comunista Chinês ao PCP-ML". Um porta-voz do grupo rival denunciou a visita do grupo apoiado pelo PCP-ML destinava-se "apenas a aprofundar a divisões dos amigos da China".

UNCLASSIFIED
PAGE 01 LISBON 02082 111932Z
15
ACTION EUR-12
INFO OCT-01 AF-06 EA-10 ISO-00 CIAE-00 PM-03 H-02 INR-07
L-02 NSAE-00 NSC-05 PA-02 PRS-01 SP-02 SS-15 USIA-15
SAM-01 SAJ-01 /085 W
--------------------- 101158
R 111332Z APR 75
FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC 2458
INFO AMEMBASSY BONN
AMCONSUL HONG KONG
AMEMBASSY LONDON
AMCONSUL LOURENCO MARQUES
AMCONSUL LUANDA
AMEMBASSY MADRID
AMEMBASSY MOSCOW
AMEMBASSY PARIS
USLO PEKING
USMISSION NATO
DIA WASHDC
USCINCEUR VAIHINGEN GER
AMCONSUL OPORTO
AMCONSUL PONTA DELGADA
UNCLAS LISBON 2082
E.O. 11652: N/A
TAGS: PINT, PFOR, PO, CH
SUBJ: RIVAL FAR LEFTISTS VISIT CHINA
1. TWO RIVAL MAOIST PARTIES HAVE SENT DELEGATIONS TO CHINA.
MRPP SUPPORTED "PORTUGAL-CHINA FRIENDSHIP ASSOCIATION" (AAP-C)
IS REPRESENTED BY FRANCISCO BAPTISTA AND AFONSO ALBUQUERQUE.
"DEMOCRATIC ASSOCIATION OF PORTUGAL-CHINA FRIENDSHIP," SUPPORTED
BY MARXIST-LENINIST COMMUNISTS (PCP-ML) AND THEIR ELECTION
CAMPAIGN CREATION, THE WORKER-PEASANT ALLIANCE (AOC), HAVE SENT
PCP-ML SECRETARY GENERAL JOSE MANUEL PIRES DE CARVALHO VILAR AND
AOC CENTRAL COMMITTEE MEMBER CARLOS JOSE GUINOTE.
UNCLASSIFIED

UNCLASSIFIED
PAGE 02 LISBON 02082 111932Z

2. AOC SPOKESMAN IN PRESS INTERVIEW APRIL 8 STATED THAT
VILAR AND GUINOTE WERE IN CHINA AT THAT COUNTRY'S INVITATION,
DEMONSTRATING THAT "CHINESE COMMUNIST PARTY IS GIVING POLITICAL
SUPPORT TO THE PCP-ML." AAP-C SPOKESMAN DENOUNCED PCP-ML/AOC
GROUP'S VISIT AS BEING DESIGNED "ONLY TO (FURTHER) DIVISION OF
THE FRIENDS OF CHINA."
CARLUCCI
UNCLASSIFIED

Sunday, August 10, 2008

O (des)interesse da China em Portugal visto de Hong Kong


A 10 de Junho de 1975, o consulado norte-americano em Hong Kong fazia uma análise ao(s) interesse(s) da China em Portugal e na Revolução portuguesa, então em fase de efervescência. É o telegrama Hong Kong 06408, enviado para o Departamento de Estado com o carimbo de “Confidencial” e que pode ser consultado no “site” dos National Archives.
Um resumo:
1. Pequim não conseguiu mais do que uma presença “simbólica” em Portugal.
2. O problema de Macau era peça fundamental para Pequim manter o “status quo”, sem dar muito alento aos grupos ou partidos maoístas.
3. Pequim receava as intenções do novo regime, com a influência do PCP pró-Moscovo, quanto a Macau; o consulado admite o cenário de devolução imediata de Macau à China ou, pior ainda, que a União Soviética viesse a ter influência no território – “o que seria intolerável para a República Popular da China. [Recorde-se que o PCP de Álvaro Cunhal alinhara pela URSS no “cisma” sino-soviético].
4. Quanto aos “grupos” ou partidos maoistas em Portugal, a leitura do consulado americanos em Hong Kong é que Pequim tem tentado ignorá-los, dado que há um conflito entre os interesses de uma potência como a China – a favor de um bloco europeu ocidental forte que “trave” a União Soviética – e esses “grupos” maoistas. “As actividades e os programas dos chamados grupos maoistas em Portugal não estão em sintonia com os interesses da China e demonstram a incapacidade de Pequim exercer controlo sobre os grupos que reclamam maoistas”.
Próximo post: as visitas dos grupos maoístas à China.

Telegrama na íntegra:

CONFIDENTIAL
PAGE 01 HONG K 06408 100142Z
70
ACTION EA-10
INFO OCT-01 ISO-00 EUR-12 IO-10 CIAE-00 PM-03 H-02 INR-07
L-03 NSAE-00 NSC-05 PA-01 PRS-01 SP-02 SS-15 USIA-06
SAJ-01 SAM-01 /080 W
--------------------- 109430
R 101145Z JUN 75
FM AMCONSUL HONG KONG
TO AMEMBASSY LISBON
INFO AMEMBASSY BONN
USMISSION NATO
AMEMBASSY LONDON
AMEMBASSY MADRID
AMEMBASSY MOSCOW
USLO PEKING
AMEMBASSY PARIS
AMEMBASSY STOCKHOLM
SECSTATE WASHDC 5357
/DIA WASHDC
USCINCEUR VAIHINGEN GER
USMISSION USUN
C O N F I D E N T I A L HONG KONG 6408
E.O. 11652: GDS
TAGS: PFOR PO CH
SUBJ: CHINESE PRESENCE IN PORTUGAL
REF: LISBON 3162
1. REFTEL DRAWS ATTENTION TO PEKING'S FAILURE TO ESTABLISH
MORE THAN A TOKEN PRESENCE IN PORTUGAL. IT IS TRUE THAT
ESTABLISHMENT OF DIPLOMATIC RELATIONS WITH LISBON WOULD AFFORD
PEKING AN OPPORTUNITY TO ESTABLISH A GREATER PRESENCE IN
PORTUGAL AND TO LODGE ANOTHER BLOW TO TAIWAN EFFORTS TO
REMAIN DIPLOMATICALLY AFLOAT. GIVEN THE CURENT POLITICAL SITUATION
IN LISBON, HOWEVER, PEKING SEES SOME RISKS IN
FORMALIZING TIES WITH LISBON.
CONFIDENTIAL
CONFIDENTIAL
PAGE 02 HONG K 06408 100142Z
2. PEKING NOT ONLY IS UNCERTAIN OF LISBON'S INTENTIONS VIS-A-VIS THE
PORTUGUESE ADMINISTERED ENCLAVE OF MACAU, BUT CLEARLY
PREFERS MAINTENCANCE OF THE POLITICAL STATUS QUO IN MACAU.
LISBON, HOWEVER, HAS TENDED TO LINK TALKS LEADING TO DIPLOMATIC
TIES WITH DISCUSSIONS ON THE FUTURE STATUS OF MACAU. CHINA'S
DESIRE TO AVOID HAVING THE SUBJECT OF MACAU'S FUTURE BROUGHT
IN TO QUESTION AT THIS PARTICULAR TIME IN LARGE PART ACCOUNTS
FOR PEKING'S KPUBLIC) UNRESPONSIVENESS TO ANY LISBON OVERTURE.
3. MOREOVER, GIVEN THE INCREASED INFLUENCE OF THE PRO-MOSCOW
COMMUNIST PARTY IN PORTUGAL, MOVES TOWARD ESTABLISHMENT OF
DIPLOMATIC RELATIONS COULD HAVE UNFAVORABLE REPRECUSSIONS
ON PRC INTERESTS IN ASIA. THE CHINESE PROBABLY ARE CONCERNED
LEST THE PRO-SOVIET INFLUENCE IN PORTUGAL RESULTS IN LISBON'S
ATTEMPTING TO EMBARRASS THE PRC OR IMPEL PEKING TO REASSERT
ADMINISTRATIVE CONTROL OVER MACAU (E.G., IN SPITE OF PRC
PROTESTATIONS , LISBON COULD UNILATERALLY RETURN MACAU TO PRC
AUTHORITIES OR APPROVE A SOVIET PRESENCE IN MACAU, THE LATTER
BEING INTOLERABLE TO THE PRC.)
4. AS TO RELATIONS WITH PRO-CHINA COMMUNIST PARTIES, PEKING
HAS TENDED TO BE HIGHLY SELECTIVE IN EXTENDING IT SUPPORT
AND ASSISTANCE TO SELF-STYLED "MAOIST" GROUPS. WHEN ACTIONS
OR INTERESTS OF SUCH GROUPS RUN COUNTER TO PRC INTEREST, CHINA
HAS BEEN KNOWN TO REPUDIATE OR IGNORE SUCH GROUPS. PEKING
FAVORS A POLITICALLY STAGLE AND UNIFIED WESTERN EUROPE AND
LOOKS UPON INSTANCES OF POLITICAL I STABILITY AS PROVIDING
OPPORTUNITIES FOR FURTHER SOVIET INROADS. THUS, THE ACTIVITIES
AND PROGRAMS OF THE SO-CALLED MAOIST GROUPS IN PORTUGAL DO
NOT ACCORD WITH PRC INTERESTS AND ARE INDICATIVE OF PEKING'S
INABILITY TO EXERCISE CONTROL OVER GROUPS WHICH MAY
CLAIM TO ESPOUSE MAOIST CONCEPTS.
CROSS

Friday, August 08, 2008

Mao super pop...


... sem limão!

Mas bem passado com colorido wharoliano!

Que haverá dos maoistas portugueses nos arquivos norte-americanos?

Uma foto pouco apropriada para férias


Saturday, July 26, 2008

A crítica no Expresso

O PREC visto pelos olhos do «amigo americano» vencedor

«NÃO TRAZ grandes novidades!», sentenciou José Pacheco Pereira, na apresentação do livro Portugal Classificado. Nem por isso o historiador poupou elogios à obra de Nuno Simas, editada pela Alêtheia. Por paradoxal que pareça, tem toda a razão - nos elogios e na sentença. É que a constatação de Pacheco, como o próprio reconheceu então, está longe de constituir o apontar de um defeito. Ao contrário: a grande qualidade do trabalho de Simas, passado a escrito após sete anos de pesquisa, consiste em confirmar, através do recurso a documentos de autenticidade insofismável, a natureza da posição do Governo dos Estados Unidos da América (EUA) sobre Portugal, entre 1973 e 1975. Uma posição tanto mais importante quanto, apesar de todos os erros de cálculo, os norte-americanos não podem deixar de ser colocados entre os vencedores da «revolução» portuguesa. É verdade, como o livro comprova, que os EUA não só não previram o próprio 25 de Abril de 74, como, para utilizar uma expressão de António José Teixeira, no prefácio da obra, foram apanhados «às escuras» pelos seus preparativos. Em Dezembro de 1973, ainda se escrevia num relatório da embaixada americana em Lisboa: «É improvável que se registe instabilidade séria nos próximos meses.» As previsões desastrosas continuaram durante muito tempo. «Em Novembro de 1974, Kissinger foi muito claro quanto às previsões para o futuro do país quando disse a Mário Soares: ‘Quando um país tem um presidente Costa Gomes e um primeiro-ministro Vasco Gonçalves dominados pelo Partido Comunista; quando as forças armadas estão sob o domínio comunista; e quando a comunicação social se encontra dominada, a situação é irreversível’.» O certo é que, apesar de tamanhos erros de análise, os EUA vão revelar uma enorme capacidade de recuperação. Em Janeiro de 75, substituem o embaixador Stuart Scott por Frank Carlucci. Este, mesmo se isso o leva a entrar em frequentes contradições com o centro do poder, em Washington, abandona Spínola à sua sorte, neutraliza Costa Gomes, isola Vasco Gonçalves e Otelo, rejeita qualquer intervenção armada, pressiona com o afastamento de Portugal da NATO e aposta tudo no PPD, no PS e no «grupo dos nove». A 26 de Novembro pode escrever a Henry Kissinger: «A operação de ontem à noite é portuguesa. Se nos associarmos a esta operação isso só pode fragilizar os moderados e prejudicar os seus esforços de capitalizar com os acontecimentos.» Nuno Simas tem a enorme virtude de colocar, com a autoridade que confere a posse de cópias de mais de mil documentos, afirmações como esta na boca dos próprios. O que só é possível porque, como afirmou outro jornalista, Pedro Correia (no blogue «Corta-Fitas»), «o Nuno é um excelente praticante de uma modalidade infelizmente quase extinta: o jornalismo de investigação».João Mesquita

NUNO SIMAS
Portugal Classificado
Alêtheia, 2008, 306 págs., €18

(Recensão do Expresso, sem "link", copiada à "mão")

Friday, July 25, 2008

Amanhã, no Expresso...

... sai a crítica ao meu livro, no caderno Actual. É assinada pelo João Mesquita.

Tensão entre o PCP e a Roménia de Ceausescu

As relações entre o PCP e os comunistas romenos eram tudo menos pacíficas na década da revolução portuguesa, por causa da proximidade do partido liderado por Álvaro Cunhal.
As embaixadas dos Estados Unidos na Europa, a começar por Lisboa e por Frank Carlucci, mantinham boas relações com os diplomatas romenos, com quem iam acompanhando a revolução portuguesa. Os registos desses contactos são múltiplos, depositados nos National Archives.
A 05 de Agosto, estava o governo de Vasco Gonçalves em queda e a luta esquerda direita ao rubro, o primeiro secretário da embaixada romena, Mihai Croitoru, dá uma leitura que os diplomatas norte-americanos em Londres admitem “represente parcial, se não totalmente, a posição do governo romeno”, de Nicolae Ceausescu. É o que se pode ler no telegrama London 12012 enviado para o Departamento de Estado.


CONFIDENTIAL
PAGE 01 LONDON 12012 01 OF 02 051639Z
53
ACTION EUR-12
INFO OCT-01 ISO-00 SAM-01 CIAE-00 DODE-00 PM-03 H-02
INR-07 L-03 NSAE-00 NSC-05 PA-01 PRS-01 SP-02 SS-15
USIA-06 SAJ-01 IO-10 /070 W
--------------------- 085288
R 051621Z AUG 75
FM AMEMBASSY LONDON
TO SECSTATE WASHDC 3499
INFO AMEMBASSY LISBON
AMEMBASSY BUCHAREST
AMEMBASSY MOSCOW
AMEMBASSY PARIS
AMEMBASSY PRAGUE
AMEMBASSY ROME
AMEMBASSY STOCKHOLM
USMISSION NATO BRUSSELS
AMEMBASSY BONN
C O N F I D E N T I A L SECTION 01 OF 02 LONDON 12012
E.O. 11652: GDS
TAGS: PFOR, PINT, PORT, SP, RO
SUBJECT: ROMANIAN DIPLOMAT'S VIEWS ON PORT0GAL

SUMMARY: ROMANIAN FIRST SECRETARY GAVE EMDASSY OFFICER
VIEWS ON SITUATION IN PORTUGAL WHICH ARE OF POSSIDLE
INTEREST SINCE HE UNDOUBTEDLY REFLECTS SOME, IF NOT ALL,
ROMANIAN GOVERNMENT VIEWS. END SUMMARY.
(…)
HE WAS OUTSPOKEN AND DIRECT IN EXPRESSING
A CONCERN THAT PRESENT SITUATION IN PORTUGAL WAS
THREATENING. HE CONCLUDED THAT PORTUGAL PERHAPS WILL
HAVE TO UNDERGO PERIOD OF CIVIL STRIFE AND BLOODSHED.

O diplomata é da opinião de que “provavelmente” Portugal vai entrar um período de quase guerra civil - “conflito social, com derramamento de sangue”.

2. CROITORU ATTACKED PORTUGUESE COMMUNIST LEADER CUNHAL
AS "RIGID DOGMATIST." HE SAID THAT CUNHAL HAS NOT PROVIDED
PORTUGUESE COMMUNISTS WITH THE KIND OF LEADERSHIP
SITUATION DEMANDS WHICH HE ATTRIBUTED TO LENGTHY PERIOD
CUNHAL SPENT IN EXILE IN PRAGUE. DURING EXILE PERIOD
CROITORU SAID CUNHAL SPENT ALL OF HIS TIME IN PRAGUE AND
MOSCOW AND DID NOT VISIT ROMANIA BECAUSE OF ROMANIA'S
INDEPENDENCE FROM MOSCOW. CUNHAL IS EXCESSIVELY DEPENDENT
ON MOSCOW AND NOT FLEXIBLE. BY CONTRAST, SPANISH
COMMUNIST SECRETARY GENERAL HAS SHOWN A GREAT DEAL OF
FLEXIBILITY IN DEALING WITH THE VERY DIFFICULT CIRCUMSTANCES
OF COMMUNIST PARTY IN SPAIN. (FYI: CROITORU
SHOWED CONSIDERABLE FAMILIARITY WITH THE FALLACCI
INTERVIEW WITH CUNHAL. END FYI.)

Neste telegrama, Croitoru é especialmente duro com o líder do PCP, Álvaro Cunhal, por ser um “dogmático inflexível”. Durante os anos do exílio em Moscovo e Praga, disse o diplomata, Cunhal nunca terá visitado Bucareste pela “independência” dos comunistas romenos relativamente ao PCUS e a Moscovo.


9. CROITORU SEES LITTLE POSITIVE IN THE PRESENT SITUATION.
THE POWER STRUGGLE IN THE AFM WILL EVENTUALLY LEAD
TO A COUP OR SEIZURE OF POWER BY A STRONG MAN WITH AN
ENSUING CURTAILMENT OF POLITICAL LIBERTIES, ELIMINATION
OF POLITICAL PARTIES, AND THE KIND OF AUTHORITARIAN REGIM
THE PORTUGUESE HAD FINALLY DIVESTED THEMSELVES OF A YEAR
OR SO AGO. CROITORU BELIEVES THE ONLY POSSIBLE SOLUTION
TO PORTUGAL WAS A PLURALISTIC DEMOCRACY AND A GOVERNING
SOCIALIST/PCP COALITION. HOPES FOR THIS WERE NOW FADING
FAST. CROITORU AGREED WITH A SUGGESTION THAT EITHER
DIRECT MILITARY RULE, WHICH WOULD LIKELY BE OF A RIGHTIST
COLORATION, OR A SEIZURE OF POWER BY THE PCP AND CUNHAL
WOULD BE EQUALLY DISASTROUS FOR DEMOCRACY IN PORTUGAL.


No ponto 9 o telegrama, o primeiro secretário da embaixada romena em Londres adverte para o perigo de um golpe de estado, tanto à direita como à esquerda, incluindo um movimento liderado pelo PCP. Uma ou outra solução “seria desastrosa para a democracia em Portugal”.

Saturday, July 19, 2008

E o fim da ilusão da esquerda... em 1975


"Olhe que não, olhe que não!"

25 de Abril e a ilusão da esquerda!

Imagem do regresso de Cunhal a Portugal em 1974, o tal momento que para uns foi encenado, a exemplo de Lenine, e para outros um mero acaso. Um deles é Jaime Neves, militar que enfileirou na direita, e explicou, numa entrevista ao António Ribeiro Ferreira, no CM, que ele próprio sugeriu a Cunhal que subisse ao blindado para melhor ser ouvido. Na foto, vêem-se Mário Soares, Dias Lourenço.

Cunhal e a art pop



Saturday, July 12, 2008

Bad books don´t exist

É sempre agradável ser "fichado" por um fórum chamado "Bad books don´t exist".
Ainda que me permita discordar: há maus livros, mas esses não merecem ser "fichados"...

Os risos de Marta de la Cal

Marta de la Cal é correspondente há 40 anos da revista “Time” em Portugal. Registo o seu riso sobre um aspecto do primeiro capítulo do meu livro. Escrevi que, segundo os documentos desclassificados, os Estados Unidos foram apanhados de surpresa pelo golpe do 25 de Abril.
Resposta: "(Risos) Ah, eles nunca sabem nada de nada. Nada! Nunca sabem o que se passa. Mas toda a gente sabia que havia um movimento de capitães".

É numa entrevista à revista “Jornalismo&Jornalistas” (sem "link"), do Clube dos Jornalistas. Na entrevista, Marta revela também dados curiosos: que a embaixada norte-americana em Lisboa tentava obter informação aos correspondentes estrangeiros e que ela, Marta, não acreditou na ameaça vermelha, imortalizada pela capa a vermelho da “Time”, que - recorde-se - não foi escrita por ela. “Nunca acreditei na história da ameaça comunista”.

Wednesday, July 09, 2008

Eugénia Cunhal


Eugénia Cunhal, irmã do líder histórico do PCP, é militante comunista; pertence ao sector intelectual do partido em Lisboa, onde também milita, por exemplo, Manuel Gusmão.

Eugénia Cunhal, irmão de Manuel Tiago, escreve mensalmente no jornal “A Voz do Operário”. Crónicas literárias.
Esta foi publicada em Março, em português escorreito, sem mácula. Esta é triste.

A Velha

Entrou. Passo miúdo e lento. Costas em arco, escondidas por baixo do tecido estampado de ramagens coloridas. Talvez a busca inconsciente da alegria. Pano do pó preso na mão flácida. Uma moldura de cabelos recém-cortados, a tentar dar um pouco de cuidado ao rosto de linhas vincadas. De olhar parado. Sem espera.
Então, D. Luísa… Havia uma ironia escondida nas vozes que se cruzavam no espaço largo, semeado de mesas e cadeiras.
- A velha voltou. Ali estava, de regresso. – Meteu baixa por causa da filha – segredava-se. Aquela filha que ninguém conhecia. Aquela filha doente que lhe ocupava o pensamento durante todas as horas que passava a trabalhar fora de casa. Aquela filha que, desde criança, era o seu maior cuidado. Que ia crescendo sem tino. Quantas vezes chegava a casa, não a encontrava e corria para a rua, a procurá-la, a trazê-la de volta.
- A senhora devia reformar-se. Tem quase sessenta anos. A ironia voltava. Não dava por isso. E os olhos concordavam. Porque já mal aguentavam as noites mal dormidas, cortadas pela inquietação. Os dias arrastando-se nas limpezas. Do chão. Dos móveis. Dos vidros das janelas. E o peso do corpo cada vez maior, que tornava os movimentos mais penosos. Mais difíceis. Claro que sonhava com a reforma. Sobretudo quando olhava para trás e recordava que começara a trabalhar ainda mal fizera dez anos. Ficara em casa, cuidando da sua menina para que nada de mal lhe acontecesse. Sem necessidade de inventar novos sítios para esconder os fósforos. As facas. Qualquer coisa que se pudesse transformar num perigo inconsciente. Sonhava com a reforma, sim. Mas não gostava que lhe dissessem que devia reformar-se. Cortava nas despesas o que podia. Até nos medicamentos, cada vez mais caros. Tal como a conta da electricidade, por mais que fosse diminuindo a força das lâmpadas. Tal como a parca comida que conseguia pôr na mesa. Diziam-lhe também, olhando para o seu corpo deformado, que devia fazer uma dieta.
Uma manhã, bastante cedo, uma vizinha que costumava ir à mesma hora que ela para o trabalho, notou-lhe a ausência. Bateu à porta. Uma, duas vezes.
Luísa estava deitada, sem conseguir fazer qualquer movimento com as pernas.
Alguém foi obrigado a separar os braços dela e da filha que se entrelaçavam desesperadamente.